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Maior crise da história faz escolas do Rio apostarem em novos carnavalescos

Os carnavalescos da Grande Rio Leonardo Bora e Gabriel Haddad, que há alguns anos encantam nos grupos de acesso - Reprodução/Instagram
Os carnavalescos da Grande Rio Leonardo Bora e Gabriel Haddad, que há alguns anos encantam nos grupos de acesso Imagem: Reprodução/Instagram
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

30/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Desfile das escolas de samba do Grupo Especial carioca vive a maior crise financeira de sua história
  • Diante da escassez de recursos, as escolas viram-se obrigadas a buscar soluções mais baratas, e isso inclui novos carnavalescos
  • Os sucessos de Mangueira e Tuiuti abriram o caminho, e as mentes dos dirigentes da folia passaram a perder o medo de apostar no novo

O desfile das escolas de samba do Grupo Especial carioca vive a maior crise financeira/institucional de sua história. Sem o apoio da prefeitura e com um modelo de administração em xeque, as agremiações enfrentam muitas dificuldades financeiras para concluir os trabalhos em seus barracões. Vão longe os tempos das vacas gordas, em que enredos patrocinados por empresas privadas e governos municipais, estaduais e até de outros países turbinavam os orçamentos. Nos projetos, com carros suntuosos, algumas vezes nem sequer cabiam nos galpões das escolas na Cidade do Samba.

A crise é o pano de fundo e também ajuda a explicar uma revolução silenciosa que vinha ocorrendo há alguns anos e que se mostra bastante visível no Carnaval 2020. Diante da escassez de recursos, as diretorias das escolas, em um primeiro momento, por pura falta de opção, viram-se obrigadas a buscar soluções mais baratas, seja em mão de obra, mas sobretudo, na questão material.

Os desfiles, para caber nos novos orçamentos, tornaram-se mais curtos. O tempo máximo das apresentações, em menos de 10 anos, caiu de 82 para 70 minutos. Se as escolas desfilavam com oito alegorias, hoje passam com três carros a menos. Muitas enxugaram seus contingentes em até 1.000 componentes. Materiais também foram substituídos. Plumas, sempre caras e antiecológicas, deram lugar a penas artificiais. A reciclagem tornou-se palavra de ordem e tecidos guardados de anos anteriores passaram a ser matéria de primeira grandeza.

Em meio ao novo cenário, a ciranda de contratação dos carnavalescos passou a ter novos personagens. Para o Carnaval de 2016, depois de quase uma década após sua única aparição no Grupo Especial, Jack Vasconcelos foi contratado pela União da Ilha, onde trabalhou ao lado de Paulo Menezes. Em meio a sérias dificuldades financeiras, a Mangueira apostou no novato Leandro Vieira, com apenas um desfile no currículo, para comandar seu barracão. O resultado, todos sabem: a verde e rosa foi campeã e, dois anos depois, Jack roubava a cena com o antológico desfile do Paraíso do Tuiuti que correu o mundo com a imagem do presidente vampiro e legou à escola de São Cristóvão um surpreendente vice-campeonato.

Os sucessos de Mangueira e Tuiuti abriram o caminho e as mentes dos dirigentes da folia, que, assim, passaram a perder o medo de apostar no novo. Nos anos seguintes, a São Clemente trouxe Jorge Silveira, que vinha de bons trabalhos na Viradouro e no carnaval paulistano. Já a Vila Isabel guindou Edson Pereira, com um currículo de grandes desfiles na Série A pela Unidos de Padre Miguel.

Para 2020, a renovação é ainda mais profunda. Depois de um histórico de carnavalescos de peso (e altos salários), a Grande Rio contratou a dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad, que há alguns anos encantam nos grupos de acesso com seus desfiles artesanais. A vice-campeã Viradouro, ao perder Paulo Barros, efetivou Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira, que já conquistaram três títulos da Série A. A Paraíso do Tuiuti, ao perder Jack Vasconcelos para a Mocidade, vem com João Vitor Araújo, que já trabalhou na Série A na Viradouro, Rocinha e Unidos de Padre Miguel.

Desta forma, das 13 escolas do Grupo Especial carioca, temos 7 que trazem artistas da nova geração. Escaldados com as dificuldades das escolas menores e com anos de trabalho como assistentes dos grandes nomes, trazem projetos mais coerentes com a realidade financeira e abusam da criatividade e da reciclagem de materiais. Com liberdade criativa, sem as amarras dos grandes patrocinadores, surgiram temas com um viés mais cultural e que propiciaram bons sambas-enredo.

O processo demonstra-se irreversível. Além das lufadas de novas ideias, os resultados - que sempre movem as decisões dos dirigentes - estão vindo. Leandro Vieira ganhou dois Carnavais, Jack foi vice e Edson, terceiro colocado. Para 2020, Viradouro e Grande Rio estão no rol das escolas mais comentadas, assim como a Mangueira de Leandro e a Mocidade de Jack.

Na disputa, também está um respeitável time de veteranos: Paulo Barros (Tijuca), Rosa Magalhães (Estácio), Renato e Márcia Lage (Portela), Cid Carvalho e Alexandre Louzada (Beija-Flor), Fran-Sergio e Cahê Rodrigues (Ilha) e Alex de Souza (Salgueiro). Mas, independentemente do resultado da abertura dos envelopes na quarta-feira de Cinzas, o Carnaval carioca hoje tem a certeza de que, mesmo que em breve surjam tempos de maior pujança econômica, essa nova turma chegou para ficar.

Anderson Baltar