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Anderson Baltar

Escolas cariocas apostam em jovens artistas e enredos culturais e engajados

Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira - Bruna Prado/UOL
Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira Imagem: Bruna Prado/UOL
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

14/01/2020 12h00

Estranguladas financeiramente por conta da crise financeira do país e da falta de subvenção advinda da Prefeitura do Rio de Janeiro, as escolas de samba do Grupo Especial preparam seus desfiles em meio a um claro processo de procura por soluções mais baratas para a confecção de alegorias e fantasias. Sem os astronômicos patrocínios da década passada, as agremiações, cada vez mais, apostam em artistas novos e em enredos com tom mais voltado para as tradições culturais do país. A politização, presente nos dois últimos Carnavais, também dará o tom de vários desfiles.

Campeã do carnaval 2019, a Mangueira seguirá firme na sua linha de enredos engajados. Com "A verdade vos fará livre", o carnavalesco Leandro Vieira levará para a Sapucaí como seria uma nova vinda de Jesus Cristo - desta vez, nascido no morro de Mangueira. Com letra afiada, o samba-enredo faz toda uma ode à tolerância e à igualdade, sem deixar de dar uma espetadela nos governantes atuais: "Favela, pega a visão/ Não tem futuro sem partilha, nem Messias de arma na mão".

O tema da tolerância também estará presente no enredo da Grande Rio, que apostou em uma dupla de carnavalescos vinda dos Acadêmicos do Cubango, do Grupo de Acesso. Leonardo Bora e Gabriel Haddad terão a sua primeira oportunidade no Grupo Especial com o enredo "Tata Londirá: O Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias", abordando a história do mítico babalorixá Joãozinho da Goméia. No refrão do forte samba-enredo, mais um recado: "Eu respeito o seu amém, você respeita o meu axé", em referência aos reiterados ataques que os terreiros têm sofrido nos últimos tempos, sobretudo em Duque de Caxias, cidade-sede da escola.

As tradições afro-brasileiras também serão abordadas por outra jovem dupla de carnavalescos, que assumiu o lugar de Paulo Barros na Unidos do Viradouro. Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira contarão a história das Ganhadeiras de Itapuã e toda a sua cultura centenária. Atualmente, um grupo cultural, as Ganhadeiras vivem no litoral da Bahia há mais de 200 anos e, nos tempos da escravidão, eram as responsáveis por comercializar pescados pelas ruas de Salvador.

Quem também aposta em um jovem carnavalesco é o Paraíso do Tuiuti. João Vitor Araújo chega à azul e amarela de São Cristóvão disposto a continuar a sequência de bons resultados da escola, que parte para o seu quarto desfile consecutivo entre as grandes. O tema é a mitologia em volta de Dom Sebastião, o rei de Portugal desaparecido no Marrocos no século 16 e a história de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro. No final do desfile, uma pitada de política, com um pedido para que a Cidade Maravilhosa volte aos seus melhores dias.

Pelo terceiro ano seguido desenvolvida por mais um dos jovens carnavalescos cariocas, Jorge Silveira, a São Clemente promete, de uma vez por todas, reafirmar seu DNA irreverente e politizado. Com "O Conto do Vigário", a amarela e preta de Botafogo desfilará contando quatro séculos de maracutaias e vigarices. Um de seus trunfos é o divertido samba-enredo, que conta com a assinatura do humorista Marcelo Adnet - presença confirmadíssima no desfile.

A crítica social também estará presente na União da Ilha do Governador, mas com um tom mais pungente. Estreando como diretor de Carnaval, o veterano Laíla levou para a tricolor uma temática que já fez algumas vezes na Beija-Flor - a mais recente, no campeonato de 2018. Com a experiente dupla de carnavalescos Fran Sérgio e Cahê Rodrigues, a Ilha fará uma crônica sobre a vida na favela sobre a perspectiva de uma mãe que sonha com um futuro melhor para seus filhos.

Por seu lado, a Beija-Flor de Nilópolis, que trará Cid Carvalho e Alexandre Louzada como carnavalescos, prepara seu desfile com a expectativa de voltar a ser campeã. Afinal, triunfou em todas as vezes que encerrou os desfiles de segunda-feira. Com um enredo sobre a história e mitologia das ruas, a azul e branca conta com um bom samba-enredo e com a sua tradicionalmente empolgada comunidade para fazer a escrita valer.

Um enredo que não tinha a pretensão de ser crítico acabou ganhando um dos versos mais panfletários do Carnaval 2020. A Portela, agora com o casal Renato Lage e Márcia Lage de carnavalescos, levará para a Sapucaí o Rio de Janeiro antes da chegada dos portugueses com o enredo "Guajupiá, terra sem males". Porém, os compositores do samba-enredo não perderam a oportunidade de dar tintas políticas à letra e incluíram, em meio à idílica vida de nossos primeiros habitantes, a ressalva de que "nossa aldeia é sem partido ou facção/ não tem bispo, nem se curva a capitão".

Com a estreia de Jack Vasconcelos, a Mocidade Independente de Padre Miguel realiza o enredo dos sonhos de seus torcedores: Elza Soares. A cantora, nascida na Zona Oeste do Rio e que, nos anos 1970, chegou a ser puxadora de samba da verde e branco, terá toda a sua trajetória de luta e afirmação relembrada pela agremiação. O samba-enredo, que tem Sandra de Sá como uma de suas autoras, é tido como uma das apostas de explosão na avenida.

Os Acadêmicos do Salgueiro retratarão na avenida a história de Benjamin de Oliveira, tido como o primeiro palhaço negro e grande inspirador das várias gerações seguintes de comediantes. Com mais um projeto do carnavalesco Alex de Souza, a vermelha e branca da Tijuca apostará em um visual retrô e elegante para recuperar o título do Carnaval carioca - que não conquista desde 2009.

A Unidos de Vila Isabel segue na contramão da maioria das concorrentes. Afinal, conseguiu apoio do governo do Distrito Federal para o seu enredo que, a partir de uma lenda indígena, relata o surgimento da cidade de Brasília. O carnavalesco Edson Pereira aposta, mais uma vez, em um visual bastante suntuoso e de impacto. Tudo para fazer a Vila, que ficou no terceiro lugar em 2019, voltar a conquistar o título do Carnaval.

A Unidos da Tijuca, que terá Paulo Barros de volta após seis anos de afastamento, fará uma homenagem à arquitetura brasileira. O enredo "Onde moram os sonhos" tem como mote o fato do Rio de Janeiro ter sido escolhido pela ONU (Organizações das Nações Unidas) como Capital Mundial da Arquitetura - a cidade também sediará, em 2020, o 27º Congresso Mundial de Arquitetos. O samba-enredo, de bela melodia, foi encomendado a craques como Dudu Nobre, Jorge Aragão e André Diniz.

Outro reencontro programado é o da veteraníssima carnavalesca Rosa Magalhães com a Estácio de Sá, escola por onde teve uma marcante passagem no final dos anos 1980. Voltando ao Grupo Especial após três anos de afastamento, a vermelha e branca levará um enredo minimalista em seu título: "Pedra". A história geológica do planeta e a busca dos seres humanos pelas riquezas naturais darão o tom da narrativa, que também citará o poeta Carlos Drummond de Andrade e o escritor Guimarães Rosa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Anderson Baltar