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Carnavalesco rebate conservadores: "Jesus da Mangueira tem múltiplas faces"

Carnavalesco Leandro Vieira diz que busca "propor coisas que façam com que a escola saia da bolha do Carnaval"  - Bruna Prado/UOL
Carnavalesco Leandro Vieira diz que busca "propor coisas que façam com que a escola saia da bolha do Carnaval" Imagem: Bruna Prado/UOL
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

22/01/2020 12h00

Desde que surgiu no Grupo Especial e, em seu primeiro Carnaval, conquistou um campeonato para a Mangueira, Leandro Vieira tem apostado em enredos de forte impacto e que lançam discussões acaloradas no pré e no pós-desfile. Após conquistar o seu segundo título em 2019, lançando luz em personagens históricos pouco conhecidos, o carnavalesco propôs, para o Carnaval 2020, uma ousadia ainda maior.

Com o enredo "A verdade vos fará livre", a verde e rosa pretende levar para a Sapucaí uma vida de Cristo narrada de uma forma atual - desde uma manjedoura no morro da Mangueira até a morte motivada pela intolerância e violência.

Como resultado, a um mês do Carnaval, a escola lida com uma campanha de setores conservadores que, por meio de vídeos, textos e abaixo-assinados, manifestam-se em repúdio ao enredo.

Nesta entrevista exclusiva à coluna, Leandro Vieira explica as motivações do seu tema e antecipa um pouco do que será apresentado no domingo de Carnaval no Rio de Janeiro.

Você prepara mais um Carnaval em que o desfile nem começou e todos já estão falando da Mangueira. Como você encara mais esta polêmica?

Graças a Deus (risos)! Acho que uma das minhas contribuições à Mangueira tem sido essa. A possibilidade de propor coisas que façam com que a escola saia da bolha do Carnaval. Minha ideia é propor um diálogo vivo com a sociedade e sempre estarmos em pauta.

O que aconteceu recentemente com o Porta dos Fundos está dentro de um contexto de debates artísticos levantados no Brasil de agora. Então, a Mangueira é antenada e isso faz com que seu Carnaval seja assunto. Não pode haver nada mais interessante para as escolas de samba do que serem entidades mediadoras do momento do país. Ou pelo menos um reflexo. A partir do momento em que vivemos um ataque à cultura, está surgindo um contra-ataque. Ficarei muito feliz se, daqui a 50 anos, quando olharem para este momento, todos vejam que uma escola de samba estava neste contexto.

A Mangueira está na ponta de lança deste movimento?

Dentre as escolas de samba, sim. Na cultura brasileira ela é uma das trincheiras. Acho muita pretensão achar que somos a ponta de lança de um movimento que reverbera em várias áreas da cultura. Porém, no segmento de reafirmação da cultura popular e um olhar para o oprimido, a Mangueira assume este papel.

O enredo para 2020, de certa forma, faz uma mistura característica do Carnaval de 2019, que é a pegada engajada, mas, ao mesmo tempo, dialoga com seu desfile de 2017, sobre a religiosidade vista de uma forma peculiar. Isso é proposital?

A Mangueira de 2020 é o Jesus "que não está no retrato" (citação do samba de 2019), vestido de "Só com a ajuda do santo" (nome do enredo de 2017). O Jesus da Mangueira é um Jesus de múltiplas faces, porque é preciso negar o contorno estético que foi criado para ele, com um modelo europeu. Isso tudo tem a ver com políticas de branqueamento, dominação e supremacia branca. Para o Brasil de agora é preciso negar esta figura. E, para isso, uso o caminho estético do Carnaval de 2019, que é o da desconstrução.

Esse Jesus caucasiano, de olhos azuis, foi inventado pela Europa e endossado por várias escolas de pintura, desde o Renascimento. E Jesus nasceu na Judeia, onde o biótipo é totalmente diferente. O que a Mangueira propõe em termos de desconstrução da imagem de Jesus Cristo. É justamente se permitir a pintar seu retrato de Jesus Cristo.

Como é esse retrato?

Eu pinto Jesus com a face dos oprimidos do Brasil de agora. Com as tintas em verde e rosa.

Como surgiu a ideia do enredo?

Este enredo é uma aresta do Carnaval de 2019. Pesquisando, encontrei a história da construção da imagem de Jesus. A quem serviu este modelo e por que era interessante pintar dessa maneira. Qual a força política que uma imagem desta tem para a dominação dos diferentes. Porque, quando você escolhe um modelo, o que se aproxima dele é bom, e o que se distancia não serve. Só que estamos falando de pessoas e modos de vida. E penso que um desfile de escola de samba é arte de alto nível, não difere de nenhuma outra arte.

Se eu tenho a possibilidade de produzir uma obra sacra, quero pintar com minhas tintas e quem as me fornece é o morro da Mangueira. O que eu conto é simples demais. É a vida e a morte de Cristo. É o que tem em qualquer filme que passa na TV na época do Natal e da Páscoa. Já foi usado em vários tipos de arte: cinema, literatura, pintura. Mas nunca no Carnaval. Porque infelizmente o Brasil enxerga o desfile das escolas de samba de forma equivocada. A sociedade continua enxergando o desfile como algo profano, até porque ele até hoje é ligado às classes populares e o Brasil é um país racista.

Você pega Jesus Cristo e o coloca negro, no morro da Mangueira.

Ele tem a face negra do morro, mas também tem a face indígena e feminina também presentes na Mangueira. E terá outras faces que vocês verão no desfile. Ele sofre com o preconceito, com a intolerância e com o arbítrio, assim como Jesus Cristo. O enredo é esse. A história é a mesma. Ele começa na manjedoura e termina crucificado e morto. Não tem como não ter spoiler (risos).

A Arquidiocese tradicionalmente tem uma postura vigilante com o Carnaval e costuma visitar os barracões. Como está a relação com a Igreja? Eles os procuraram?

Eles procuraram a gente, já vieram aqui e viram muitas coisas. O desfile da Mangueira pode ser qualificado como uma homenagem a Jesus Cristo. Nós falamos da mensagem original de Jesus, sem as manipulações políticas que ele sofreu ao longo do tempo. Ele já foi usado para validar a dominação de povos e práticas de torturas contra índios para catequização. No Brasil de hoje, Cristo é usado como uma espécie de fiador de uma política armamentista. Ele motiva uma cruzada contra a cultura.

Então, o enredo da Mangueira é uma homenagem ao Jesus original. Ao amor que não encontra fronteiras, o homem que está ao lado do oprimido e não do opressor. É o Jesus fraterno. Igreja nenhuma pode se colocar contra o enredo da Mangueira, porque não há qualquer intenção de desqualificar sua imagem e, sim, em tempos de intolerância, falar do símbolo máximo da tolerância e amor. Então não há o que se censurar. Mas estamos em tempos em que a mentira é usada para aprisionar as pessoas. E é por isso que é tão importante fazer um enredo como esse. É difícil, mas por isso estou fazendo.

A Mangueira tem a pretensão de ser bicampeã, está se preparando para isso. Propagar a sua mensagem é mais importante do que um campeonato ou vencer é o maior objetivo?

O campeonato não é o mais importante. É possível ganhar mesmo perdendo. Ano passado ganhei ganhando. E é bom. Ganhar é bom, a gente trabalha para isso, mas não é uma obsessão. Existem caminhos mais fáceis para ganhar. Eu gosto de ganhar com o difícil.