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Portela aborda índio como dono da terra e mostra Rio como paraíso no escuro

Renato Lage e Márcia Lage, carnavalescos da Portela - Amanda Alves / Divulgação
Renato Lage e Márcia Lage, carnavalescos da Portela Imagem: Amanda Alves / Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

03/02/2020 04h00

Casados e trabalhando juntos há mais de 20 anos, Renato Lage e Márcia Lage assumem um novo desafio em suas carreiras. Após dois anos na Grande Rio, eles comandam o barracão da Portela em busca de realizar um sonho dos seus torcedores: ganhar um título 50 anos depois de "Lendas e Mistérios da Amazônia", um dos desfiles mais icônicos e que garantiu o último campeonato em que a azul e branca venceu sozinha.

Coincidentemente, o tema escolhido, "Guajupiá, terra sem males", também aborda o universo indígena e narra a vida no Rio de Janeiro antes da chegada dos portugueses. Um desafio inédito na carreira do casal, notabilizado por desfiles de visual high-tech. Nesta entrevista, Márcia Lage fala sobre o processo de construção do enredo e dá notícias sobre como estão os preparativos da Portela para o Carnaval 2020.

Você e Renato estreiam na Portela, uma escola tradicional. E vocês, que sempre tiveram uma marca de desfiles mais tecnológicos, escolheram um enredo indígena - o que é uma novidade em suas carreiras. Como se deu essa escolha?

Na verdade, esperávamos um enredo com patrocínio, mas não conseguimos. Uma das propostas patrocinadas tinha uma pegada indígena e fui lendo muita coisa. O livro do Rafael ("O Rio antes do Rio", de Rafael Freitas da Silva) caiu na minha mão e vi que o ponto de vista do Rio de Janeiro virgem e pelo olhar do índio seria o caminho. Passamos a nos despir da visão clássica e europeia do indígena e da natureza e começamos a pesquisar a estética dos donos da terra em livros e documentos. E é bem diferente. Na visão de Debret e vários artistas europeus, o índio é musculoso, as índias têm formas voluptuosas. E na visão dos índios eles se retratavam bem diferente. Buscamos arquivos, materiais como cestarias, empalhamento, ornados, cerâmicas... como eles se vestiam, os grafismos que usavam. E encontramos essa linguagem visual totalmente diferente da visão acadêmica.

Imagino que a escola ficou um pouco surpresa com o enredo. Talvez eles estivessem esperando algo mais próximo do que vocês se acostumaram a fazer.

Enquanto estávamos elaborando o enredo, procuramos traçar uma linha plástico-visual. Como vamos falar de um Rio de Janeiro de séculos atrás, levaremos para uma visão mais próxima da visão do índio. Usou muito do grafismo, da forma sintética de como imprime sua visão de natureza. E isso vai ao encontro de uma linguagem moderna, que é a que costumamos usar. Será um visual mais clean, que agradou em cheio aos portelenses, que estão mais acostumados com o barroco.

Como foi, nesta fase de carreira, fazer um mergulho por um universo que vocês nunca tinham investigado?

O maior desafio foi a Portela em si. Como eles receberiam a proposta, a estética. Era importante agradar. É uma escola que desfila com um jeito próprio. Nos integramos bem; estamos como pintos no lixo.

Em 2020 completam-se 50 anos de um desfile histórico da Portela, "Lendas e Mistérios da Amazônia", quando a escola foi campeã sozinha pela última vez (nas vezes seguintes, 1980, 1984 e 2017, dividiu o título com outras agremiações). Vocês sentem a responsabilidade de conduzir a Portela a uma nova vitória?

A responsabilidade sempre existe. Você poder ajudar a conquistar um título tão desejado é uma preocupação premente. O peso do campeonato nos aflige em qualquer circunstância. Sempre trabalhamos para ser campeões. Sabemos da missão, que só cresce pelo resgate da história, pelo horário de desfile, ao amanhecer, quando a Portela já se cansou de ganhar. E também pela nossa estreia na escola. A ansiedade é grande. Não sei como estaremos a partir da semana que vem porque a tensão aumenta.

Mesmo com tanto tempo de Carnaval sempre rola aquele frio na barriga?

Sempre tem. Vivemos em uma montanha russa de emoções. Quando você vê o volume de trabalho, torce para que acabe. Aí você desfila e vem a expectativa do resultado. São vários processos que começam e terminam, e a angústia sempre está presente. Neste momento, nossa angústia é de finalizar o trabalho e o levar bem para a avenida. Depois da apuração bate um vazio. Mas, até então, são muitas emoções misturadas: expectativa de como ficou o trabalho plástico, do resultado, se a escola gostou...

O enredo da Portela traz também um olhar sobre o índio do Rio de Janeiro. Quando esse tema surge, geralmente se fala do nativo do Norte ou do Centro-Oeste.

O tupinambá não era uma tribo específica. Na verdade, ele era uma etnia. E conforme os troncos familiares foram se espalhando, foram surgindo outras denominações. Mas, quando você fala do índio, de onde quer que seja, você fala do índio brasileiro. O enredo traz o enfoque do índio como dono da terra; também é uma visão do Rio de Janeiro que era um paraíso e se deixou inundar pela escuridão no sentido mais amplo: da sujeira, do descaso, do medo, da violência. O olhar é do índio de ontem para a cidade do Rio de hoje. O grande tema é o Rio, o Guajupiá, o paraíso perdido. E todo um legado que foi deixado e não soubemos usar.

Me recordo que, quando o enredo foi lançado, vocês pediram aos compositores que não abordassem uma visão politizada sobre o indígena. Porém, o samba vencedor fala que "Nossa aldeia é sem partido ou facção/ Não tem bispo, nem se curva a capitão". É inevitável não falar de política na situação do país de hoje?

É inevitável não fazer a crítica. A todo momento vemos fatos acontecendo que nos provocam essa reflexão. O enredo surgiu antes de toda a questão da Amazônia. E, no frigir dos ovos, todos somos descendentes dos indígenas. E foi necessário atualizar o enredo. O índio hoje é tratado quase como um ser de outro planeta, como algo exótico. Ele é tão brasileiro quanto nós. Aliás, a terra é deles, eles estavam aqui antes. Ele deixaram um imenso legado: palavras, nomes de lugares, alimentos. Se tivéssemos aprendido suas lições, muita coisa seria diferente neste país.

Como está o andamento do barracão?

Estamos dançando conforme a música, com muito planejamento. Independentemente das questões financeiras, tivemos um atraso na organização do Carnaval por causa do impasse da virada de mesa. Isso atrasou repasses de verbas, contrato com televisão. O Carnaval ficou parado, o regulamento saiu mais tarde. Tudo afetou o cronograma. Começamos em agosto, quando o normal seria ter largado em maio. Passamos por uma das piores crises da história do Carnaval, foi um tsunami.

Uma pergunta inevitável: como será a águia?

A águia é a carimbada inicial. Assim que chegamos, todos recomendavam: "Olha a águia!". Sonhávamos e acordávamos pensando nela. Ela virá em um estilo Renato Lage, mas no modo de ser Guajupiá, trazendo uma coisa mais baseada no sonho de um paraíso idealizado.

Anderson Baltar