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Salgueiro homenageia 1º palhaço negro do país: “Temos de falar de cultura”

Alex de Souza, do Salgueiro - Divulgação
Alex de Souza, do Salgueiro Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

13/02/2020 04h00

Construindo o seu terceiro Carnaval nos Acadêmicos do Salgueiro, Alex de Souza prepara mais um enredo de homenagem em sua carreira de mais de 20 anos. O artista, que já relembrou personalidades como Oswaldo Cruz, Juscelino Kubitschek, Joãosinho Trinta, Noel Rosa, Charles Darwin e Vinicius de Moraes, prepara, para a vermelha e branca da Tijuca, um desfile sobre um personagem pouco lembrado da história cultural do país. Em uma agremiação tão marcada por lançar luz em figuras da cultura negra, Alex celebrará os 150 anos de Benjamin de Oliveira, tido como o primeiro palhaço negro brasileiro.

Em entrevista exclusiva, o artista explica detalhes de como a trajetória de Benjamin será apresentada na Sapucaí e reafirma o seu compromisso de fazer um Carnaval leve e encantador, a exemplo do que conseguiu na União da Ilha do Governador em 2014, com um enredo sobre o universo dos brinquedos.

Você traz como enredo um artista importante para sua época, mas muito pouco falado nos dias de hoje. Como você chegou ao universo dele?

Eu já o conhecia, mas não muito a fundo. Estava buscando outros temas e já tinha começado a fazer uma pesquisa sobre o Rei Momo e também sobre "O Guarani", tanto o romance de José de Alencar, quanto a ópera de Carlos Gomes. No meio das duas pesquisas, me deparei com o nome do Benjamin, que tinha a ver com ambas as situações. Achei curioso e pensei que poderia falar dele. Fiquei encantado com a figura dele, que é fascinante.

A primeira vez em as pessoas ouviram a palavra Momo, que, antes de ser associado ao Carnaval, era um Deus do Olimpo, foi numa peça do Benjamin, chamada "Cupido do Oriente", em que ele faz o papel de Momo. Ele faz uma paródia de "O Guarani", que é filmada no início do século passado e exibida em um cinematógrafo. Então, ele também foi o primeiro negro a aparecer no cinema brasileiro, foi um dos primeiros a gravar discos, é um pioneiro. E, por fim, descubro que em 2020 se comemoram os 150 anos do seu nascimento. E, em uma escola como o Salgueiro, tão marcada pela história negra, isso não poderia passar despercebido.

O Salgueiro tem toda essa trajetória com a cultura negra, mas você fez questão de dar um tratamento estético diferente, com leveza e alegria.

O Carnaval tem que fazer sorrir. Não quero falar de tristeza, sofrimento e dor. Vamos celebrar os 150 anos desse grande artista brasileiro. Precisamos falar de cultura e mostrar os grandes valores esquecidos e que inspiraram tanta gente. Acho que você pode realmente mostrar a representatividade, questões delicadas, mas vamos apresentar o Benjamin no palco, no picadeiro, sob as luzes, bonito e elegante. Ele será a grande estrela do picadeiro do Salgueiro, que sempre foi o lugar de fala da negritude desde os tempos de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, que trouxeram essa história marginal para cá nos anos 1960. O Salgueiro já "lacrava" naquele tempo. Benjamin era um grande artista e era negro. Está sendo homenageado pelos dois motivos. É um combo.

Como foi a construção da linguagem visual do enredo?

Pego um circo retrô, vintage. O meu visual pega o apogeu do circo, do final do século 19 até a década de 1920. É uma delícia fazer. Muito antes de eu imaginar fazer esse enredo, assisti ao "Grande Circo Místico", do Cacá Diegues. E a primeira parte do filme se passa em 1910, tem uma fotografia, uma direção de arte e figurino deslumbrantes. De certa forma, isso me inspirou também por ser um visual muito bonito e requintado. Tenho fotos de época, mas tem muito daquilo que eram os grandes espetáculos que se passavam não só no Brasil, mas na Europa e nos EUA. Quero mostrar o fascínio que o circo provocou no Benjamin a ponto de fazer sair de casa e também encantar o público da mesma forma.

Assim como o palhaço, que chora no camarim, o carnavalesco de uma escola sofre de forma semelhante?

Sim, com certeza. A gente prepara a festa para que os outros amem e vibrem. A gente está aqui para materializar o sonho, bater palma para maluco dançar.

Ano passado você sofreu para finalizar o desfile por conta da questão política da escola (o atual presidente, André Vaz, assumiu o poder faltando menos de dois meses para o Carnaval após uma longa disputa judicial). Por outro lado, neste ano, se houve tempo, o cinto apertou financeiramente. Como foi produzir o desfile nesse cenário?

Graças a Deus, o presidente está dando o apoio financeiro necessário. Poderíamos estar mais adiantados porque o dinheiro da TV saiu em outubro, em vez de julho. A polêmica do não-rebaixamento da Imperatriz e a disputa pelo Sambódromo entre governo do estado e prefeitura atrasaram todo o planejamento das escolas. Começamos tarde, mas estamos dando conta. Falta pouco, mas acho que vai dar para terminar direitinho, com mais tranquilidade do que no ano passado. É um enredo de muito bom astral.

Depois de alguns anos, o Salgueiro desfilará na segunda-feira, dia em que os jurados são mais generosos. Chegou a hora de finalmente você ganhar um Carnaval?

Primeiro, a escola tem que desfilar e fazer bonito. A gente faz o melhor que pode dentro das condições possíveis. E aí tudo tem que dar certo na avenida. O Salgueiro é uma grande escola, forte, querida, o enredo é muito bonito e estamos nos esmerando na parte plástica. Temos vários ingredientes para fazer um grande Carnaval. Se vamos vencer, não sei. Mas se ganharmos, será o gran finale...

Anderson Baltar