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Anderson Baltar

Herdeiro da Beija-Flor: "Carnaval não pode depender de político e bicheiro"

Gabriel David (centro) é filho do patrono Anísio Abraão David e comanda a Beija-Flor pelo terceiro ano no Carnaval - Reprodução/ Instagram
Gabriel David (centro) é filho do patrono Anísio Abraão David e comanda a Beija-Flor pelo terceiro ano no Carnaval Imagem: Reprodução/ Instagram
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

12/02/2020 04h00

Caminhando para o terceiro Carnaval à frente da Beija-Flor de Nilópolis, Gabriel David, filho do patrono Anísio Abraão David, já experimentou a sensação de ser campeão em seu primeiro desfile e, no ano seguinte, de obter a pior classificação da história da agremiação no grupo principal (11º lugar).

Nesses dois anos, também se notabilizou por questionar os métodos administrativos e as estratégias de comunicação da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), sempre propondo novas formas de atrair o público - sobretudo, o jovem - para os desfiles da Sapucaí.

"Quem conhece a história do Carnaval sabe que tudo que ele atingiu deve ao jogo do bicho. Mas as coisas mudam, progridem, se profissionalizam. Carnaval não pode depender de uma pessoa, do poder público, do governador e do prefeito. Ele tem de acontecer por si só, independentemente se o bicheiro ou a prefeitura vão dar dinheiro. As escolas precisam fazer um planejamento financeiro para que os desfiles aconteçam", opina.

Nesta entrevista exclusiva, Gabriel fala sobre sua expectativa para o desfile da azul e branca e faz ponderações sobre mudanças que considera necessárias para o Carnaval carioca.

Em dois anos, você foi campeão e, depois, teve uma classificação muito ruim. Quais as lições que você tirou dessa experiência?

Já vivi o céu e o inferno no Carnaval. O principal aprendizado é a certeza de que eu amo isso aqui, afinal, é muito mais fácil amar quando se ganha do que quando se perde. E passamos a trabalhar para corrigir os defeitos e colocar a Beija-Flor mais uma vez no topo. No todo, o maior aprendizado é que uma escola de samba pode fazer pelo povo o que nenhum governo faz. Ela tem a capacidade de chegar onde esses atores políticos não chegam e proporcionar mudança na vida de tantas pessoas carentes. Não é só fazer Carnaval. A Beija-Flor é muito mais do que isso tudo. Isso me estimula e me faz querer fazer mais.

O que foi determinante para o 11º lugar do ano passado?

Fizemos um desfile sem diretor de Carnaval. Não colocamos ninguém no lugar do Laíla. Isso deixou um gap na comissão de Carnaval, na relação com a direção. Outro ponto ruim foi que tentamos inovar demais. No primeiro ano deu certo, pensamos que poderíamos massificar no segundo para dar ainda mais certo, mas não aconteceu. Faz parte. Não quer dizer também que está tudo errado. Em termos técnicos, o erro do Carnaval do ano passado foi no lançamento do enredo. Se tivéssemos focado nos 70 anos da escola, teria sido melhor. Mas, com o uso das fábulas, ficou muito difícil de se entender. Se até a gente aqui dentro não entendia direito, que dirá o público.

Para 2020, então, você aposta na contratação de um diretor de Carnaval, o Dudu Azevedo, e em um enredo mais fácil. E também houve o desmonte do conceito de Comissão de Carnaval, efetivando Cid Carvalho e Alexandre Louzada.

Sem dúvida, o enredo é mais simples, com início, meio e fim claros. E, quanto à Comissão, já observávamos que era necessário desmontá-la. Eu tenho o entendimento que nem todas as pessoas do grupo eram carnavalescas, nem todas pensavam o desfile como o todo. Um desenhava, outro pesquisava, mas quem tinha o desfile todo na cabeça? Eu precisava ter um carnavalesco com o poder da palavra. E tem funcionado muito. Todo mundo que estava na Comissão continua na Beija-Flor, no Departamento de Carnaval ou no Departamento Cultural. Todos felizes e empolgados com a chance de reescrever nossa história. Vamos colocar a Beija-Flor no lugar em que ela merece.

A Beija-Flor foi campeã sempre que encerrou o desfile de segunda-feira (em 2005, 2007, 2008, 2011 e 2018). A expectativa é vencer mais uma vez?

Isso é um paradigma no qual não penso e lembro a todos que isso não ganha Carnaval. Nós só ganharemos se fizermos um grande desfile e esse é o objetivo.

Você falou há pouco do Laíla. Como está a relação com ele dois anos após sua saída da escola?

Eu nunca mais o encontrei, mas eu nunca tive qualquer briga ou discussão com ele. Muito pelo contrário, sempre conversamos muito. Até nos momentos em que ele estava chateado aqui dentro, ele conversava comigo. E ele nem saiu por isso, saiu porque fez ponderações para a escola e ela não conseguia atender. Simples assim. Nem participei da conversa definitiva com ele. Quem estava era meu pai.

Que tipo de ponderações?

Ele queria algumas coisas que a escola não poderia oferecer. A Beija-Flor deve muito ao Laíla, mas ele também deve muito à Beija-Flor. Foi como um casamento. Acabou. Eu tenho um respeito e um carinho imenso por ele. Foi uma das pessoas que mais me estimularam a ficar mais próximo do barracão, da escola. Eu sempre vinha, mas meu pai nunca me obrigou a participar. O Laíla que vinha e me mostrava as coisas, conversava, explicava e isso despertou meu interesse. Não tenho nada contra ele e sei que ele também não tem contra mim.

Você tem 22 anos e, geralmente, um rapaz da sua idade não se interessa tanto por vivenciar uma escola de samba. Inegável que você teve um incentivo dentro de casa. Qual foi o momento em que você se deu conta de que gostaria de trabalhar no Carnaval?

Talvez um rapaz da minha idade não tenha tido as mesmas oportunidades do que eu. O primeiro desfile que me lembro foi em 2003, com a Beija-Flor campeã. Isso me aproximou muito da escola. Criança adora ganhar. Quando perde, muda de brincadeira. Com o tempo fui vendo que meu pai foi ficando mais velho e vi uma possibilidade de poder ajudar. Eu participava de tudo porque ele me deixava entrar em todas as reuniões. Vi que era um trabalho de vida e que precisava de continuidade. Hoje ele descansa um pouco. Merece!

Como você vê o momento do Carnaval das escolas de samba no que diz respeito à questão financeira e institucional?

Em relação à Liesa, vejo a luz no fim do túnel. A Liga teve muita rejeição a novas ideias, mas ela está mudando. E em algumas coisas, a tradição do Carnaval precisa mudar. O Carnaval não pode se dar ao luxo de achar que ele será o Maior Espetáculo da Terra só por existir. Você terá que fazer por onde. Não basta ter apenas bons desfiles. Tem que ter um bom entorno na Sapucaí, um bom serviço, ter boa comunicação, gerar notícias o ano inteiro e não viver só de uma semana.

Muitas pessoas já vieram me perguntar por que eu acredito tanto na mudança, apesar de ter quebrado a cara algumas vezes. Acho que dá para fazer. O Carnaval é um produto incrível, único. Se colocar todo o dinheiro do mundo, a gente fez um outro Rock In Rio amanhã, mas não faz um Carnaval. História e paixão não se compram. Quando o produto é único, ele ainda pode se dar ao luxo de demorar a mudar. O Carnaval chegou ao seu pior momento, mas o povo dá a resposta. Desde 2012 não temos todos os ingressos de camarote e frisa vendidos como agora. E aí a Liesa erra. Por que não divulga? Era para o Brasil todo saber que o Carnaval está sold out. Gera desejo para o ano seguinte.

Dentro da Liesa há o desejo de mudança?

Não sei se há o desejo. Mas começa-se a ter menos restrições. Eu começo a ver mais possibilidade de isso acontecer em um futuro próximo. Na hora em que o Carnaval mudar, ele dará um salto gigantesco. E aí, esquece, São Paulo não vai passar nunca. O Rio de Janeiro é a cidade do entretenimento.

O Carnaval ainda tem sua imagem muito ligada aos banqueiros de bicho. Como você vê a presença do patronato na realidade de hoje, em que você defende um espetáculo autossustentável?

Quem conhece a história do Carnaval sabe que tudo que ele atingiu deve ao jogo do bicho. Mas as coisas mudam, progridem, se profissionalizam. É a ordem natural. Ninguém pensa na desassociação, mas o Carnaval não pode depender de ninguém. Só de si mesmo. Ele não pode depender de uma pessoa, do poder público, do governador e do prefeito. Ele tem de acontecer por si só, independentemente se o bicheiro ou a prefeitura vão dar dinheiro. As escolas precisam fazer um planejamento financeiro para que os desfiles aconteçam. O que não pode é o que temos hoje, que você começa um projeto e não sabe se terá verba para finalizar.

Você disse que é um jovem que teve oportunidade de conhecer o Carnaval. O que falta para as escolas de samba conquistarem a juventude?

Você já foi recentemente ao ensaio de quinta-feira da Beija-Flor? Vá lá ver que não falta nada. Tem gente da Barra da Tijuca, da Zona Sul indo para lá. Sei que ainda é uma exceção, mas é um trabalho que faço há um tempo. Eu tirava dinheiro do bolso para alugar van e levar o povo para a quadra. Hoje em dia todo mundo vai por conta própria. Não convido ninguém. As pessoas vão porque gostam. Elas vão para Nilópolis numa quinta-feira à noite por vontade própria para curtir samba. Não tem DJ, não tem funk, nem sertanejo. Começa às 22h e acaba às 2h30 da manhã.

Qual foi o segredo para atrair esse público?

Comunicação. É informar que é um programa diferente. O Carnaval é cool, só falta informar às pessoas. Só que a Liesa quer comunicar que o Carnaval é para velho. A Liga precisa de gente jovem para se comunicar com gente jovem. Não precisa ser eu. Não me importo com isso. O que a gente quer ver é o Carnaval grande, bem posicionado, com prospecção de futuro.

Uma das queixas do público que compra arquibancadas na Sapucaí é dos camarotes que tocam outros estilos entre os desfiles das escolas. Dentro dessa realidade, daqui uns 10 anos seria possível imaginar esse público consumindo apenas samba?

Acho que é, mas o público tem que entender que esse camarote hoje paga grande parte da conta do Carnaval. Se encontrou um modelo de negócios que funcionou. Tem gente que está lá que não foi para ver o desfile? Mas eles estão pagando a conta do sambista. A escola de samba tem três receitas principais: TV Globo, patrocinadores da Liesa e a bilheteria. Os camarotes ajudam a pagar essa conta. Quanto à trilha sonora, vamos pegar os grandes festivais de música do mundo. O Rock In Rio não toca só rock. É uma mudança global. O jovem hoje é muito dinâmico, ele não quer ouvir a mesma coisa o tempo todo. Acho que tradicionalmente tem que ser um samba tocando por 70 minutos. Mas o cara tem que ter a opção de ouvir qualquer outra coisa. É o mundo moderno. É uma festa da cultura brasileira, em que o palco principal é do samba, mas nos outros têm outras músicas que também são brasileiras.

Como você vê a relação do Carnaval com a televisão?

A Globo é a principal parceira do Carnaval e a TV aberta ainda é a de maior audiência. O Carnaval é do povo, você tem que se comunicar com ele. Fazemos Carnaval para o mundo todo e precisamos atingir o máximo de pessoas possível. E a melhor forma de se comunicar é através da Globo. Ela abraça o Carnaval, briga pelo Carnaval. Em um momento em que muitos políticos brigaram com as escolas, ela fez uma campanha a favor. Como vamos virar as costas para ela?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Anderson Baltar