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Para driblar crise, Vila Isabel produz carros com material orgânico

Edson Pereira, carnavalesco da Vila Isabel - Divulgação
Edson Pereira, carnavalesco da Vila Isabel Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

19/02/2020 04h00

Depois de seis anos sem figurar no Desfile das Campeãs, a Unidos de Vila Isabel fez um Carnaval bastante elogiado em 2019 e conseguiu um festejado terceiro lugar. Um dos principais destaques da apresentação da azul e branca foi o impactante visual concebido pelo carnavalesco Edson Pereira.

Partindo para o segundo desfile comandando o barracão da escola, o artista prepara uma homenagem à cidade de Brasília, mas com uma abordagem diferente. Em vez de um enredo para exaltar as belezas arquitetônicas e discorrer sobre a história da capital federal, o desfile será sobre uma lenda indígena, em que um curumim chamado Brasil percorre todo o país em busca da identidade de nosso povo. O ponto final da viagem, evidentemente, é a cidade criada por Oscar Niemeyer.

Confira mais detalhes sobre o enredo da Vila Isabel na entrevista com Edson Pereira:

Como fazer um Carnaval em meio a tantas dificuldades?

Está sendo muito difícil, mas nada que um carnavalesco que veio de grupos de acesso não tenha passado. O Carnaval é resiliência, e não podemos deixar isso atrapalhar a qualidade do nosso trabalho. Temos carros feitos com material orgânico, como bucha vegetal, capim, bambu e flores naturais secas. Muita coisa que representa o nosso artesanato. Quero pegar um pouco dessa energia para o desfile.

A Vila Isabel vem com um enredo que foi negociado com o governo do Distrito Federal e que, ao contrário do que se imaginava, não faz uma descrição tradicional de Brasília. Como foi chegar a essa linha narrativa? O pessoal de Brasília aceitou bem?

Quando recebemos a proposta de fazer o enredo, um dos motivos para aceitar foi a liberdade que tivemos para trabalhar o tema de uma forma abrangente, cultural e que não fosse direcionado à política. A Vila tem a característica de fazer enredos plurais. E precisávamos surpreender. Quem pensava que teríamos uma abordagem tradicional, será surpreendido. Estamos fazendo uma grande homenagem ao povo brasileiro, falando da identidade de todas as regiões e mostrando a nossa diversidade.

Como você construiu a narrativa?

Ser carnavalesco é ter a liberdade de poder criar. Joãosinho Trinta fazia isso muito bem. O Carnaval precisa ser biografado, mas não necessariamente precisa ser real. A gente precisa fantasiar às vezes, e o Carnaval que estamos fazendo é onírico, lúdico, que proporciona uma plástica comprometida com a história do Brasil.

Eu divido o enredo em leste, oeste, norte e sul, para contar a história desse curumim chamado Brasil, mas que se tornará grande a partir do momento em que ele conhece sua própria gente. Ele faz uma viagem em forma de cruz, saindo do Norte, indo ao Sul, depois ao Sudeste até o Centro Oeste. A cruz é o formato do mapa de Brasília, e uma ave jaçanã sobrevoará todo o trajeto com ele, para, quando ela pousar, formar o mapa da cidade, que é o local onde depositamos toda a nossa fé e esperança.

Você acha que o Carnaval das escolas de samba recuperou o papel de repercutir os temas do país para toda a sociedade?

O social é fruto do Carnaval. Quando falamos de escola de samba, falamos de comunidade. Ela tem essa ligação direta. Precisamos fazer isso com consciência e não transformar a Sapucaí em momento só de protesto. O Carnaval tem compromisso com o conhecimento, com a informação, mas não podemos transformar tudo em momento de lamento. Isso a gente já vive o ano inteiro. O brasileiro tem o Carnaval como válvula de escape para se divertir também.

Você fez um desfile muito elogiado no ano passado e perdeu o Carnaval por detalhes. O objetivo é consolidar o trabalho ou o título é o mais importante?

O objetivo sempre é ser campeão. O que a gente faz é trabalhar muito para cumprir essa meta. E com todas as dificuldades, estamos correndo atrás para continuar galgando essa classificação. Por coincidência, até o horário do desfile será o mesmo do ano passado. Estamos muito fortes para lutar pela vitória.

Observando as justificativas dos jurados, o que você constatou que faltou à Vila para ser campeã em 2019?

Acho que as escolas que ficaram acima da Vila Isabel estiveram tecnicamente melhor do que nós. Não contestamos isso. Quem errar menos vai conseguir vencer. Hoje o Carnaval tem um quesito a mais, que é abstrato, que é a emoção. Esse quesito não é julgado, mas existe e temos que respeitar tudo isso.

A Vila Isabel vem disposta a emocionar o público mais do que no ano passado?

Sempre. A emoção é algo que se abre no momento do desfile. Não tem como prever. O Carnaval tem um ciclo de gestação. São nove meses trabalhando e ele nasce na avenida. Mas sem exame pré-natal e sem saber como ele virá. Espero que venha com saúde.

A mulher grávida sempre tem o sentimento de como será o filho. O que você sente desta "gestação"?

O nosso filho é sempre o mais bonito do que os outros. A gente tem que estar com o pé no chão sabendo que o trabalho tem que ser feito com técnica e responsabilidade e saber que o Carnaval é feito de surpresas. Temos que surpreender.

Anderson Baltar