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"Nunca tive tantas reuniões", diz Dudu Nobre sobre criar samba de encomenda

Dudu Nobre com Jorge Aragão em evento na quadra da Tijuca  - Divulgação
Dudu Nobre com Jorge Aragão em evento na quadra da Tijuca Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

31/01/2020 04h00

Comemorando 20 anos de carreira, o sambista Dudu Nobre, que na última década enveredou-se no ofício de compositor de samba-enredo, assumiu, para o Carnaval 2020, um desafio inédito: fazer, de encomenda, o hino da Unidos da Tijuca. Em parceria com Jorge Aragão e com o trio André Diniz, Fadico e Totonho, consagrados campeões das escolas cariocas, deu vida ao samba que embalará o enredo "Onde moram os sonhos", de autoria do carnavalesco Paulo Barros.

Nesta entrevista, Dudu fala sobre o processo de criação do samba tijucano e faz uma análise do momento do samba-enredo no Carnaval do Rio de Janeiro.

Você já ganhou e perdeu sambas em escolas como a própria Tijuca, Mocidade, Viradouro, dentre outras. Mas, pela primeira vez, você fez o samba sob encomenda para um desfile. É mais difícil assim?

Isso dá um trabalho... É muito diferente. Quando você faz o samba encomendado a responsabilidade é muito maior. A escola fica atenta, todo mundo te liga e fica curioso para saber do hino. Quando eu e meus parceiros fomos nos reunir com a escola pela primeira vez, em vez de estarem apenas os carnavalescos e o presidente, tinha umas 20 pessoas na sala! Por um lado é interessante porque temos a oportunidade de conversar diretamente com o carnavalesco, diretor de bateria, de harmonia. Todo mundo acaba participando. Mas, vou te falar, nunca tive tantas reuniões para fazer o samba. Tivemos pelo menos 20 encontros.

E para ajustar a sua agenda e a do Jorge Aragão com os outros compositores? Foi complicado?

Também teve isso. No meio do processo, o Jorge foi hospitalizado e o pessoal ficou preocupado. Eu dizia para o povo da escola: "Fiquem tranquilos, ele está aqui em casa fazendo o samba comigo!" (risos).

O enredo, sobre arquitetura, parecia um tanto árido. Foi um desafio a mais?

Quando fazemos samba-enredo para a disputa, temos o objetivo de fazer para ganhar. Muitas vezes, o samba vence, mas não era o melhor para a escola. Ganha por ter empolgado mais a quadra e muitas vezes perde pontos dos jurados. Eu sempre tive a preocupação de fazer bons sambas, diferenciados. E o tema era complicado. Para falar de arquitetura, tem que usar palavras como alicerce, concreto, curva, projeto... Mas a gente conseguiu colocá-las no meio do samba de uma forma que não chocasse ninguém. Falamos, por exemplo, que o "povo é o alicerce da esperança". E nosso mérito foi de levar a narrativa pelo olhar do morador do morro do Borel.

Essa sacada de usar o morador como narrador do samba foi de vocês?

Foi ideia nossa. E aí conseguimos dar um ar de poesia para o tema.

Como foi o processo de criação? Alguém tocou mais a letra ou a melodia?

O Jorge teve uma participação importantíssima, porque quem é compositor de samba-enredo já tem um modelo meio pronto, e ele trouxe passagens de melodia que fogem do comum. O início do refrão, que diz "Como é linda a vista lá do meu Borel" é todo dele e é fantástico. Mas, no geral, fomos fazendo letra e melodia. Depois que tudo ficou pronto, fomos lapidando e acertando os tons. Fizemos cinco refrãos e só aproveitamos dois. Se alguém estiver precisando de refrão para o ano que vem, temos três sobrando! (risos). No dia de mostrar para o presidente, tínhamos duas opções de refrão principal e ele escolheu.

Nos últimos anos, várias escolas estão adotando a encomenda de samba-enredo. Como você vê esse fenômeno? É uma fase ou veio para ficar?

Acho que as escolas têm que rever a fórmula das disputas de samba. É muito complicado ter eliminatórias com 10 semanas. E, a cada semana, as escolas têm gastos para abrir a quadra na casa de R$ 10 mil. E os compositores gastam demais com torcidas, cantores e adereços. E aí surgem os escritórios de samba, com investidores que têm condições de gastar cerca de R$ 100 mil para ganhar um samba. Esse ano até que se gastou menos porque algumas escolas mudaram a fórmula. Achei interessante o que a Mangueira fez de limitar os gastos, mas acho que eles poderiam abrir espaço para os grandes puxadores. Eles nos ajudam a melhorar os sambas durante as disputas. Eu acho que cada escola tem que ver sua realidade e escolher o melhor modelo. Encomenda de samba é impensável em escolas como a Portela, Mangueira ou Salgueiro, que têm alas de compositores repletas de nomes consagrados. Mas, em alguns casos, como na Tijuca, que teve pouco tempo para definir o samba, a encomenda foi necessária.

Como você vê o momento do samba-enredo? Gosta da safra de 2020?

A safra me agrada muito. Gosto muito do samba da Grande Rio, da Portela, da Mocidade. Acho o samba do Salgueiro muito mal avaliado pelas pessoas. Acho que a disputa de samba tem que acabar quando termina na quadra. O pessoal fica comentando sobre o samba que perdeu e acaba prejudicando. A escola tem que abraçar o samba campeão.

Anderson Baltar