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Anderson Baltar

De volta à Tijuca, Paulo Barros estreia na Gaviões: "É tudo uma maluquice"

O carnavalesco Paulo Barros - Divulgação
O carnavalesco Paulo Barros Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

07/02/2020 04h00

Nos últimos 20 anos, poucos carnavalescos escreveram capítulos na história do Carnaval carioca como Paulo Barros. Desde que, em 2004, despontou na Unidos da Tijuca após desfiles de impacto no Grupo de Acesso em escolas como Paraíso do Tuiuti e Vizinha Faladeira, o artista provoca em todo o público a expectativa de que irá criar algo inovador.

Voltando para a escola que o projetou e onde conquistou três títulos, Paulo Barros tem ainda o desafio de, pela primeira vez, conduzir o barracão da Gaviões da Fiel, em São Paulo. Em entrevista coletiva realizada no barracão da Unidos da Tijuca, o carnavalesco falou sobre o que prepara para este Carnaval em seu trabalho nas duas cidades.

A volta para a Unidos da Tijuca

Em sua terceira passagem pela escola, o carnavalesco afirma que está mais amadurecido. "Hoje eu sou menos rabugento. Continuo metódico, detalhista, chato, enjoado. O barracão é uma grande engrenagem que tem que funcionar e eu tenho que estar de olho em tudo. Mas a idade está trazendo mais tranquilidade. Quando era mais novo, era mais estourado".

Comparando com o Carnaval de 2004, quando estreou pela azul e amarela e impactou com o carro do DNA, Paulo acredita que sua liberdade criativa está mais consolidada. "Quando cheguei aqui não tinha condições de exigir o que peço hoje. Essa liberdade eu conquistei com o tempo. E a minha trajetória na Tijuca foi muito importante", relembra Paulo que, na primeira passagem, entre 2004 e 2006, conseguiu dois vice-campeonatos.

Quando voltou para a Tijuca, em 2010, vindo de dois anos na Viradouro e um na Vila Isabel, Paulo Barros conquistou seu primeiro título com o antológico desfile "É segredo". E, desta vitória, ele guarda uma recordação muito especial: "Me lembro que estava voltando do desfile para o camarote e fui parado por um senhor. Ele me pegou pelo braço e disse: 'Você tem noção do que fez pelo Carnaval? Eu vou embora para casa agora porque tenho certeza de que não verei mais nada. Na terceira escola, você acabou com meu Carnaval'! Paulo ainda venceria os desfiles de 2012 e 2014 pela Tijuca.

Questionado se, para 2020, a responsabilidade de vencer o guia, o artista mostra-se otimista. "Adoraria vencer no meu retorno. Mas isso depende de toda a comunidade. Todos têm o seu papel. Não posso ter a responsabilidade de ser campeão. Podem tirar essa das minhas costas! (risos) Carnavalesco é meio como técnico de futebol. Quando ganha, foi ótimo e a comunidade também. Quando perde, só ele foi péssimo", afirma.

O enredo da Tijuca

Elaborado em parceria com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, o enredo "Onde moram os sonhos" propõe trazer um pouco da história arquitetônica do Brasil, mas, acima de tudo, fazer um alerta por um mundo mais sustentável. "O grande conceito do enredo é mais ligado à cidade do Rio porque a cidade foi eleita a Capital Mundial da Arquitetura", explica.

No primeiro setor, serão abordados os povos milenares que deixaram grandes obras arquitetônicas como o Parthenon, na Grécia, as pirâmides do Egito e o Coliseu de Roma. O segundo setor traz chegada da arquitetura no Brasil, com toda a herança do barroco e artistas como Aleijadinho. Oscar Niemeyer também será lembrado.

No terceiro setor, uma reflexão do que deu errado na arquitetura: "As grandes cidades se transformaram em um caos e os arquitetos hoje estão preocupados não só com o design, mas com o meio ambiente e com o uso racional da energia", explica Paulo, que destaca que o desfile, em sua parte final, trará uma cidade ideal: "Será o Rio de Janeiro sustentável, com mobilidade urbana, sem poluição, e com ocupação urbana planejada. No nosso encerramento, transformamos uma favela em um lugar perfeito para se morar".

Estilo de Carnaval

Quem entra no barracão da Unidos da Tijuca tem uma impressão de estranheza. Os carros alegóricos não dão muitas pistas do que poderão acontecer no desfile. Tudo dentro do espírito de Paulo Barros para que as surpresas sejam apenas reveladas na avenida. "Se você olhar meu barracão, vai achar esquisito. Mas as pessoas não duvidam do potencial de nosso desfile por saber que tem alguma coisa por trás e que será revelada na pista. Às vezes dá certo, às vezes, não. É do jogo", explica o carnavalesco.

A estreia em São Paulo

Neste ano, Paulo Barros vive uma experiência inédita em sua carreira: a de se dividir entre os barracões da Unidos da Tijuca e a da Gaviões da Fiel, em São Paulo. A recepção da apaixonada torcida corintiana marcou o coração do carnavalesco: "Me receberam na quadra com uma festa fantástica. É tudo uma maluquice, no melhor sentido da palavra. É uma paixão louca e muito estimulante. No dia da minha apresentação, até a coreografia do 'poropopó' eu fiz com eles! (risos)

Por conta da dobradinha, Paulo Barros tornou-se figura habitual da ponte aérea, fazendo viagens semanais a São Paulo. "Poucos carnavalescos cariocas foram tão presentes em uma escola paulistana como eu", afirma. Perguntado como se sente, ele brinca dizendo que, por conta da carga de trabalho, envelheceu três anos. E, para se comunicar com Paulo Menezes, com quem divide o trabalho na Gaviões, o WhatsApp é um grande aliado.

Apesar do desgaste, o artista diz que está estimulado com a novidade em sua carreira e aprendendo muito com o jeito de se fazer Carnaval em São Paulo. "No início houve um estranhamento, mas tudo se encaixou. O Carnaval lá é muito vertical e montado como um Lego. Eles fazem as peças dos carros e os mesmos chegam até 18 metros de altura. Tive que mostrar para eles que isso não é necessário. Mas eu não poderia tirar o tesão dos caras e não oferecer nada em troca. Fiz carros altos, mas dentro uma realidade que seja possível fazer. Estamos fazendo um Carnaval com a característica deles, mas com a minha pegada", explica.

Lições paulistanas

Ao ser perguntado sobre o que o ascendente Carnaval de São Paulo pode ensinar aos cariocas, Paulo Barros diz que aprendeu uma forma diferente de fazer Carnaval, pelo fato do Sambódromo do Anhembi não ter os obstáculos físicos que a Sapucaí possui: "Em São Paulo tenho condições de fazer os carros muito mais facilmente do que aqui. No Rio eu tenho, na concentração, um viaduto de um lado e uma passarela do outro, que me limitam".

Paulo Barros destaca que se impressionou com a estrutura da Fábrica do Samba, localizada perto do Anhembi. "Lá você sai do seu barracão, anda muito pouco e já está no desfile. Aqui, para levar os carros para a avenida é um sofrimento. Você passa por túnel, esbarra em árvore, buraco na rua...", relata.

O carnavalesco destaca que, apesar das dificuldades financeiras do Carnaval carioca, São Paulo ainda não chegou ao nível de investimento que o Rio - mesmo sem a verba pública que não foi destinada para este ano. Mas, mesmo assim, não será um empecilho para o seu projeto da Gaviões. "Está fantástico. Aposto muito no desfile que faremos", acredita.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Anderson Baltar