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Mocidade encanta com homenagem a Elza, mas corre para terminar desfile

Elza Soares durante desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel - Júlio César Guimarães/UOL
Elza Soares durante desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel
Imagem: Júlio César Guimarães/UOL

Do UOL, em São Paulo e no Rio*

25/02/2020 02h31

Penúltima escola a cruzar a Marquês de Sapucaí neste Carnaval, a Mocidade Independente de Padre Miguel veio com uma homenagem à cantora Elza Soares, nascida no mesmo bairro da agremiação. Com um samba de refrão fácil e alegorias grandiosas, a escola impressionou o público, mas teve de correr para finalizar o desfile dentro do limite de 70 minutos, o que pode contar preciosos pontos de evolução na apuração.

O último carro da Mocidade só foi entrar na avenida aos 40 minutos -e, a essa altura, apenas a comissão de frente e o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira haviam chegado à dispersão, o que causou apreensão em quem assistia. A corridinha no final, no entanto, conseguiu recuperar o tempo perdido.

Elza "deusa" Soares

A Mocidade levou para a Sapucaí o samba-enredo "Elza deusa Soares", uma verdadeira carta de amor à artista. Com Sandra de Sá em seu time de compositores, a letra exaltou Elza como um modelo de força, resistência e inspiração, no mesmo tom adotado pelo desfile.

Por meio de suas alas e alegorias, a escola contou a história de Elza desde que ela despontou para a fama no show de calouros do apresentador e compositor Ary Barroso, nos anos 1950. Foram destacados seus grandes feitos artísiticos, incluindo as parcerias internacionais ao lado de nomes como Louis Armstrong e Astor Piazzolla, e também suas lutas por respeito e igualdade —para si e para todos.

Mulher e negra, Elza sofreu na pele uma série de preconceitos, que vieram expostos no quarto carro, chamado "O circo da vida: apanhou à beça, mas é dura na queda". Na parte inferior, racismo, misoginia, elitismo, moralismo e hipocrisia surgiram como os grandes circos ao qual Elza foi submetida diante da opinião pública.

A cantora veio em um trono no último carro da escola, no qual um homem balançava uma bandeira onde se lia uma mensagem importante: "Respeita as mina, as mona e as mana". Elza foi recebida com entusiasmo pelo público e provocou uma enorme comoção ao chegar na Praça da Apoteose. Ela foi ovacionada antes de ser levada em um guindaste para um camarote.

Antes de entrar na Sapucaí, a artista se disse emocionada. "É um sonho. Não tenho palavras. É só alegria. Vontade de rir, de chorar. Estou muito emocionada. É uma homenagem que vai além de tudo, cara".

Seis vezes campeã do Grupo Especial no Rio, sendo a última vez em 2017, a agremiação ficou em 6º lugar na classificação geral do Carnaval 2019.

Elza deusa Soares

Compositores: Sandra de Sá, DR Márcio, Igor Vianna, Jefferson Oliveira, Prof. Laranjo, Renan Diniz, Solano Santos e Telmo Augusto.
Intérprete: Wander Soares.

Lá vai, menina?

Lata d'água na cabeça

Vencer a dor, que esse mundo é todo seu

Onde a "água santa" foi saliva

Pra curar toda ferida que a história escreveu

É sua voz que amordaça a opressão

Que embala o irmão

Para a preta não chorar

Se a vida é uma "aquarela"

Vi em ti a cor mais bela

Pelos palcos a brilhar

É hora de acender no peito a inspiração

Sei que é preciso lutar

Com as armas de uma canção

A gente tem que acordar

Da "lama" nasce o amor

Quebrar as "agulhas" que vestem a dor

Brasil, enfrenta o mal que te consome

Que os filhos do Planeta Fome

Não percam a esperança em seu cantar

Ó, nega, "sou eu que te falo em nome daquela"

Da batida mais quente, o som da favela

É resistência em nosso chão

"Se acaso você" chegar com a mensagem do bem

O mundo vai despertar, deusa da Vila Vintém

Eis a estrela? Meu povo esperou tanto pra revê-la

Laroyê e Mojubá? Liberdade

Abre os caminhos pra Elza passar?

Salve a Mocidade!

Essa nega tem poder, é luz que clareia

É samba que corre na veia

*Colaboraram Gabriel Sabóia, Igor Mello e Lola Ferreira.

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