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Caos no Rio reabre discussão sobre diferenças entre blocos e megaeventos

Bloco da Favorita reuniu cerca de 300 mil pessoas em Copacabana - ALLAN CARVALHO/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
Bloco da Favorita reuniu cerca de 300 mil pessoas em Copacabana Imagem: ALLAN CARVALHO/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO

Thaís Sant'Anna

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Associações de moradores de Copacabana haviam tentado impedir a realização do evento do Bloco da Favorita
  • Em nota ao UOL, presidente da Riotur afirma que produtores e organizadores cumpriram todas as exigências
  • Organizadores de blocos tradicionais do Rio divulgaram comunicado lamentando e repudiando o ocorrido

A confusão causada na dispersão do Bloco da Favorita, que abriu oficialmente o Carnaval do Rio de Janeiro no último domingo na Praia de Copacabana, não foi surpresa, pelo menos para as associações de moradores do bairro.

Tanto a Sociedade Amigos de Copacabana, presidida por Horácio Magalhães, quanto a AMACOPA (Associação de Moradores de Copacabana), comandada por Tony Teixeira, haviam tentado impedir a realização do evento, prevendo que não haveria tempo hábil para organizar uma festa de tal porte, muito menos o policiamento necessário - no dia do bloco, foram registradas 28 prisões em flagrante pelos crimes de tráfico de drogas, roubo e furto.

"Na reunião pública do Conselho de Segurança no dia 17 de dezembro, eu falei publicamente que seria o caos, assim como foi quando a Favorita fez em anos anteriores", conta Teixeira ao UOL.

"Quando a Riotur (Empresa de Turismo do Município do Rio) disse que atração seria o Bloco da Favorita, na mesma hora mostramos nossa discordância. E tinha fundamento: o rastro de destruição que o bloco deixou em Copacabana em 2017 e 2018", concorda Magalhães.

Apesar de ambas associações de moradores tentarem por meio da justiça impedir o evento, com o apoio do Ministério Público, Carol Sampaio, promoter queridinha dos famosos e criadora do bloco, conseguiu liminares e alvarás necessários para a realização.

Para Magalhães isso não foi justo, já que ela não apresentou o requerimento no prazo mínimo de 70 dias antes do show.

"Para nossa surpresa e indignação a Secretaria de Estado da Polícia Militar acabou liberando, apesar da legislação não prever exceções. O prazo já havia acabado", lembra Magalhães.

Teixeira acredita que situações como a ocorrida no Bloco da Favorita "destroem a imagem do Rio". "Depois que acontece tragédia, vem a promessa de que não vai mais acontecer. Mas não dá mais para confiar. É uma sensação de decepção total com as autoridades que não gostam de ouvir a população. É ver que gostam da gente só na hora da eleição e depois não querem nos ouvir e nos respeitar. É bom ter acontecido isso para provar como a Prefeitura é incompetente", desabafa.

Bloco e Riotur se defendem

Em nota ao UOL, Marcelo Alves, presidente da Riotur, Empresa de Turismo do Município do Rio, informou que a abertura do Carnaval foi fruto de planejamento em conjunto da Guarda Municipal, CET-Rio, Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP), Comlurb, Secretaria Municipal de Saúde, Coordenadoria de Controle Urbano (CCU), Polícia Militar e Corpo de Bombeiros.

"Os produtores e organizadores cumpriram todas as exigências dos órgãos acima citados", declara Alves.

Ainda de acordo com o presidente da Riotur, o evento foi pacífico e o tumulto, que ele adjetivou como "lamentável", aconteceu uma hora e meia após o fim do show.

"Estou certo de que a confusão é fruto de um confronto entre pessoas envolvidas e que não representa a maioria, que estava ali para um dia de diversão. Mas o episódio, com imagens que nos chocam, é uma realidade triste e precisa ser encarado de frente", completa.

Já Carol Sampaio, por meio de sua assessoria de imprensa, também ressaltou que o caos foi durante a dispersão e que questões de segurança e transporte não eram de sua responsabilidade.

"Foi um dia lindo com uma festa alto astral, cheia de alegria e música, que é a nossa proposta. Questões relacionadas à segurança pública, ordenamento urbano e transporte são de responsabilidade do Poder Público e fogem das atribuições da nossa empresa", afirmou.

Blocos tradicionais do Rio repudiam ocorrido

O Fórum Carioca de Blocos de Rua, grupo formado por organizadores de blocos tradicionais do Rio, como Sebastiana, Zé Pereira, Coreto, Liga Portuária, Carnafolia, Sambaré, Liga João Nogueira e Cordão do Bola Preta, divulgou uma nota lamentando e repudiando o ocorrido em Copacabana.

O grupo deixa claro que não considera o Bloco da Favorita parte do Carnaval.

"Nem tudo que se diz carnaval é carnaval. É preciso observar as diferenças, a natureza das manifestações. Há uma distância profunda entre carnaval de rua tradicional, composto de blocos feitos por foliões, que ocupam as ruas de forma alegre e afetiva. São pessoas comprometidas com a cidade e com a cultura carioca. No entanto, alguns desses blocos que hoje fazem parte do calendário da prefeitura, por serem shows de grandes artistas, atraem grandes multidões e precisam ser tratados como eventos e ter um tratamento adequado", diz a nota.

Crivella vai limitar megablocos no Rio

Após o tumulto, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, disse que vai revisar a agenda dos blocos de carnaval de rua na cidade. Ontem, ele recebeu os presidentes das associações de moradores da zona sul ontem e adiantou que, a partir de agora, só haverá um megabloco por dia em cada região.

"Uma coisa já decidimos: no dia em que tiver um megabloco, nesse dia só terá o megabloco. Não pode ter muitos outros blocos, porque isso não é possível. Os blocos pequenos, com a ajuda deles, vamos estabelecer o calendário", avisou.

CarnaUOL