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Brasilândia tem grafites e rede comunitária para sair do foco da covid-19

No distrito da Brasilândia, o grafiteiro Digão pintou o rosto de uma amiga enfermeira em um muro, e colocou máscaras em retratos antigos - Arquivo Pessoal
No distrito da Brasilândia, o grafiteiro Digão pintou o rosto de uma amiga enfermeira em um muro, e colocou máscaras em retratos antigos Imagem: Arquivo Pessoal

Juliana Vaz

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

26/05/2020 04h00

O artista Digão tem 41 anos e é nascido e criado na Brasilândia. Ele mora no bairro Vila Serralheiro, mas suas obras estampam os muros de várias partes do distrito paulistano: nos últimos vinte anos, ele desenhou do sambista Bezerra da Silva ao cantor jamaicano Bob Marley, passando por atletas das seleções brasileiras feminina e masculina de futebol. Quando começou a pandemia, Digão resolveu usar a visibilidade de seus murais para chamar a atenção para a importância da prevenção: os retratos ganharam máscaras.

"Uso sacolas plásticas, fita crepe e uns preguinhos para fixação. A ideia é que, quando tudo isso passar, as máscaras sejam retiradas. É um alerta sobre a atitude mínima que devemos ter nesse momento, por nós e pelo próximo", diz ele.

Digão também pintou o rosto de uma amiga, enfermeira, em um muro local. A Brasilândia é o distrito que concentra o maior número de mortos por covid-19 em São Paulo. A doença, que começou entre moradores de regiões centrais, tem se espalhado cada vez mais nas periferias. Um levantamento do UOL com base em dados da prefeitura mostrou que, dos vinte distritos com mais óbitos, 15 estão nos extremos da cidade. Na zona sul, o Campo Limpo teve um crescimento de 610% de mortes por síndrome respiratória entre abril e maio.

"Por aqui, o que mais tem é gente usando a máscara como colar, embaixo do queixo", diz Digão. "Eu passo na frente do bar e dou aquela zoada, mas a galera não percebe a gravidade da situação. Não paro de receber notícias que conhecidos estão internados ou faleceram", lamenta.

A dificuldade de seguir as recomendações da quarentena nas periferias é frisada por quem estuda as desigualdades, diante de uma somatória de fatores que vai além de desconhecimento ou falta de consciência: impossibilidade de parar de trabalhar, infraestrutura de saúde e demais serviços insuficiente, condições de moradia precárias.

No momento, Digão está longe da rua. Decidiu, por enquanto, produzir pôsteres com seus desenhos. Os trabalhos terão metade da venda revertida para a aquisição de cestas básicas para vizinhos. "Eu peço uma ajuda de custo para os materiais e arrecado fundos para comprar mantimentos para famílias das áreas mais vulneráveis", diz.

Grafite do artista Digão na Brasilândia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Morador da Brasilândia, o artista Digão colocou máscaras em murais seus -- como esse que retrata a jogadora de futebol Marta -- para alertar sobre a covid-19
Imagem: Arquivo Pessoal

Ser criança, na favela, em uma pandemia

A cerca de 3 km da Vila Serralheiro está a comunidade da Capadócia, onde vivem aproximadamente 4 mil pessoas. Foi no Centro de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil (CAPS IJ) de lá que a terapeuta ocupacional Juliana Araújo, 37, conheceu de perto algiuns problemas vividos pela população.

Muitas mães trabalham como prestadoras de serviço de limpeza e acabaram perdendo o emprego. Em diversos casos, as famílias são numerosas. Essa situação estressante também afeta as crianças que, sem poder ir para a escola, perdem os meios e as ferramentas para se expressar

Juliana Araújo, terapeuta ocupacional

Pensando nisso, ao lado da amiga Priscyla Okuyama, 35, psicanalista especializada no atendimento de jovens, ela criou uma campanha para arrecadar fundos para brinquedos, livros infantis e materiais lúdicos a serem distribuídos para as famílias da região e de uma ocupação na área do Jardim Damasceno, nos limites do distrito.

A princípio abriram um canal presencial para arrecadação de doações, mas como também iriam se expor ao vírus, suspenderam a ação e agora fazem a campanha online. Ao fim, elas pretendem comprar os materiais e entregá-los a profissionais da UBS Silmarya Rejane Marcolino de Souza, para que façam a seleção das famílias mais necessitadas.

"Queremos também produzir um livreto, com ilustrações, para os pais, a fim de incentivá-los a desenvolver um repertório de brincadeiras lúdicas com os filhos. Muitas destas pessoas foram privadas de brincar na infância e já lançadas ao mundo", diz a terapeuta. Outra preocupação da ação é mostrar para as crianças que tem alguém olhando para elas, uma vez que, em confinamento, o risco de violência psicológica e sexual tende a aumentar.

"É um gesto pequeno, uma ação de micropolítica para apoiar que as crianças se expressem, se sintam seguras", diz Juliana.

Produção de máscaras para todos

Maria Emília Ferreira costura máscaras contra a Covid-19 na Brasilândia - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Maria Emília Ferreira é assistente administrativo, foi demitida e vem costurando máscaras durante a pandemia
Imagem: Arquivo Pessoal
Diante do desafio de ajudar a frear a pandemia no distrito, 30 coletivos se uniram na Rede Brasilândia Solidária. Desde a segunda quinzena de abril, nove grupos de atuação foram criados a partir dali, abrangendo as áreas de saúde, educação, cultura, captação de recursos, trabalho e renda, juventude, comunicação, pessoa com deficiência e assistência social -- como explica Flávio Ivo, 49, um dos integrantes da iniciativa.

A Rede produz faixas e usa carros de som que alertam sobre as medidas de prevenção ao vírus, arrecada alimentos e canaliza reivindicações para a Secretaria da Saúde Municipal. A partir desse grupo, surgiu outra rede: a das Costureiras Solidárias que produzem máscaras de tecido para serem distribuídas por agentes de saúde na região.

O grupo tem 23 mulheres engajadas nesse trabalho voluntário. Milene Frias de Oliveira, 41, professora de corte e costura em uma escola no Imirim, é uma delas e já produziu aproximadamente 300 máscaras no período. "Sem trabalhar fora de casa, me voluntariei para a campanha com alegria. É gratificante poder ajudar de alguma maneira. Aqui, temos pessoas que não podem comprar uma máscara, custe ela cinco reais, porque falta para comprar comida", conta ela, que mora na Vila São Joaquim, próximo à Favela do Iraque.

Quem também integra o grupo é Nadir de Próspero Oliveira, 75. Ela e o marido fazem parte da pastoral da Freguesia do Ó — distrito que também passou das 100 mortes por covid — que desenvolve um trabalho junto a UBS (Unidade Básica de Saúde) da região e promove a defesa do SUS. Após saber do projeto, Nadir acionou mais duas colegas da pastoral e, juntas, já produziram 400 máscaras.

Já Maria Emília Ferreira, 49, assistente administrativo e moradora do Jardim Maristela, está considerando até mudar de profissão após a quarentena. "Eu sempre gostei de costurar, faço algumas peças, e me matriculei em um curso de modelagem antes da pandemia - que agora segue com aulas online. Com a crise, fui demitida e estou descobrindo um prazer maior na produção das máscaras como voluntária. Pretendo costurar profissionalmente quando tudo isso passar", conta.

Flávio Ivo, integrante da Rede Brasilândia Solidária, diz que o engajamento das costureiras é tamanho que decidiu articular a captação de recursos para remunerar as mulheres que, como Maria Emília, perderam seus empregos no período. "Assim como lançamos nas redes sociais os pedidos de doação de tecido para as máscaras, vamos divulgar essa iniciativa para alcançar um patrocínio", almeja ele.

Conheça algumas ações da Brasilândia contra a covid-19

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