Negro e da periferia de SP, Fabio Rodrigo transforma raiva em filmes

Janaína é uma roteirista negra que participa de um encontro com a equipe de um novo projeto audiovisual. A imersão de alguns dias acontece em uma fazenda de tempos coloniais, herança da família do chefe do projeto. A partir daí, situações misteriosas acontecem, principalmente relacionadas a funcionários negros do local.

Este é o início de "Levante". O argumento de suspense e humor marca o último episódio da série "Histórias (Im)Possíveis", no especial "Falas Negras" da TV Globo, que foi ao ar nesta segunda-feira (20), Dia da Consciência Negra. O paulistano Fabio Rodrigo, 40, é um dos diretores do episódio ao lado da cineasta Everlane Moraes e com Luísa Lima como diretora artística. Ele comemora a exibição do enredo na maior emissora de TV do país.

"É uma história sobre a criação de personagens pretos no audiovisual, sobre personagens que existiram na nossa TV e no nosso cinema há muito tempo, mas que reforçavam nossa cultura colonialista. Eram personagens que não tinham alma, não tinham história, não tinham família. Estavam sempre ali para servir uma narrativa que não era deles. Este é o levante."

O levante das personagens negras na ficção reflete, na verdade, um movimento que vem de fora das telas: a ascensão de uma nova geração de cineastas e roteiristas negros no país, da qual Fabio faz parte. "Temos uma equipe forte de cabeças criativas negras no horário nobre", exalta o cineasta.

Nascido e criado na zona norte de São Paulo, na Vila Ede, Fabio Rodrigo não sabia que o audiovisual era uma carreira possível até ganhar o Prêmio da Crítica no Festival de Gramado de 2016, um dos principais eventos de cinema do país, com o curta-metragem "Lúcida".

Antes disso, havia perdido uma verba de R$ 80 mil para viabilizar seu primeiro projeto, "Kairo", por não estar familiarizado com burocracias dos editais. "Quando comecei, não sabia o tamanho da dificuldade. E isso foi bom, na verdade, porque isso pode derrubar sua fé."

"Temos artistas e produtores culturais fazendo eventos e produções na marra nas quebradas. Ou seja, sabem exatamente como fazer, mas quando precisam sentar em frente ao computador para escrever um projeto é outro caminho, porque os editais têm regras muito específicas. Tem um calhamaço de documentação para entregar, coisas que você nem sabia que existia", conta.

"Precisamos lutar para que essas possibilidades estejam ao alcance das pessoas. Essa linha de entrega cultural tem que ser mais interligada, colocar as pessoas em contato. Precisa haver uma confluência de informação para que as pessoas não vejam a burocracia como um impedimento."

Do hip-hop ao cinema

O mundo dos editais, salas de roteiro e oficinas de cinema se abriu para Fabio apenas aos 28 anos. Antes disso, ele era um menino que gostava de desenhar e escutar música. Suas grandes referências no audiovisual são os clipes da MTV. E foi o hip-hop, inclusive, que o ajudou a se entender como um homem negro periférico — um dos temas que ele aborda hoje como cineasta.

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"Era uma criança muito tímida e acuada, vivia situações que nem entendia como racistas na época. Quando eu tinha 13 anos, o Racionais MCs lançou 'Sobrevivendo no Inferno'. Este álbum entrou na minha vida de um jeito muito forte", conta ele, que chegou a ter uma banda e ser MC por um breve período.

"No quintal onde morava, todo mundo era mais retinto do que eu. Ali eu era considerado uma pessoa mais clara e não era tratado como preto. Mas na escola eu era o único preto da sala e sofria pra caramba com racismo. E aí quando Racionais e o hip-hop entram na minha vida, consigo me situar e mudar minha atitude, da minha forma de andar a olhar o mundo."

Após terminar o colégio, Fabio trabalhou em muitas áreas até se encontrar no cinema. Fez curso técnico de contabilidade, desenho, trabalhou como mecânico, com limpeza urbana e até na demolição da Penitenciária do Carandiru.

Quando saí do ensino médio, consegui meu primeiro trabalho por meio de um programa social do Governo do Estado e fui limpar a escola onde estudei. Muita gente dizia que eu era um cara inteligente, que poderia conseguir outra coisa. Mas não achava vergonhoso. Achava vergonhoso estar todo dia na minha casa dormindo enquanto minha mãe saía para limpar a casa dos outros. Fabio Rodrigo, cineasta

Aos 28 anos, começou a trabalhar em uma empresa de telemarketing, quando escutou pela primeira vez sobre a possibilidade de fazer faculdade com bolsa. Escolheu o curso "não sabia exatamente o que era, mas o curso que tinha um conteúdo que me interessava", lembra.

Em 2013, ele participou de uma oficina de formação do Festival de Curtas de São Paulo, o Kinoforum, e ali se encantou com o universo dos filmes. "Me apaixonei de verdade pelo cinema, pela sala de cinema e comecei a tentar conseguir recursos para fazer outros filmes, escrever outras coisas. Vi a partir dali uma possibilidade de falar sobre minhas vivências e as das pessoas que sempre estiveram perto de mim."

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Com seu segundo curta, "Kairo", que foi finalizado cinco anos após perder o edital do MinC, o cineasta ganhou o prêmio de melhor direção em Gramado. E as portas foram se abrindo.

"Entre Nós e o Mundo", curta produzido em 2020, estreou na Mostra de Cinema de Tiradentes e venceu quatro prêmios no Festival de Cinema de Gramado: Melhor Direção, Melhor Montagem, Prêmio Especial do Júri e Melhor Filme pelo Júri da Crítica

O cineasta Fabio Rodrigo exibe os seis prêmios do Festival de Gramado que ganhou na última década
O cineasta Fabio Rodrigo exibe os seis prêmios do Festival de Gramado que ganhou na última década Imagem: Arquivo pessoal

"Nosso cinema é desigual por natureza. Até 2010, só um certo perfil de pessoas conseguia fazer carreira. Tem gente que começou no degrau 10 enquanto tem gente lá no degrau zero querendo chegar."

'Engole o choro': a masculinidade do homem negro periférico

Neste ano, o cineasta estreou o curta "Engole o Choro" no Festival do Rio, enredo que vai adaptar para seu primeiro projeto de longa-metragem. O projeto versa sobre masculinidade e conta a história do adolescente Anderson que é detido após roubar a moto de seu pai. O filme, conta o diretor, tem pitadas autobiográficas,

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"Ele tem uma carga de ficção muito grande, mas falo muito de mim também. Fui criado só pela minha mãe nesse quintal que eram algumas famílias, a maioria delas sustentadas por mulheres pretas sozinhas", relata.

"Na minha juventude, nós, meninos criados nas quebradas por essas mães, renegávamos esse lugar do feminino na nossa vida. Tudo que era feminino parecia frágil, sensível demais. É muito fácil entregar raiva e violência a partir dessa repressão de sentimentos."

"Chegou numa época da minha adolescência que se eu encontrasse meu pai na rua muito provavelmente a primeira coisa que ia pensar é em dar um murro na cara dele, com raiva. E a raiva não é diretamente da pessoa. É um acúmulo."

'Uma nova geração de cabeças criativas'

Fabio se lembra que, quando começou no cinema, em meados de 2010, conhecia pouco o trabalho de outros realizadores negros no país. No mercado comercial, menciona o cineasta Jefferson De, diretor de "Bróder" (2010), "M8 - Quando a Morte Socorre a Vida" (2019) e "Doutor Gama" (2021).

"Olhava para o mercado de cinema e para o que estava nas salas e não me enxergava mesmo. Era muito difícil, você vai perdendo a esperança. Mas agora a gente está vendo a chegada de alguns produtores pretos conseguindo fazer seus primeiros longas", diz ele, citando Grace Passô, criadora e roteirista de "Histórias (Im)Possíveis"; Renata Martins, que também assina o roteiro e criação da série; os cineastas da produtora Filmes de Plástico, André Novais Oliveira e Gabriel Martins; Carol Rodrigues, Diane Ferreira e a própria Everlane Moraes, que codirige o episódio "Levante" com ele.

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Por isso, uma das principais frentes do trabalho de Fabio é a formação de jovens cineastas. Com sua companheira, a também cineasta Caroline Neves, abriu a produtora Ira Negra.

Hoje com CNPJ, o projeto nasceu, na verdade, como uma formação de novos cineastas com o lema "do gueto para o gueto". Desde seu primeiro filme, o Lúcida, ele mescla em sua equipe profissionais experientes com pessoas que nunca tiveram contato com a área.

"Entendemos que assim agregamos pessoas, apresentamos uma área profissional para pessoas que nunca tinham tido acesso. É um processo que funciona muito, primeiro por conta dessa identificação. Toda vez que a gente traz pessoas que são de quebrada para fazer filmes como os nossos, que falam muito sobre sobre as nossas histórias, a nossa vida, elas agregam muito."

"Vem aí uma nova geração de cabeças criativas negras", sentencia o cineasta.

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