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Pelo menos 41 pessoas são furadas com agulhas durante Carnaval de PE

Das 41 vítimas atingidas por agulhadas, 25 são do sexo feminino e 16 do sexo masculino (foto ilustrativa) - Getty Images/iStockphoto
Das 41 vítimas atingidas por agulhadas, 25 são do sexo feminino e 16 do sexo masculino (foto ilustrativa) Imagem: Getty Images/iStockphoto

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

24/02/2020 18h00

Três amigas fizeram os roteiros para quatro dias de Carnaval em Pernambuco, onde iriam dividir a folia entre Recife e Olinda, tiveram suas expectativas de diversão viradas em terror depois que uma delas levou uma furada de agulha durante o desfile do Galo da Madrugada, no último sábado (22).

Pelo menos 41 foliões foram vítimas de agulhadas dadas por pessoas não identificadas, entre os dias 15 e 23 deste mês, segundo boletim divulgado pela Ses (Secretaria de Estado da Saúde). Os registros ocorreram durante as festas de Carnaval em Recife, Olinda e Orobó (PE).

Das 41 vítimas, 25 são do sexo feminino e 16 do sexo masculino. Somente no sábado (22), dia do Galo da Madrugada, 12 pessoas deram entrada no hospital Correia Picanço, localizado na Tamarineira, zona norte do Recife, referência em doença infectocontagiosas no estado. A jovem entrevistada pelo UOL foi uma delas a procurar o atendimento logo após ser furada no braço.

"Estava acompanhando os trios com minhas amigas. Num determinado momento, eu senti uma fisgada no braço e olhei para trás para ver o que era e não entendi o que estava acontecendo. Depois meu braço começou a doer e sangrou na área picada. Foi quando me dei conta que tinha levado uma agulhada", relata a jovem, dizendo que "ali acabou meu Carnaval e iniciou um terror."

As jovens não conseguiram identificar de quem partiu a agulhada e imediatamente procuraram uma ambulância para receber as orientações do que era necessário fazer. A vítima foi levada para o hospital, onde passou por uma triagem, fez o teste rápido de Aids e depois foi submetida ao coquetel antirretroviral para tentar prevenir de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis).

"Fui brincar no Galo, mas terminei no hospital. A medicação que eles dão, necessária para o bloqueio de possível doença, é um terror, é muito doloroso. Tomei seis injeções, sendo duas benzetacil, cada uma de um lado do glúteo, uma outra que doeu muito no osso do quadril e outras nos braços. Saí com um frasco de remédio contra Aids que terei de tomar por 28 dias", relata a jovem. Daqui a 30 dias, ela deverá voltar ao hospital para se submeter a exames e avaliação médica.

As amigas dela e outras pessoas, ao saberem do ocorrido, desistiram de ir para o Carnaval em Recife e em Olinda. "Estou acabada e com medo de ter pego doença. Sabe lá o que tinha na seringa. Lá no hospital disseram ser muito difícil eu pegar alguma doença se eu seguir o tratamento corretamente, mas, mesmo assim, a gente fica apreensiva. Vão ser meses de espera para confirmar o negativo, pois o médico disse que terei de ser acompanhada por seis meses", diz a mulher.

As 41 pessoas passaram por triagem no hospital Correia Picanço, referência estadual em doenças infecto-contagiosas, e 33 pacientes realizaram a PeP (Profilaxia pós-exposição) para prevenir a infecção pelo vírus HIV e outras infecções. "Os demais, ou se recusaram a fazer o teste rápido (pré-requisito para o uso da medicação), e, consequentemente, o tratamento, ou já tinham passado da janela de 72 horas preconizadas para início da medicação", disse a secretaria.

Todos os pacientes foram liberados após avaliação médica, com a orientação para retornarem à unidade de saúde após 30 dias para conclusão do tratamento.

Eles também foram orientados a realizarem o monitoramento permanente de possíveis infecções no próprio hospital Correia Picanço, ou nos SAE (Serviços de Atenção Especializada) dos municípios de São Lourenço da Mata (Hospital e Maternidade Petronila Campos); Caruaru (UPA Vassoural), Pesqueira (Hospital Dr. Lídio Paraíba) e Serra Talhada (Hospital Professor Agamenon Magalhães).

"É importante ressaltar que os índices de transmissão por meio de picadas com agulhas infectadas são considerados baixos, em média apenas 0,3%. Todos os pacientes também receberam a indicação de procurarem os órgãos policiais para investigação das ocorrências, já que as investidas podem ser tipificadas como crime", ressaltou a SES.

Investigações

A Polícia Civil de Pernambuco informou que recebeu denúncias de 25 pessoas que estavam em festas de Carnaval relatando terem sido furadas por algum tipo de objeto perfurocortante. Dez denúncias ocorreram no sábado (22) e 15 foram feitas ontem.

A polícia disse que, no ano passado, apenas duas pessoas que relataram ter sido picadas por agulhas se prontificaram a prestar depoimentos. Foram feitos retratos falados dos suspeitos, foram realizadas diligências, mas nenhum suspeito foi identificado nos inquéritos policiais devido a ausência de elementos.

Neste Carnaval, a Polícia Civil de Pernambuco montou um posto de atendimento 24h no hospital Correia Picanço, que conta com equipe formada por delgados, escrivães, agentes e peritos papiloscopistas para atender as vítimas que queiram registrar a ocorrência na polícia.

De acordo com a SDS, 300 pessoas foram vítimas de objetos perfurocortantes durante o Carnaval de Recife e Olinda em 2019. A SES informou que em nenhum dos casos houve resultado positivos para AIDS após a profilaxia. Dois retratos falados foram feitos de dois homens suspeitos que furaram pessoas em Olinda. Uma vítima também relatou que foi furada por uma mulher. Ninguém foi preso.

Como é feito o bloqueio

O departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, do Ministério da Saúde, explica que a pessoa que suspeita de exposição ao vírus HIV, hepatites virais e outras ISTs deve ser submetida à PeP. O tratamento consiste no uso de medicamentos injetados e comprimidos antirretrovirais para reduzir o risco de adquirir essas infecções.

"Trata-se de uma urgência médica, que deve ser iniciada o mais rápido possível - preferencialmente nas primeiras duas horas após a exposição e no máximo até 72 hora. A duração da PeP é de 28 dias e a pessoa deve ser acompanhada pela equipe de saúde", informa.

A PeP é oferecida gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Clique aqui para saber onde a PeP é oferecida em sua cidade.

O médico infectologista Fernando Maia, professor da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), explica que o bloqueio feito em pessoas que foram vítimas de agulhas ou outros materiais perfurocortantes que sejam suspeitos de estarem infectados, recebem o mesmo bloqueio é o mesmo que se faz em caso de exposição sexual.

"Este bloqueio tem uma eficiência desde que iniciada precocemente. O ideal é iniciar até duas horas após a exposição, mas pode ser iniciada em até 72h após a exposição. Quanto mais cedo começar, melhor. O bloqueio é feito com três drogas, semelhante ao tratamento nos pacientes infectados, e é feito por 28 dias", destaca o médico, explicando que o paciente é acompanhado por 180 dias.

CarnaUOL