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Jovem geração das escolas de samba do Rio investe pesado em supercamarotes

Gabriel David e Bernardo Coutinho são os jovens do Carnaval do Rio - Ricardo Borges/UOL
Gabriel David e Bernardo Coutinho são os jovens do Carnaval do Rio Imagem: Ricardo Borges/UOL
Leo Dias

Leo Dias é jornalista e diretor-executivo do "TV Fama", da Rede TV!. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos. Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: "A fama tem um preço estou aqui para cobrar".

11/02/2020 10h44

Há quem diga que o Carnaval é uma paixão de gerações passadas. Gabriel David e Bernardo Coutinho, crias da Beija-Flor e da Grande Rio respectivamente, estão na ativa para provar o contrário. Os dois jovens empreendedores estão à frente dos maiores camarotes da Sapucaí hoje: o Nosso Camarote (administrado por Gabriel junto a promoter Carol Sampaio) e o Arpoador (sociedade entre Bernardo e o Grupo Coruja). Materializada nas áreas VIPs de primeira linha nos dias de folia, a disposição da dupla para a inovação foi o tema da entrevista concedida à Coluna do Leo Dias em meio às agendas apertadas. Apesar do mau agouro que paira sobre a festa nos últimos anos, principalmente no quesito finanças, os representantes da juventude mostram que é possível enxergar uma luz no fim do túnel.

"Fala-se muito em um Carnaval em crise, mas acho que o povo tem dado uma resposta significativa. Não só no caso do Nosso Camarote, mas todos os espaços têm vendido bem este ano. Estamos numa fase muito boa", comemora Gabriel, de 22 anos, que também é dirigente da Beija-Flor de Nilópolis, escola em que o pai, Anísio Abraão David, é presidente de honra.

Bernardo, de 21 anos, faz coro ao amigo e comemora não só a maré de sorte carnavalesca como as perspectivas para os próximos anos. Na visão dele, que cresceu em meio aos carnavais da Grande Rio graças à família, a chegada de gestores jovens ao Sambódromo atrai pessoas mais novas, com potencial consumidor e ajuda a girar cada vez mais a economia foliã.

"A gente vem com uma cabeça inovadora, (com a intenção) de trazer novos parceiros e credibilidade para o Carnaval. Queremos fazer uma entrega atual para o público, que se renova e muda a cada ano. Temos que mudar, renovar e inovar. Isso é o que eu acho que estava faltando na festa", defende Bernardo, que completa: "Tínhamos um Carnaval incrível e impecável, mas sempre para as mesmas pessoas. O público era o mesmo. Os supercamarotes permitem contemplar não só o público admirador dos desfiles como o público consumidor de outros produtos".

Ricardo Borges/UOL
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Além dos supercamarotes administrados por cada um, Gabriel e Bernardo fundaram juntos um escritório que gerencia carreiras artísticas como a do cantor Kevin O Chris, uma das maiores estrelas do funk atualmente. Tanto na administração dos espaços quanto dos empresariados, eles aplicam o que aprenderam na faculdade de Administração e na vivência dos bastidores da Passarela do Samba. Conhecedores dos principais obstáculos do chamado "maior espetáculo da Terra", eles buscam alternativas para mudá-los ou usam a própria projeção para expor contradições.

"Construo o meu camarote do zero, porque ele não existe ao longo do ano. E há uma empresa especializada em construção de estruturas tubulares que faz toda a Sapucaí, então, eu a contrato por uma questão de facilidade e segurança. Faço o mesmo com o responsável pelas instalações elétricas, por exemplo", explica Gabriel, apontando em seguida um dos maiores desafios dos camarotes: "No entanto, temos que contratar o buffet sugerido pela Liga das Escolas de Samba ou pagar uma 'tarifa de rolha' para que seja possível comprar comida de outro fornecedor. Isso é uma dificuldade e acho que a Liesa poderia rever. É um dinheiro que não vai para o Carnaval".

Além do conforto para o público e dos atrativos para celebridades e influenciadores, o Nosso Camarote e o Arpoador têm se mostrado campeões em captar investimentos e parcerias das marcas mais importantes do país. No caso do camarote de Gabriel e os sócios, o Bradesco comprou a maior cota de patrocínio do local, que passou a se chamar "Nosso Camarote Bradesco" — é a primeira vez em três temporadas que isso ocorre. No negócio de Bernardo, há uma line-up recheada de artistas da Universal Music, a maior empresa de música do mundo.

"As marcas têm nos procurado cada vez mais, mesmo com a impressão de que pode existir um movimento decrescente do Carnaval. Isso é ótimo e mostra que há um tipo de relação comercial com ativação de marcas que as próprias escolas poderiam adotar", afirma Gabriel, que há pelo menos três anos tem atuado em reuniões da Liesa para tentar emplacar projetos que ampliem o horizonte de marketing das agremiações.

Na busca por transformação no modelo de negócio da festa, Gabriel já esbarrou na resistência dos mais velhos e acabou aprendendo, como ele mesmo admite, que uma festa centenária precisa ser atualizada aos poucos. O debate, como o próprio admite, faz parte desse processo.

"É normal ser questionado quando você levanta uma questão. Isso nunca foi um problema e eu lido muito bem com críticas construtivas. Problema seria se vendo o que eu vi e vivendo o que eu vivi, eu não estivesse fazendo nada para transformar as coisas", pontua Gabriel, que não vê espaço para ter os palpites diminuídos apenas por conta da idade: "Não é só porque sou jovem que eu não poderia opinar".

Na visão de Bernardo, compartilhada por Gabriel, o segredo em revolucionar o Sambódromo está não só em trazer gente nova para assistir o que está acontecendo na pista de desfiles, como em absorver as principais tradições da festa. Por isso, tanto o Arpoador quanto o Nosso Camarote, cada um à sua maneira, buscam incorporar o público que sai de casa para ouvir o bom e velho samba-enredo.

"De forma alguma queremos afastar o público antigo dos desfiles. E não esquecemos dele. Estamos fazendo apenas a junção entre o público consumidor atual e o do passado. Sem a menor sombra de dúvidas, o Carnaval do Rio está onde está hoje graças aos idealizadores iniciais. Estamos apenas fazendo uma atualização trazendo grandes nomes para a Sapucaí e para os camarotes. Acredito a junção entre passado e presente é perfeita", justifica Bernardo.

Bernardo Coutinho e Gabriel David - Ricardo Borges/UOL
Bernardo Coutinho e Gabriel David
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Leo Dias