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A curiosa viagem de 'Disco Arranhado' até o sucesso

Tierry, César Menotti e Fabiano, Malu e DJ Lucas Beat: eles fizeram 'Disco Arranhado' acontecer
Tierry, César Menotti e Fabiano, Malu e DJ Lucas Beat: eles fizeram 'Disco Arranhado' acontecer
Divulgação

Breno Boechat

Colaboração para Splash, no Rio

04/05/2021 04h00Atualizada em 04/05/2021 12h39

No estúdio montado no próprio quarto, o DJ Lucas Beat desvenda a história de seu maior hit até o momento. A versão funk de "Disco Arranhado" ultrapassou os 40 milhões de plays no Spotify, coroando uma música que deu uma longa volta até se tornar uma das mais tocadas do país.

A tour começou há quatro anos, pelas mãos de um dos maiores compositores do país, o baiano Tierry. Antes de se espalhar pelo TikTok na batida do funk e na voz de Malu, "Disco Arranhado" viajou por cenários bem diferentes.

O hit que grudou na cabeça dos brasileiros é, digamos, uma versão da versão.

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Ponto pro compositor, que tira onda por ter criado um sucesso não perecível:

Música boa não tem prazo de validade e essa tem uma boa sacada. Pôr algo diferenciado numa canção é como pôr um brinco de diamantes numa mulher.

Tierry

Ele revela o "tchan" de sua obra. "A grande sacada está na parte que repete o 'te amo'. Você imagina um disco arranhado: te amo, tshh, te amo, tshh, te amo? Também fui muito feliz na construção dessa melodia" , analisa o autor de "Rita", "HB20" e outras mais de 600 músicas já gravadas.

Em 2017, Lucas e Malu ainda estavam bem distantes de Tierry, que já era um dos compositores mais procurados do país. A faixa tinha dois destinatários bem diferentes: o hit maker queria conquistar os irmãos César Menotti e Fabiano, depois de uma tentativa frustrada no ano anterior.

A gente conheceu o Tierry em 2016 em uma audição de escolha de repertório, mas acabamos não gravando nenhuma música dele. Ali criamos uma amizade e passamos a nos falar sempre.
César Menotti, o queridinho do Twitter
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O match rolou no ano seguinte, quando finalmente apareceu "Disco Arranhado", como explica Menotti:

Ele falou para o nosso empresário: 'Avisa os meninos que eu fiz essa especialmente pra eles'. Eu ouvi e já me encantei, porque o Tierry é um cara fora da casinha para escrever.

O mineiro confessa, no entanto, que teve uma certa resistência ao que chamou de "elemento surpresa" da canção:

Fiquei pensando que a juventude de hoje não sabe bem o que é um disco arranhado. Eu nasci nos anos 1980, então sei bem. Mas gostamos muito da letra diferente e da melodia. Liguei para o meu produtor, pedi para ele montar um arranjo e lançamos.

César Menotti

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O modão da versão original "rodou bem pelas rádios, principalmente no interior do Brasil", segundo Menotti, mas não chegou nem perto do sucesso que a canção teria mais adiante. "Foi uma música muito bem executada, mas não foi aquele hit", explica o cantor.

Dois anos depois, o "disco arranhado" de Tierry foi parar em Vitória da Conquista, na Bahia, nas mãos da jovem Malu, que, aos 17 anos, preparava o repertório de seu primeiro álbum promocional.

Em 2019, Malu deixou o emprego de vendedora em uma loja de roupas e se lançou como "a nova voz romântica do Brasil". No disco de estreia, entre versões de hits de Maiara e Maraísa e Marília Mendonça, transformou o modão dos Menotti em um brega que logo se espalhou por toda a Bahia.

"Amei que ela fez uma versão totalmente diferente da nossa, como se fosse outra música. Não conheço a Malu, mas a admiro e tenho um respeito gigante por ela. Mandei DM no Instagram dando parabéns, disse que achei linda a versão dela, que começou a tocar muito no norte e no nordeste", conta Menotti.

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Tierry também se surpreendeu ao ouvir a música pelas ruas de Salvador na voz de uma cantora que não conhecia. Ele conta que um amigo, dono de uma rádio da cidade, estava apostando em Malu e queria a exclusividade da canção, que já aparecia como um sucesso regional.

A liberação veio em troca da entrada de algumas músicas de Tierry na programação da rádio. A experiência como compositor que já levou muito cano fez o hit maker jogar duro.

"Eu até brinquei que não gosto de dar margem para coisa errada. Eu sei que quando essas coisas acontecem a gente precisa frear para que não aconteça de novo. A música precisa ser autorizada pra ser gravada. É preciso doutrinar as pessoas a fazer as coisas certas", destaca o compositor.

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Dois anos depois de Malu —e também sem o conhecimento de Tierry— Lucas Beat fez o remix que colocaria "Disco Arranhado" como uma das músicas mais tocadas do país. Já o DJ alega ter se valido da autorização dada a Malu para remixar a faixa. E, mais uma vez, Tiehit foi convencido pelo sucesso.

Eu acho que quando a música é escolhida pelo povo, a gente não tem que criar nenhum tipo de barreira. Você ir contra o povo é a maior burrice do universo.
Tierry

"O Lucas mitou", analisa Menotti, contente com o resultado: "Ele pegou a versão da Malu, que já era top, e fez uma coisa ainda mais louca. Não sei por onde começou, mas essa música caiu nos tiktokers, todos começaram a fazer o challenge e virou o fenômeno que é hoje".

Depois de aprender a mixar com tutoriais no YouTube, Lucas começou a produzir funks para artistas de sua cidade, Presidente Prudente, por R$ 20. Antes de acertar o primeiro hit, "Tuts Tuts, Quero Ver", o valor da produção já estava em R$ 300. Até que ele teve a ideia de remixar sucessos sertanejos.

Uns e outros não gostaram e pediram para tirar. Mas a maioria curtiu e o pessoal começou a pedir pra eu fazer os remixes.
Lucas Beat
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O DJ chegou até "Disco Arranhado" ao ver um meme na voz de Malu: "Gostei tanto que nem quis saber se ela estava estourada. Entrei em contato com a Malu e falei que queria fazer o remix. Eu sabia que era do Tierry, mas só depois descobri que os Menotti tinham gravado. Eles me ligaram para elogiar".

O sucesso na versão de Malu e no beat de Lucas dominou o Brasil e chegou até a Europa, com um terceiro lugar do ranking do Spotify em Portugal. Por aqui, só não superou "Batom de Cereja", de Israel e Rodolffo. "Também, né? Os caras estão no 'BBB'. Não tem como competir", brinca Lucas.

Os números de 'Disco Arranhado'*

  • César Menotti e Fabiano (2017): 5.6 milhões de views
  • Malu (2019): 39 milhões de views
  • Tierry (2020): 14 milhões de views
  • DJ Lucas Beat e Malu (2021): 50 milhões de views

*Os dados referem-se ao YouTube

A vida mudou um bocado para o DJ paulista, que hoje já tem 6 milhões de ouvintes mensais no Spotify e três faixas entre as mais ouvidas da plataforma. "O que mais mudou é que hoje praticamente todo mundo topa quando eu chamo para fazer o remix", compara Lucas.

Enquanto Malu curte o sucesso e conta que recebeu convites para shows no exterior e contatos de grandes gravadoras, Tierry vê sua versão chegar a mais de 14 milhões de views no YouTube e já prepara uma nova parceria com Lucas. Dessa vez tudo certinho.

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Nesse espírito de gratidão coletiva, os Menotti fazem questão de mostrar o reconhecimento às versões. Afinal de contas, eles também estão aproveitando o novo momento da música:

"As nossas visualizações chegaram a subir 100 mil por dia e tem muita gente elogiando, descobrindo. Quatro anos depois, ela voltou a ser a nossa principal música. Tenho muita gratidão ao Tierry, a Malu e ao Lucas", comenta Menotti, que arremata a moral da história da viagem de "Disco Arranhado":

Músicas de verdade duram muito tempo. A gente tende a achar que as músicas boas são as de antigamente, mas eu aprendi uma lição com a cantora Marilene, das Irmãs Galvão: uma música não é boa porque é velha, ela é velha porque é boa.