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Por que não devemos acabar com o tédio (mesmo ele sendo incômodo)

PeopleImages/Getty Images
Imagem: PeopleImages/Getty Images

Isabella Abreu

Colaboração para o VivaBem

13/12/2021 04h00

Em um mundo em que somos constantemente estimulados e a todo tempo temos entretenimento na palma das mãos, muitas vezes somos alertados de que nosso impulso de nos distrair a cada instante pode ser perigoso. Há quem diga que precisamos cultivar momentos de tédio para a nossa saúde mental e crescimento pessoal e profissional.

Segundo John Eastwood, professor de psicologia e coordenador do Boredom Lab, o tédio não se caracteriza como uma falta absoluta do que fazer, mas sim como "um sentimento desconfortável de querer, mas não conseguir se engajar em atividades satisfatórias". Isso explicaria porque podemos continuar entediados mesmo com uma abundância de opções de atividades.

Diferente do ócio, que representa o tempo livre e o "não fazer nada", o tédio vem da falta de estimulações que sejam suficientemente prazerosas e, em geral, traz uma sensação incômoda, frente a qual nosso ímpeto é tentar se livrar, se distraindo com alguma coisa, explica Natalia Fonseca, psicóloga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e professora da The School of Life.

"A armadilha está em tentarmos nos distrair da sensação incômoda do tédio, e não em nos proporcionar alguma atividade de qualidade. É como se fosse tentar se distrair do problema, mas não buscar uma solução", afirma Fonseca.

A pesquisadora Patricia Cotton, fundadora da consultoria Upside Down Thinking, vê o tédio essencialmente como um útil e mobilizador incômodo, que independe do engajamento em atividades, já que —mesmo quando ativos— nos sentimos desconfortáveis quando estamos entediados.

"É preciso ter coragem para ver essa 'seta', que aponta a possibilidade de aventura e experimentação de novos caminhos", diz Cotton, que deixou uma carreira em departamento de marketing de grandes empresas e foi estudar o ciclo do tédio na Alemanha, na Berlin School of Creative Leadership.

Ela ressalta que nos tornamos "alérgicos" ao tédio e tentamos (em vão) combatê-lo com o excesso de atividades e com a alienação trazida pelo trabalho intenso e sem fronteiras, e também através da busca obsessiva pela distração, como se o vazio, o mistério e a contemplação fossem coisas a serem superadas.

Muitas vezes, na opinião da psicóloga Natalia Fonseca, essa urgência em acabar com o tédio vem da falta de autoconhecimento e de habilidades para lidar com as emoções. "Por que não consigo ficar só, com meus pensamentos? O que pode vir de ruim que estou fugindo? Será que estou evitando olhar/pensar/sentir sobre algum desconforto na minha vida? E, se sim, como vou resolver esse incômodo, se sequer consigo reconhecê-lo?", questiona.

Além disso, essa necessidade de acabar com o tédio pode vir também de uma cultura que defende que temos que estar produtivos o tempo todo e há algo de ruim, desprezível ou vergonhoso em não fazer nada. "Mas, vale lembrar, produzir o tempo todo simplesmente não condiz com as necessidades básicas do nosso organismo", enfatiza.

A origem do tédio

Em episódio do podcast "Build for Tomorrow", o apresentador Jason Feifer conversa com Susan Matt e Luke Fernandez, especialistas em história das emoções e autores de "Bored, Lonely, Angry, Stupid" ("Entediado, solitário, raivoso e burro", em tradução livre), sobre o tema.

Eles contam que a experiência do tédio é algo que remonta à Grécia Antiga. "Os antigos gregos tinham uma palavra 'acédia', que significava apatia, e os primeiros cristãos aplicaram-na aos monges, que saíram para o deserto, viveram sozinhos e foram atingidos por uma melancolia", diz Susan Matt.

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Acreditamos que o vazio, o mistério e a contemplação são coisas a serem superadas. Mas por quê?
Imagem: iStock

Isso criou uma situação problemática para os monges: como você pode ficar entediado enquanto faz algo tão aparentemente importante como servir a Deus? Foi assim que o tédio se tornou um pecado, evoluiu ao longo dos anos, migrando para além do mosteiro no século XII.

Na mesma época, os franceses desenvolveram uma palavra semelhante: "ennui", que significava "uma apatia drenante". Em seguida, o tédio foi adotado na língua inglesa. Já nos Estados Unidos, o tédio era considerado um flagelo.

Vale ressaltar que o tédio, como a acédia, ainda era uma preocupação predominante entre a elite. Acreditava-se que os trabalhadores tinham muito para mantê-los ocupados, então tédio era o que as pessoas sentiam quando tinham muito lazer e pouco o que fazer. Era um tédio muito real, mas também uma espécie de culpa ou vergonha por todo o tempo excedente, o que tornava o tédio uma experiência complexa.

Com a Revolução Industrial, o conceito de trabalho mudou drasticamente e, com isso, veio uma mudança na natureza do que era o tédio, quem o vivenciou e como.

Antes, muitos trabalhavam por conta própria. Depois, mais pessoas trabalhavam para outras, realizando uma única tarefa em uma fábrica repetidamente. E eles encontraram muito pouca virtude nisso. É sob este pano de fundo que a palavra "tédio" finalmente assume o centro das atenções.

"Quando o trabalho é uma droga, o tempo fora do horário de expediente deve compensar isso", diz Jason Feifer. "Muito rapidamente, a indústria do entretenimento também interveio para preencher esse vazio e isso, disseram aos trabalhadores, é a sua recompensa por um dia de trabalho árduo. Você ficará entediado de ganhar dinheiro para poder gastá-lo de maneiras não entediantes ".

Isso trouxe uma mudança mais profunda em como vemos nossas vidas em geral. "Essa foi uma revolução em como muitos concebiam o significado da vida, alterou suas expectativas sobre o que tinham direito, ao invés de tristeza e aceitação passiva do trabalho enfadonho rotineiro. Muitos passaram a acreditar que o prazer, a felicidade, a emoção e a novidade eram seus direitos de nascença", afirma Luke Fernandez.

Como aproveitar melhor os momentos de tédio

Para especialistas, acabar com o sentimento de tédio não é possível, nem mesmo é saudável para o nosso amadurecimento emocional. "Gosto mais da ideia de se acolher e aceitar o tédio, para então transformar esse sentimento saudável, que tem razão de ser", diz Cotton.

Ela recomenda buscar um entendimento mais profundo do desconforto e da sensação de vazio trazidos pelo tédio, que são oportunidades e matéria-prima para a criatividade e mudança. "Experimente a solitude, o silêncio e a desconexão virtual. Contemple o céu ou o teto de casa para perceber que não há tédio no mundo, há apenas olhos entediados".

Ilana Andretta, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), acredita que é preciso desenvolver a habilidade da atenção plena, fazendo uma coisa só por vez, o que melhora a qualidade das atividades que fazemos, já que ficamos muito mais conectados e envolvidos.

O tédio também pode ser um momento importante para descansar, restabelecer energia e reconectar-se consigo. "É muito difícil desenvolver autoconhecimento se estamos interagindo com atividades e coisas o tempo todo, olhando sempre para fora. É necessário ter momentos em que se pode parar e não fazer nada. Se o que surge nesses momentos é ansiogênico demais, psicoterapia pode ajudar", sugere Fonseca, da The School of Life.

Errata: o texto foi atualizado
Diferente do que foi informado, o nome correto do podcast é "Build for Tomorrow" e não "Build for the Future". A informação já foi corrigida.

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