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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Languishing: o que é essa sensação de apatia que cresceu durante pandemia?

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Ana Luísa Vieira

Colaboração para o VivaBem

10/06/2021 04h00

Ansiedade pela incerteza em relação ao futuro, depressão pela perda de amigos e familiares queridos, preocupação pelos planos adiados, esgotamento diante das notícias sobre o avanço de uma doença pouco conhecida. Muitos dos efeitos da pandemia sobre a nossa saúde mental são facilmente identificáveis. Um deles, entretanto, parece permanecer no escuro —talvez pela ausência de emoções claras para qualificá-lo. O "languishing", termo cunhado pelo sociólogo Corey Keyes e descrito pelo psicólogo organizacional Adam Grant no jornal The New York Times, é um estado emocional que, em sua essência, se define pelo vazio.

Quando falamos em saúde mental, abordamos sensações situadas entre dois extremos: o bem-estar —de quem se sente bem, feliz, satisfeito e completo com a própria vida — e a depressão —dos que experimentam mal-estar, infelicidade e ansiedade de forma contínua. "O 'languishing' não está nem de um lado e nem do outro. Fica no meio do caminho. Ainda assim, não é neutro e está longe de ser positivo. É quase que um limbo emocional", comenta Thaís Gameiro, doutora em neurociência pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e sócia-fundadora da Nêmesis, empresa de consultoria corporativa em neurociência organizacional.

Em geral, os especialistas em saúde mental apontam que este sentimento de apatia já era conhecido antes da pandemia, mas costumava ser encarado de forma individual. "Cada um tinha seus motivos para ser acometido por este vazio. Com a chegada do coronavírus, houve um impacto para toda a humanidade. Houve um estímulo comum para que várias pessoas do mundo começassem a se queixar deste mesmo processo", diz Gameiro.

A especialista aponta que, no caso do "languishing" —assim como aconteceu em relação a outros efeitos emocionais deste período que vivemos —, o grupo mais atingido é o das mulheres. Muitas seguem trabalhando fora de casa ao mesmo tempo em que precisam acompanhar o desenvolvimento escolar dos filhos e ainda dar conta dos afazeres domésticos. "Por mais estruturadas que sejam algumas famílias, a divisão de tarefas na nossa sociedade não é justa". Segundo ela, os jovens também têm sofrido grande impacto porque perderam muito da interação social a que estão acostumados, e quando ela existe, é bastante restrita.

sofá; tedio; cansaço; zapear - iStock - iStock
Na pandemia, muita gente não tem conseguido ter ânimo para fazer as coisas
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É importante nomear o que se está sentindo

No Brasil, o "languishing" tem sido traduzido como "definhamento", que, por sua vez, tem seu significado associado a termos como "debilitação progressiva", "extenuação", "enfraquecimento paulatino" e "abatimento". Para Marina Pinheiro, professora da pós-graduação em psicologia cognitiva da UFPE (Universidade Federal do Pernambuco), são todos efeitos relacionados às dúvidas sobre o que ainda está por vir quando o assunto é a pandemia.

Somos movidos pelo tempo e essas incertezas trazidas pela covid-19 fazem com que a gente perca uma bússola importante na nossa caminhada. O ineditismo do que vivemos no presente se soma a essa nebulosidade do futuro. Perdemos algo que nos estabiliza".

Pinheiro ainda ressalta que "batizar" o fenômeno é o primeiro passo rumo a uma abordagem efetiva do problema: "Cada época precisou dar um nome ao que se sentia. Neste momento em que a gente atravessa uma grande ruptura —na economia e nas relações sociais —, o 'languishing' vem para que possamos transcender o plano individual e compartilhar o nosso sentimento. Nomear o que se sente nos dá a possibilidade de transformar as coisas".

Problemas relacionados à saúde mental estão por vir

A grande preocupação atualmente é que o "languishing" aponte para uma explosão, nas próximas décadas, de doenças mentais como a depressão —que já é uma das maiores causas de incapacitação no mundo. "Eu penso que os efeitos para a saúde mental vão aparecer como uma 'quarta onda' da pandemia", observa Carla Guth, psicóloga especialista em família e construcionismo pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

"Neste período de isolamento, somos obrigados a ficar frente a frente com nossos medos, desejos, coisas que não conseguimos realizar? Quem já sofria de ansiedade e não conseguiu seguir algum fluxo neste momento de restrições, vai entrar nesta apatia —e depois as consequências vêm com mais força, na forma de uma depressão ou uma síndrome do pânico, por exemplo", avalia ela.

Thaís Gameiro, da consultoria Nêmesis, diz que essa sensação pode ser um mal silencioso que se transforma gradativamente em algo mais grave. Ela também lembra dos prejuízos que, neste caso, se estenderiam ao mercado de trabalho: "Transtornos mentais de qualquer natureza têm custos muito altos: as pessoas ficam afastadas do trabalho por muito tempo; quando voltam, podem ter recaídas. O retorno nunca é fácil".

De acordo com Gameiro, já temos previsões de que não haverá especialistas suficientes para tratar de todas as pessoas com a saúde mental debilitada num futuro próximo. Por isso todos os cuidados têm de ser tomados desde já. Empresas e organizações precisam dar espaço para que o assunto entre em pauta porque a questão está longe de ser meramente pessoal.

Na rotina profissional, alguém que sofre com o "languishing" pode ficar desmotivado e, aos poucos, perder a produtividade. O psicólogo Adam Grant lembra, em seu ensaio no jornal The New York Times, que este tipo de perda não compromete simples e unicamente o desempenho do indivíduo em seu trabalho: as consequências se desdobram para o campo pessoal, já que um fator importante para a nossa alegria (independentemente da ocasião ou do espaço) é a sensação de progresso.

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Quando não se tem nenhuma certeza sobre o futuro, as expectativas precisam ser revistas
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Como driblar essa apatia

No plano individual, não existe fórmula pronta para evitar o "languishing" —e nenhum outro transtorno mental. Pequenas atitudes, entretanto, podem fazer a diferença na hora de driblar essa sensação de vazio e apatia:

Esteja presente

Por mais clichê que soe o conselho, tentar viver o momento presente deve ser uma prioridade neste sentido. "Estar presente significa ter um objetivo, por menor que seja, e se dedicar inteiramente a ele", indica a psicóloga Carla Guth.

O objetivo pode ser ler um livro, preparar um prato que você gosta, cuidar do jardim, ou queimar as energias no seu treino preferido. "Concluir pequenos objetivos em meio a uma rotina caótica faz com que a pessoa saia deste estado de apatia, porque ela vai ter uma sensação de realização", detalha Guth.

Permita-se ficar encantado

Marina Pinheiro, professora da pós-graduação em psicologia cognitiva da UFPE, recomenda o exercício de "não se render à lógica da anestesia". De que forma? Assistindo àquele filme que você quer há tanto tempo, ouvindo suas músicas preferidas, apreciando um espetáculo de dança mesmo que seja pela tela do computador ou observando com calma uma obra de arte que o enterneça.

"Acho que a pandemia nos colocou em uma dimensão de sobrevivência e é importante cultivarmos nossa capacidade de encantamento. É essencial que a gente se envolva com a arte e outras práticas que nos lancem para fora dessa clausura da sobrevivência, de estar entre a vida e a morte", diz.

Pratique a autocompaixão

Se não for possível concluir alguma tarefa em tempo ou simplesmente der vontade de deitar no sofá e olhar para o teto, não se desespere. "Tudo bem que às vezes você não seja produtivo. Só tente reconhecer e entender o motivo. Não vale a pena sequer evitar o desconforto que vem em seguida: a emoção negativa tem um porquê de existir e o melhor é observar com tranquilidade para pensar em estratégias para a próxima vez."

Quando não se tem nenhuma certeza sobre o futuro, as expectativas precisam ser revistas —a gente deve se livrar dessa obrigação de fazer tudo perfeito. "Muitos padrões têm de ser mudados porque se tornaram inalcançáveis —e está tudo bem. Estamos todos em luta constante", diz a psicóloga Carla Guth.

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