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Monogamia é mais comum na teoria do que na prática, diz especialista

"Na prática, a monogamia já foi superada", afirma a psicóloga e professora da PUC-SP Noely Montes Moraes - Jeff/UOL
"Na prática, a monogamia já foi superada", afirma a psicóloga e professora da PUC-SP Noely Montes Moraes Imagem: Jeff/UOL

Yannik D´Elboux

Do UOL, em São Paulo

20/01/2014 07h06

Na teoria, a maioria dos casais brasileiros é monogâmica, por convicção ou convenção social. Na prática, relações extraconjugais se multiplicam, motivando o questionamento sobre a viabilidade da monogamia nos dias de hoje. Será que o modelo está fadado ao fracasso?

Para a psicóloga Noely Montes Moraes, professora de Relações de Gênero e coordenadora do programa de aprimoramento em Questões Amorosas da Faculdade de Psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), não é preciso esperar o futuro para descobrir a resposta.

"Pelo que a gente vê, na prática, a monogamia já foi superada. É muito difícil que se encontre hoje relacionamentos monogâmicos o tempo todo. Não digo que não tenham fases monogâmicas, mas por tudo que a gente observa, no consultório e entre amigos, é que na prática ela não existe".

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Foi a descrença na monogamia e a vontade de provar coisas novas que levou Helena Cardoso, 29 anos, jornalista e autora do blog Lasciva, de conteúdo adulto, a viver um casamento liberal por cinco anos. "A gente tinha uma relação escancarada, contávamos tudo um para o outro", explica.

No relacionamento de Helena, era permitido sair e se relacionar com outras pessoas, desde que houvesse honestidade entre o casal. A blogueira acredita que o medo de perder o outro é um dos pilares que faz com que a monogamia ainda se sustente.

"Os casais acham que estão correndo um risco maior em permitir que o parceiro se relacione com outras pessoas do que se proibirem. Tenho uma tese contrária: o que você não pode ter cresce na sua mente. Você fica fantasiando uma coisa que se torna muito maior do que aquilo que se concretiza".

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Segundo Noely Moraes, a expectativa de relações monogâmicas prevalece na sociedade atual, principalmente, por questões religiosas e psicológicas. "Todo adulto carrega necessidades infantis não resolvidas. Uma delas é o desejo de ser amado incondicionalmente, que vem da relação com a mãe. Há uma expectativa de que se refaça esse vínculo na vida amorosa, que um viva só para o outro".

Além desse anseio, antigamente, existia a necessidade de garantir a exclusividade da mulher para que houvesse certeza com relação à paternidade, por causa da herança. Com os exames de DNA, essa razão perdeu o sentido. "Já foi superado o motivo original. No entanto, ainda perdura a extrema vergonha para um homem em ser tachado de corno", diz a psicóloga.

Três é demais?

Uma das perguntas mais frequentes enviadas ao site Vya Estelar, parceiro do UOL, é a seguinte: "É possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?". A psicóloga Noely Moraes foi convidada a respondê-la em um artigo, escrito em parceria com alunos da PUC-SP, que deu origem ao livro com título homônimo, publicado pela Musa Editora.

Noely diz que amar mais de uma pessoa é, sim, uma possibilidade humana, porque o desejo não obedece normas. "A questão é outra: é possível viver com duas pessoas ao mesmo tempo? Ter dois relacionamentos?", pergunta. 

Para o psicólogo e sexólogo Guilherme Falcão, presidente do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, que defende que a monogamia ainda é a forma mais saudável de relacionamento, envolver-se com mais de uma pessoa não dá certo. "Se já é difícil a relação de duas pessoas, que vêm de mundos diferentes, nos aspectos sociais, culturais e espirituais, isso fica mais complicado ainda em um relacionamento poligâmico", diz.

Falcão não concorda que a monogamia esteja seguindo um curso de declínio irremediável. "As pessoas vão se cansando da promiscuidade, que traz muito sofrimento para a família, os filhos, parentes e amigos", afirma o psicólogo cristão.

Apesar de continuar apostando no casamento tradicional, Falcão reconhece os problemas atuais e os casos recorrentes de traição. "As dificuldades existem porque vivemos em um mundo muito hedonista. As pessoas querem prazer instantâneo, não toleram falhas e os relacionamentos acabam se tornando descartáveis".

O psicólogo duvida de outros modelos de relacionamento e acredita que a felicidade do amor só existe na vida a dois. "Como sexólogo, não conheço casais com relacionamento aberto que não tenham conflitos em outras áreas", afirma Falcão.

Relações livres

Algumas pessoas já estão experimentando outras formas de relacionamento e compartilhando publicamente suas escolhas. É o caso dos integrantes da Rede Relações Livres, rede social que surgiu em Porto Alegre (RS).

"Temos quantos amores e parceiros sexuais quisermos, com a possibilidade de estabelecer relações com graus diferentes de sexualidade e afetividade", afirma Maria Fernanda Geruntho Salaberry, publicitária, coordenadora e fundadora da rede, solteira, que mora com a filha de 8 anos, um dos companheiros e uma amiga.

Embora declare-se contra a monogamia, Maria Fernanda enfatiza que o movimento não tem a preocupação de "converter" os monogâmicos. "Nosso objetivo é agregar pessoas interessadas nesta nova vida. A proposta principal e imediata é gerar um espaço confortável para aqueles que não querem a monogamia", explica. O movimento promove encontros, palestras, debates, festas e viagens.

Quem está de fora, às vezes, imagina que o modo de vida da publicitária gaúcha poderia gerar um desequilíbrio na estrutura familiar, porém, ela diz que isso não acontece. "Minha filha é muito tranquila com as minhas relações. E meu pai e minha mãe, casados há quase 30 anos, dizem que têm muito orgulho da minha coragem e, mesmo tendo uma vida diferente da minha, me apoiam e me admiram", conta Maria Fernanda.

Para aqueles que não conseguem conceber tanta liberdade no relacionamento, o principal impedimento costuma ser o ciúme. Helena Cardoso conta que no casamento liberal também pode existir esse sentimento, mas há um esforço para controlá-lo. "Aprendi a lidar com o ciúme e percebi que ele geralmente é fruto de algo que você acha que falta para você. É uma insegurança. Usava esse sentimento como forma de analisar o que estava faltando".

O casamento de Helena acabou, segundo ela, por outras razões que nada tiveram a ver com ciúme ou traições. "Tinha muita confiança na nossa relação e no amor que a gente tinha. A gente não terminou por causa de alguém, nunca me senti ameaçada. A relação se desgastou por outros motivos", revela a blogueira, que continua investindo em relacionamentos abertos.

Se as relações livres vão ocupar o lugar da monogamia no futuro ainda não se sabe, mas é possível arriscar algumas previsões com base no presente. A psicóloga Noely Moraes acredita que cada vez mais o modelo de relacionamento será negociado por cada casal.

"Não será mais uma exigência imposta para todos. Alguns casais farão o pacto da monogamia; uns, não; outros mais ou menos". Noely enxerga essas mudanças como um crescimento psicológico e social. "São as pessoas evoluindo, não precisando mais de um tutor, seja a Igreja ou o Estado, para dizer como devem se comportar. Mas é um processo demorado. Não é assim tão fácil".