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Cris Guterres

Me desculpa, Robinho, mas eu acho que seu Deus é diferente do nosso

Robinho durante entrevista ao UOL - Marcelo Ferraz/UOL
Robinho durante entrevista ao UOL Imagem: Marcelo Ferraz/UOL
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

21/10/2020 04h00

Desde a última sexta estamos imersos no assunto Robinho. Por mais que você não queira mais falar sobre o acontecido, temos muito que discutir sobre os desdobramentos deste crime.

Condenado em primeira instância na Justiça italiana a nove anos de prisão por violência sexual de grupo contra uma jovem albanesa, Robinho aguarda julgamento de recurso em liberdade e viu o caso retornar aos holofotes após o jornalista Lucas Ferraz, do Globo Esporte, apresentar trechos das escutas utilizadas pela Justiça da Itália para considerar o jogador culpado.

Eu li e assisti a tudo com estômago embrulhado. A cada frase, fica mais evidente o quão necessário é trabalhar para desmantelar a cultura do estupro vigente no país.

Lembro da sensação de frustração e medo que senti a primeira vez que assisti a uma reportagem falando do caso da moça albanesa que denunciava o jogador Robinho e mais cinco homens de estupro coletivo numa boate em Milão. Era 2013 e eu senti um gelo na espinha, não dormi direito, a culpa ocupou minha mente aquela noite. Podia ter sido eu.

Eu era uma jovem mulher que gostava de frequentar baladas, dançar e me divertir. A bebida fazia parte da diversão. E naquela ocasião, se algo parecido ou qualquer outra situação de assédio acontecesse, eu me sentiria culpada, pois fui condicionada a acreditar que a culpa seria minha caso fosse vítima de qualquer situação de violência cometida por um homem.

Em sociedades misóginas a manutenção das estruturas patriarcais perpassa por diversos fatores, um deles é a transformação da mulher num ser sedutor e aproveitador, enquanto os homens são infantilizados como seres incapazes de controlar seus instintos sexuais diante da sedução feminina.

Transformando a mulher de vítima para sujeito ativo dentro da ação de violência, passa a ser dela o sentimento interno de culpa. A culpa como uma dor latente nos empurrando direto para a depressão, o medo e o silêncio, pois esta culpa tem grande relação com o fato de muitas mulheres se negarem a denunciar a violência. Quanto você bebeu? Estava vestida com roupas curtas? Você estava no carro com ele? Então você queria que ele te pegasse de jeito?

Uma das frases ditas por Robinho, segundo a Justiça italiana, é: "Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada".

Ainda concedendo ao jogador o benefício da dúvida, certamente esta frase fala muito mais sobre Robinho do que sobre a vítima. Uma mulher embriagada é só uma mulher que bebeu muito, enquanto um homem que presencia um estupro coletivo e ainda faz chacota do acontecido é cúmplice de um crime hediondo e demonstra ausência de caráter e de valores morais.

Num curto áudio que o jogador teria enviado para amigos ainda na sexta-feira, após a divulgação das transcrições, ele cita Deus seis vezes, se compara ao presidente Jair Bolsonaro, se diz vítima da Globo e diz que aqueles que o criticam estão sob ação do demônio.

Aí eu te pergunto: se as pessoas que o criticam estão sob ação do demônio, quem esteve agindo na cabeça de Robinho no momento em que ele presenciava uma mulher ser estuprada por um grupo de homens? Como pode um homem que se apresenta neste áudio com valores fortemente cristãos acreditar que uma mulher embriagada merece ser estuprada, se torna espectador do estupro e ainda acredita que seu único crime foi não ter sido verdadeiro com sua própria esposa?

Me desculpa, Robinho, mas hoje eu realmente estou desejando que exista mais de um Deus no controle da humanidade, pois o seu Deus não pode ser o mesmo para o qual rezamos pedindo a paz da sociedade.

Robinho insiste em afirmar que sexo oral não é transa e que mulher embriagada não merece respeito e nós precisamos insistir em ensinar nossos filhos o quão danoso e cruel é este comportamento do jogador.

Precisamos dizer a todas as mulheres que foram vítima de alguma violência cometida por um homem que a culpa não é sua, ainda que você tenha bebido demais, ainda que você tenha aceitado jantar com ele, ainda que você tenha vestido uma roupa curta, ainda que você tenha nascido mulher.

A culpa não é sua.

Nenhuma mulher merece ser violentada, por nenhum motivo. E nós vamos gritar para Robinho e para qualquer um que insista em dizer o contrário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.