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Quem não faliu precisa se reinventar: você ainda aguenta ouvir essa frase?

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Imagem: Getty Images
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

29/09/2020 04h00

compartilhei em um outro texto desta coluna as minhas angústias empreendedoras em tempos de coronavírus. Sou uma empresária do ramo alimentício, comando um restaurante tradicional na região da avenida Paulista, em São Paulo. Nos últimos sete meses fui de empresária em plena expansão para empresária em pleno e constante sofrimento.

O mercado em que atuo tem sofrido perdas significativas com a crise gerada pelo novo coronavirus e venho tentando manter minha empresa em equilíbrio financeiro ao mesmo tempo em que preciso me manter em equilíbrio emocional. Tem sido mais fácil pagar os salários do que terminar o dia sem ter uma crise de ansiedade e perder a positividade que é imprescindível a um empreendedor de sucesso.

A pesquisa Pulso Empresa elaborada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que até julho de 2020 mais de 500 mil empresas fecharam as portas no país em decorrência de perda de receita após o início das medidas de isolamento no mês de março.

A maioria destas empresas é comandada por mulheres. Somos nós as empresárias que mais acumulam déficits durante o período. Principalmente porque o setor em que mais empreendemos, os chamados setores de conforto como beleza, alimentação, estética e moda, estão entre os mais afetados.

A conjugação do verbo falir nunca foi tão pronunciada. Eu fali, ela faliu, fulana e ciclana faliram. Entre as conversas com meus amigos empreendedores têm sido recorrentes estas falas e o sentimento de frustração se torna um companheiro fiel de todos os dias.

Pra quem sobreviveu, a palavra de ordem é "reinventar". Eu conjuguei o verbo reinventar em todas pessoas. Não aguento mais ouvir esta palavra. Peguei uma alergia, uma ojeriza. Cada vez que esta palavra é pronunciada meu corpo se arrepia inteiro como se eu estivesse ouvindo o grunhido da ponta de uma faca riscando uma panela de alumínio.

Reinvente-se!

Empreendedor, em tempos de crise, você precisa se reinventar! Eu reinvento, tu reinventas, ele reinventa, nós reinventamos e vamos todo mundo amargar ao menos uma síndrome de burnout ou uma crise de ansiedade no final desta reinvenção, pois não há ser humano que aguente as noites sem dormir, o esforço físico e mental que esta reinvenção em curtíssimo período de tempo exige.

Estou com a sensação de esgotamento. Meu cérebro me manda mensagens o tempo todo na tentativa de me dizer pare. Você precisa parar se ainda quiser sobreviver e ver sua empresa florescer. Forneci dezenas de entrevistas contando como consegui driblar a crise e pagar as contas. Qual o pulo do gato, Cris? Como você conseguiu pagar seus funcionários desde março? Quantas ideias você teve? Quais foram elas? E qual será sua grande ideia de amanhã?

O fato é que não existe uma receita que funcione para todos, ainda mais num cenário de incertezas nunca antes vivido na história da humanidade. Passados estes sete meses, eu não me sinto segura economicamente. Sempre digo a minha equipe que vamos resistir, insisto na crença da nossa força, mas sem saber se existem caminhos possíveis para que ela vença.

Reabrimos o salão do restaurante e estamos recebendo nossos clientes com bastante cuidado e atenção. Minha equipe de trabalho ainda se mantém intacta. Ninguém soltou a mão de ninguém, mas eu sei que não conseguirei segurar com força sem o apoio e o dinheiro de iniciativas promovidas pelo governo, seja em escala federal, estadual ou municipal.

Na semana passada, uma amiga, também empreendedora, me perguntou como faço para descobrir qual a decisão certa a tomar. Disse a ela a verdade: eu nunca sei. O que faço é analisar os riscos, estudar as possibilidades e levar em conta meus valores e propósito na hora de tomar qualquer decisão.

Tenho sido bastante cautelosa. Cada escolha feita foi duplamente estudada e analisada. Desta forma, venho conseguindo uma porcentagem grande de acertos, mas os erros estão sempre comigo. A única certeza que tenho é que não cheguei até aqui pra desistir. Só existe uma possibilidade de eu não prosseguir: a descoberta de que voltar seja a escolha mais segura para vencer no futuro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.