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Cris Guterres

Se a gente falasse mais, talvez não doesse tanto

Mulher fala sobre assédio sexual em movimento hashtag Exposed com megafone - Ponomariova_Maria/Getty Images/iStockphoto
Mulher fala sobre assédio sexual em movimento hashtag Exposed com megafone Imagem: Ponomariova_Maria/Getty Images/iStockphoto
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

09/10/2020 04h00

Outro dia, durante a gravação do Meteora Podcast, a Renata Hilário, minha parceira na condução do programa, pediu que eu falasse sobre um aprendizado que a maturidade havia me trazido. Respondi que seria ouvir mais os outros e falar menos. Na hora, até lembrei da música de Luiz Melodia que embalou muitos de meus momentos de reflexão: "Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais". Uma verdade a letra desta música, mas não uma verdade absoluta.

Alguns dias depois que dei esta resposta, esta mesma maturidade veio me ensinar que, de fato, o que fiz a vida toda foi falar demais sobre os outros e quase nada sobre mim. Poucas foram as vezes em que eu disse o que realmente sentia - e quase nunca falei sobre os medos que vivia. Me calei. Na maioria das vezes, me calei por medo. Um medo interiorizado, enraizado nas entranhas por meio de uma educação restritiva e cheia de "nãos".

Muitas de nós mulheres somos ensinadas que uma boa moça não fala alto, não se senta de pernas abertas, não usa decote, não contesta as regras. Já a palavra "sim" nós dizemos aos outros, principalmente se este outro for um ser do gênero masculino.

Dizer "sim" para nós mesmas é nos expor ao perigo de ser aniquilada. Ainda mais quando somos mulheres negras numa sociedade em que nossa humanidade foi esvaziada e nos definiu pelo olhar do outro.

A todo momento as pessoas insistem em nos calar. Provavelmente alguém fará isto nos comentários deste texto. Me mandará calar a boca e tentará desconstruir o meu discurso numa tentativa de silenciar minha existência.

Outro dia um amigo o fez. Tentou me convencer de que eu deveria parar de falar de questões raciais, pois eu estaria criando a discórdia entre a população. Fiquei tremendamente ofendida. Foi um abalo na nossa amizade. Me lembrei da escritora Audrey Lorde: "Não pode ser seu amigo quem exige o seu silêncio", disse.

Este cala boca que recebi diante de uma luta que venho travando contra as injustiças é, na verdade, uma tentativa de silenciamento. Não tolerarei mais ser interrompida, como disse a vereadora Marielle Franco, durante plenária na câmara de vereadores no Rio de Janeiro, dias antes de ser brutalmente assassinada.

Estrangulei por muito tempo minha fala impossibilitando que ela me oferecesse uma melhor compreensão sobre mim mesma. Durante minha infância e juventude, fui tratada como tímida, mas, na verdade, eu estava sendo silenciada. Tive problemas sérios em minha glândula tireóide, um órgão que, além de produzir hormônios que controlam nosso metabolismo, está ligado à verbalização dos nossos sentimentos.

Quando "estilhacei a máscara do silêncio", como disse a escritora Conceição Evaristo, me senti livre. A fala tem este poder libertador. Minha mãe dizia que palavra não dita sufoca e sentimento guardado maltrata até o fim da vida.

Não tenho a menor pretensão de conviver com a dor gerada pelo meu silêncio. Quero permitir que as palavras que me estrangulavam se esvaiam em meu discurso.

A cura pela fala foi objeto dos primeiros textos do médico Sigmund Freud sobre histeria. Freud chamou de terapia da palavra os atendimentos que realizou para tratar o caso de Bertha Pappenheim. No livro, que escreveu em parceria com o médico Josef Breuer, Freud descreve que o distúrbio de Bertha desapareceu depois que a paciente desabafou energeticamente a raiva que ficava dentro dela ao longo de um período de acompanhamento. Com estes estudos, Freud revolucionou a psiquiatria e criou uma nova área de estudos, a psicanálise.

A fala, o grito, o berro, o protesto, a proclamação serão sempre minha arma em busca de libertação. Viver este processo não é fácil, ainda mais num momento em que as tentativas de esmagamento contra mulheres estão cada vez mais visíveis, seja com violência física ou com ofensas nas redes sociais, roubo de perfis, e ameaças por e-mail, só para citar alguns exemplos. No entanto, me valerei diariamente das sábias palavras de Audrey Lorde na construção de mim mesma, pois assim como ela, eu falo para não permitir que meu silêncio se transforme em arma nas mãos de meus inimigos.