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Deputada Talíria Petrone: Tarefas e ameaças me deixam exausta e amedrontada

Deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) segura placa em homenagem a Marielle Franco - Arquivo pessoal
Deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) segura placa em homenagem a Marielle Franco Imagem: Arquivo pessoal

Fabiana Batista

Colaboração para Universa

15/10/2020 04h00

No dia 25 de setembro, a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), 35, enviou uma carta de denúncia à ONU relatando ameaças a sua vida. Apesar de ainda não ter obtido retorno da entidade, o Parlamento do Mercosul aprovou uma moção em seu apoio. E, em documento, pede que o governo brasileiro tome medidas concretas para garantir a segurança da congressista.

Eleita a vereadora mais votada de Niterói em 2016, a professora de história, negra e feminista ganhou mais de 100 mil votos em 2018 quando se candidatou a deputada federal em 2018, defendendo o legado da amiga e colega de partido Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio também em 2018.

Por medida de segurança, a deputada se mudou do Rio (e, pelo mesmo motivo, prefere não revelar pra onde), com a família em meados de setembro e enfrenta o desafio de cuidar da filha de quatro meses, Moana Mayalú, manter a organização da casa -tarefas que compartilha com o marido— e participar de sessões do plenário.

Em entrevista a Universa, desabafa: "Eu já chorei de exaustão e fiquei na dúvida se dou conta das responsabilidades como deputada. Além de ter de lidar com as tarefas de casa, o cuidado com a minha filha e os trabalhos do mandato, as ameaças das quais sou vítima me deixam ainda mais tensa e amedrontada".

Você recebe ameaças desde que se tornou vereadora em Niterói (RJ). O que aconteceu de diferente dessa vez? Por que decidiu recorrer à ONU?

Ainda quando era vereadora, houve uma série de ligações para a sede do PSOL com ameaças contra a minha vida. Em uma delas, a pessoa afirmou que tinha o objetivo de "jogar uma bomba na piranha que o PSOL elegeu". No entanto, naquela época, nós compreendemos que as ameaças eram suscitadas por grupos organizados da cidade e que, de alguma maneira, conseguiríamos monitorar.

Quando a Marielle foi assassinada, essa percepção mudou, e passamos a entender que as violências que eu vinha sofrendo poderiam resultar em ações mais graves contra a minha vida. Por isso, dias depois do assassinato dela, eu passei a ter escolta da Polícia Militar, que durou até o primeiro dia da campanha eleitoral daquele ano. Já como deputada, outra ameaça fez com que a escolta da polícia legislativa fosse necessária. Mas, em meados do ano passado, o então governador do Rio, Wilson Witzel, recusou que eu recebesse escolta.

A decisão de recorrer a ONU é por identificar que há riscos objetivos contra a minha vida. Mas não só. A falta de resposta sobre quem mandou matar Marielle, o aumento do domínio armado das milícias nos territórios cariocas e, sobretudo, um país em que há uma crescente violação dos direitos humanos colocam também a vida de outros ativistas em perigo.

A ONU ainda não retornou. O Estado do Rio nos acionou, mas propõe garantir a minha proteção apenas para as agendas oficiais no Estado, medida avaliada por profissionais como insuficiente. Pois, além das viagens oficiais, eu vou ao Rio para fins pessoais. E, se há riscos de eu ser executada, não é apenas durante o meu trabalho, não é?

Logo depois que Marielle foi assassinada, você teve sua primeira escolta feita pelo Estado e foi criticada por isso. Qual a diferença entre defender uma segurança pública desmilitarizada e ser acompanhada por seguranças armados?

Eu não defendo que um policial esteja desarmado, mas que haja controle efetivo de armas e munições. A situação do Rio é alarmante. Há fuzis espalhados por toda cidade, pelo comércio ilegal de drogas, pelas milícias e por policiais que os ostentam na janela do carro. Ao contrário desse cenário, eu defendo uma polícia integrada com outros serviços, pois segurança é um direito assim como saúde, educação e emprego.

Dito isso, não é contraditório defender a necessidade de uma escolta armada para proteger a minha vida e, ao mesmo tempo, reivindicar outro modelo de segurança pública. O tema que me leva a essa situação são exatamente as denúncias que faço contra a violência policial nas favelas e o aumento das milícias nos territórios. Garantir a minha segurança é a forma de certificar que eu cumpra um mandato para o qual fui eleita com mais de 100 mil votos.

Você saiu do Rio na última semana. O que te levou a tomar essa decisão?

Quando as denúncias passaram a identificar detalhes sobre planos contra a minha vida, não encontrei esforços suficientes do poder público para garantir minha segurança. Não há, por exemplo, uma análise de risco dos órgãos competentes para direcionar quais medidas são necessárias para a minha proteção. Diante disso, fui orientada por especialistas a sair do estado.

Acha que as ameaças que vem sofrendo e o que aconteceu com Marielle podem impedir outras mulheres, e principalmente mulheres negras, de entrarem na política e de se candidatarem por medo?

Não tenho a menor dúvida. O nível de violência política que os corpos de mulheres, especialmente de mulheres negras, experimentam quando ocupam a política é muito grande. Eu, por exemplo, sou criticada pelo modo de me vestir e fala. Já ouvi que a política não é para mim. Além disso, sou ofendida nas redes sociais e por colegas da casa legislativa. Já fui chamada de louca, barraqueira e burra. Eu sou mestre, professora, e eles me chamam de burra, acredita? Essas são formas de imprimir nos corpos de mulheres negras a negação daqueles espaços. São ofensas que podem se agravar e levar à morte, como foi com Marielle.

Como foi o parto em meio à pandemia? Teve medo de ir ao hospital e se contaminar ou ao bebê?

Pude optar por um parto domiciliar e estava empolgada. Fiz comida para as parteiras e meu companheiro estava comigo. No entanto, depois de 12 horas de trabalho de parto, foi constatada pressão alta e precisei ser encaminhada para o hospital. A ideia de parir em um hospital em tempos de covid-19 me deu muito medo de morrer, já que hipertensão é comorbidade para o coronavírus. Entrei em pânico. Mas foi um alívio quando, mesmo fora de casa, consegui ter um parto tranquilo, com uma equipe que assistiu Moana e a mim muito bem. Apesar do medo, foi a experiência mais linda que eu já vivi.

Infelizmente, essa não é a realidade de todas as mulheres. Na mesma época, uma situação me chocou: uma mulher gestante dormiu na fila para conseguir garantir os documentos e solicitar o auxílio emergencial. Não posso imaginar como é viver uma gestação sem comida na mesa e que, em meio a uma pandemia global, você precise se arriscar para garantir um auxílio que é seu por direito.

Agora que se tornou mãe, sua vida na política pode tomar outro rumo?

Na prática, a minha vida na política já mudou. Ser mulher, mãe, trabalhadora e ter uma licença-maternidade de apenas quatro meses é vergonhoso, uma vez que a OMS orienta a amamentação exclusiva de seis meses. Vivenciar a realidade da maternidade tem me dado mais certeza da urgência de priorizar as políticas que ampliem os direitos das mulheres, mães e crianças. Nós temos, por exemplo, um projeto de lei para aumentar a licença parental para dois anos, no qual o cuidado do bebê é compartilhado entre os responsáveis.

Como tem sido a vida como parlamentar nessas primeiras semanas, após a licença-maternidade?

O cotidiano tem sido muito difícil. Eu acordo --quando durmo-- no mesmo horário da minha filha: às 6h. Leio as notícias, verifico as demandas do mandato e, nos dias que tem sessão, me organizo para participar. Faço reuniões, me reúno com movimentos sociais e participo de agendas de campanha. Apesar do Felipe [Rimes], 29, meu companheiro, compartilhar o cuidado da nossa pequena, a amamentação é exclusiva e de hora em hora. Por isso, é um dia inteiro com a bebê no colo. Com esse cotidiano frenético, passei a entender porque muitas mulheres que são mães não se propõem a exercer um cargo na política. Eu já chorei de exaustão e fiquei na dúvida se dou conta das responsabilidades como deputada. Além de ter de lidar com as tarefas de casa, o cuidado com a minha filha e os trabalhos do mandato, as ameaças das quais sou vítima me deixam ainda mais tensa e amedrontada.

Entre os 513 deputados federais, apenas 13 são negros. Há diálogo entre vocês?

Essa é uma pergunta ótima, e a resposta é chocante. A sociedade brasileira, apesar de pouco, já avançou no debate sobre a ampliação dos direitos das mulheres. Há consenso entre esquerda e direita de que devemos ocupar a política e de que sofremos machismo no plenário. Mas, apesar das tentativas de articulação de uma bancada negra, como no caso do projeto de lei apresentado em 2019 para o enfrentamento da violência racista institucional, ela ainda é frágil. Não há, assim como a bancada feminina, uma instância formal na Câmara. E, em um país em que a escravidão nos formou e o racismo estrutura as nossas relações, a luta antirracista ainda é invisibilizada.

Tem algum receio de que candidatos negros possam virar laranjas pela possibilidade da cota financeira aprovada no STF como aconteceu em alguns casos com a cota das mulheres?

Não tenho a menor dúvida. A decisão do STF foi uma vitória conquistada com muita luta por movimentos sociais. Mas é preciso criar mecanismos de fiscalização para que essa resolução se traduza na efetivação de figuras negras eleitas.

O que falta para que mais pessoas negras, especialmente mulheres, sejam eleitas?

Hoje, temos mais condições de garantir recursos do que antes para pessoas negras, mas ainda é insuficiente porque a distribuição nas estruturas dos partidos é desigual. Não apenas a distribuição de verba, mas também de apoio político, que são fundamentais. Além disso, ocupar os espaços de poder e as instancias de decisão é cotidianamente violento para um corpo negro. O conceito de racismo estrutural nos mostra que ele está em todo lugar e nos afasta dessa disputa.

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