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Americano veio ao Vasco 'à la Honda', jogou pouco e aprendeu palavrões

Americano Cobi Jones nos tempos de Vasco da Gama, em 1995: jogou apenas quatro partidas - Reprodução / TV Globo
Americano Cobi Jones nos tempos de Vasco da Gama, em 1995: jogou apenas quatro partidas Imagem: Reprodução / TV Globo

Alexandre Araújo e Bruno Braz

Do UOL, no Rio de Janeiro

16/04/2020 04h00

Americano, de estilo rastafári e que desembarcou em São Januário logo após disputar a Copa do Mundo de 1994 pelos Estados Unidos. Muitos não lembram, mas o ex-jogador Cobi Jones já defendeu o Vasco. Está certo que foi por pouco tempo, mas o suficiente para ter muita história para contar.

Nos tempos atuais, a contratação poderia ser definida como "aleatória", mas na época foi badalada, ganhou espaço na mídia e gerou muita expectativa.

Supervisor do clube na época, Isaías Tinoco lembrou que a contratação foi fruto de uma espécie de "parceria" que o então vice-presidente de futebol vascaíno, Eurico Miranda, tinha com o empresário Juan Figer. O acordo era simples: o Cruz-Maltino ganharia holofotes no mercado norte-americano que crescia e, em contrapartida, Jones teria no currículo o peso de atuar em uma equipe tradicional no país que havia acabado de ser campeão mundial na Terra do Tio Sam.

"Foi uma sacada extremamente inteligente do Figer e do Vasco. Por que? O Cobi Jones tinha acabado de disputar uma Copa do Mundo, era titular, mas não tinha o reconhecimento com uma camisa pesada como a do Vasco. Evidentemente, o Vasco se projetaria no mercado americano, que estava começando a eclodir àquela época, e o atleta ganharia status de atleta internacional", destacou ao UOL Esporte o dirigente.

Tinoco frisou, porém, que a contratação não foi apenas uma jogada de marketing, e que a ideia era que Jones fosse mais aproveitado, mas o americano sofreu com a adaptação:

"A gente sabe que o Rio de Janeiro tem as suas nuances. O Rio de Janeiro não é para amador, né? O Rio de Janeiro é para 'profissa'. Então, ele teve algumas dificuldades de adaptação."

Apesar disso, o ex-supervisor de futebol acredita que o negócio tenha sido positivo, e o comparou com o que foi feito agora pelo Botafogo com o japonês Honda.

"Na época que aconteceu, algumas pessoas foram a favor e outras contra. A favor, aquelas que tinham um vislumbre do mercado aberto. Hoje, por exemplo, o Botafogo traz o Honda de um mercado mais limitado em nível técnico, mas extremamente atrativo em nível econômico. Tivemos o exemplo do Boca Juniors, que trouxe um japonês [Naohiro Takahara, entre 2001 e 2002] e vendeu camisa no Japão a rodo. Claro que quem fosse esperar uma atuação de gala do Cobi Jones àquela altura... [Ele] teria de ter um tempo maior de adaptação, mas como o mercado brasileiro é muito exigente, às vezes, ele não te permite dar esse tempo. Mas a sacada em si, a movimentação no mercado, abriu muitas portas para o Vasco e para o Cobi Jones, o que foi sensacional", avaliou.

Querido por companheiros, aprendeu palavrões com Ricardo Rocha

Jogador  Cobi Jones, da seleção norte-americana de futebol, exibe dreads durante treinamento (01/12/1993) - Mike Powell/Getty Images - Mike Powell/Getty Images
Cobi Jones e seus dreads: marca registrada do jogador norte-americano
Imagem: Mike Powell/Getty Images

O elenco vascaíno da ocasião era uma mescla dos remanescentes do tricampeonato carioca (1992, 1993 e 1994) com o início da base daquela geração que depois faria história a partir de 1997.

Entre os veteranos estava o lendário zagueiro Ricardo Rocha. Bem-humorado desde a época de jogador, ele lembrou da convivência com o americano, onde chegou a ensinar algumas "coisas erradas" junto com outros companheiros da equipe.

"Os caras [jogadores] adoram palavrão. Aí, a gente perguntava o que era isso, o que era aquilo, mandava ele falar uns palavrões, às vezes ele falava... (risos). A gente brincava, mas era um cara gente boa", se recorda Ricardo Rocha ao UOL Esporte.

Jogador que posteriormente se tornaria campeão brasileiro e da Libertadores pelo Vasco, o ex-volante Luisinho também lembra com carinho de Cobi Jones, e avalia que faltou ao americano um período maior de adaptação ao futebol brasileiro:

"Ele tinha que ter uma adaptação um pouco maior. Ele era bom, veloz, mas o Vasco tinha um elenco muito forte. Embora ele tivesse qualidade, tinha que ter uma adaptação ao nosso futebol. Mas como pessoa era super agradável, entrosou bem, levava tudo numa boa, não teve dificuldade não, foi muito bem recebido. Em relação ao jogo, faltou se adaptar e desenvolver mais."

Para Ricardo Rocha, a vinda de Cobi Jones — então com 25 anos — ao Brasil também foi uma forma de o americano aprender a técnica brasileira de jogar futebol.

"O cara queria aprender, acho que veio para isso também, para melhorar sua qualidade técnica. Ele foi à Copa do Mundo, tinha qualidade, só que naquele momento tinham jogadores melhores que ele no elenco", ressalta Rocha.

No total, Cobi Jones atuou em apenas quatro partidas pelo Vasco, todas pelo "Expressinho", que disputava a extinta Copa Rio. O elenco principal atuava no Campeonato Brasileiro.

Citado por ex-secretário do Ministério dos Esportes em tour da Copa

Cobi Jones, pela seleção dos EUA - Divulgação - Divulgação
Cobi Jones pela seleção norte-americana durante a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos
Imagem: Divulgação

Após 19 anos, Cobi Jones foi lembrado de sua ligação com o Vasco em um importante evento em Washington (EUA) para divulgar a Copa do Mundo de 2014, que aconteceria no Brasil.

O "Tour da Copa" foi um dia após o Cruz-Maltino perder a final do Campeonato Carioca daquele ano com um gol em impedimento, no último minuto, feito pelo volante Márcio Araújo, do rival Flamengo.

Então secretário-executivo do Ministério do Esporte, o vascaíno Luis Manuel Fernandes ficou sabendo que Cobi Jones estava como embaixador da seleção americana masculina no local e, em tom bem-humorado, fez questão de informá-lo do episódio antes de iniciar o seu discurso.

"Eu não sabia inicialmente que o Cobi Jones estaria, depois que fiquei sabendo. Fui chamado ao palco e, no início do discurso, brinquei dizendo: 'O embaixador Cobi Jones jogou no meu time no Brasil e quero lhe dizer que ontem fomos roubados contra o nosso principal rival. Fomos eliminados com um gol ilegal'. Foi bem engraçado (risos)", se recordou o ex-secretário-executivo.

Fernandes também revelou que depois conversou harmoniosamente com Cobi Jones, que se mostrou curioso no prejuízo que o Cruz-Maltino havia tido na final do Carioca do dia anterior.

"Depois ele veio falar comigo, eu me identifiquei, disse que era vascaíno, e ele perguntou: 'Como foi isso? Que absurdo!'. Ele se solidarizou também. Foi uma quebra de protocolo (risos)", disse o ex-secretário-executivo, que foi presidente do Conselho Deliberativo do Vasco na última gestão de Eurico Miranda e tem boas chances de concorrer à presidência na eleição do clube no fim de 2020.

Ídolo nos Galaxy e celebridade nos EUA

Frustrante em termos de oportunidade, a passagem de Cobi Jones pelo futebol brasileiro acabou sendo curta e, em 1996, vendo o surgimento da Major League Soccer (MLS) nos Estados Unidos, decidiu por voltar ao seu país, naquela que acabou sendo uma sábia escolha.

Pelos Los Angeles Galaxy, atuou por mais de dez anos, tendo feito 350 partidas, 70 gols e conquistado um bicampeonato norte-americano, além da Copa dos Campeões da Concacaf, feitos que lhe renderam o apelido de "Lenda".

Já pela seleção dos Estados Unidos, disputou três Copas do Mundo (1994, 1998 e 2002) e é o recordista de jogos, com 164 disputados. Também ganhou por lá a medalha de ouro no Pan de 1991.

Ele decidiu pendurar as chuteiras em março de 2007, aos 37 anos.

Após a aposentadoria, já foi treinador do próprio Los Angeles Galaxy e dirigente do New York Cosmos. Também faz participações como comentarista em emissoras esportivas americanas.

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