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Série mostra raras camadas da personalidade de Michael Jordan

Michael Jordan acompanha partida do Charlotte Hornets - Streeter Lecka/Getty Images
Michael Jordan acompanha partida do Charlotte Hornets Imagem: Streeter Lecka/Getty Images
Fábio Balassiano

Por aqui você verá a análise crítica sobre tudo o que acontece no basquete mundial (NBB, NBA, seleções, Euroliga e feminino), entrevistas, vídeos, bate-papo e muito mais.

24/04/2020 05h23

"Naquela situação Scottie Pippen foi um pouco egoísta. Não pensou muito no time". Esta foi uma das frases de Michael Jordan no segundo episódio de "Arremesso Final", exibida aqui no Brasil pela Netflix. MJ falava sobre o comportamento de seu companheiro (mais aqui) e a forma como ele abordou o tema foi comentada por Steve Kerr, que fazia parte daquele elenco e hoje é técnico do Golden State Warriors (aqui).

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Muita gente conhece os feitos de Michael Jordan como atleta, certamente o melhor jogador de basquete de todos os tempos e um dos melhores esportistas dentre todas as modalidades, mas pouca gente consegue entender a cabeça por trás da cabeça do eterno camisa 23 do Chicago Bulls. E por isso a série da Netflix tem sido tão arrebatadora neste começo - justamente por mostrar camadas raríssimas de serem vistas do seis vezes campeão da NBA.

Carismático como jogador, ele foi um dos primeiros a se entender como empresa e a transformar tudo o que passava ao redor dele em acordo comercial. É dele a famosa frase "Republicanos também compram tênis", quando questionado se apoiaria publicamente os democratas de seu amigo Barack Obama nas eleições americanas de anos atrás. Quase sempre avesso a declarações fortes sobre contextos políticos ou sociais, Jordan deixa que sua história no basquete fale por si para que seu legado, como empresário, se eternize (e potencialize seus lucros). Certo ou errado, é o caminho que ele escolheu e sua trilha como homem de negócios tem se mostrado mais do que acertada.

O único momento em que abriu uma espécie de exceção para que sua vida pessoal se tornasse pública foi quando seu pai, James Jordan, faleceu em 1993, vítima de um assassinato cruel na Carolina do Norte devido a dívidas dele (James) para casas de aposta locais. Meses depois Michael, que também sempre gostou bastante de jogos de azar (suas partidas de golfe com valores assombrosos de aposta são conhecidas), afirmou que não tinha mais vontade de jogar basquete por falta de motivação e que partiria para uma experiência no baseball, realizando o sonho de seu pai. Foi uma espécie de licença-poética para homenagear James Jordan.

Dono dos melhores contratos publicitários quando atleta (ele foi o primeiro a assinar um vitalício com a Nike de seu amigo Phil Knight), Jordan é dono de uma marca com seu próprio nome (a desejada Jordan Brand), sócio de um time da NBA (o Charlotte Hornets) e o primeiro atleta da história a se tornar bilionário (atualmente seu patrimônio está acima da casa dos US$ 2,5 bilhões). Com tantas facetas e momentos extraordinários assim, fica estranho que sua vida seja pouco comentada nestes momentos de redes sociais pulsando todo tipo de informação. Nem mesmo as suas constantes atuações em situações de filantropia são conhecidas (estima-se que ele já tenha destinado mais de US$ 50 milhões para instituições de caridade, mas ele jamais tocou no assunto por acreditar que quem faz o bem não precisa de cartaz para isso).

Conhecido por ser o famoso "obsessivo por evolução", Jordan sempre teve seu comportamento esportivo elogiado, sendo exemplo para todas as gerações que o viram jogar. Sua compulsão por melhorar vem de seu irmão mais velho, Larry, com quem jogava no quintal de casa e quem, teoricamente, seria O jogador da família Jordan. Cortado no time do segundo grau, Michael chegou em casa, chorou de raiva e partiu para treinar. Cresceu 15cm em um ano, melhorou, se tornou um dos melhores do seu colégio e depois você já sabe.

Seu lado de fora das quadras é que não é tão, digamos, explorado assim. Michael tem inúmeros livros publicados a seu respeito, mas quase nenhum com declarações conclusivas ou contundentes dele. A construção de seu personagem comprometido com a evolução faz parte de um roteiro muito bem construído e quase sem buracos para quem pensa em carreira dentro e fora das quadras. Suas entrevistas quase sempre foram dadas a amigos, ex-atletas ou em situações protocolares. Não há nada mais apimentado, nada que a gente se lembre dele metido em alguma confusão. A maneira como ele sempre tratou a sua vida longe do basquete é reclusa, embora ele tenha mudado um pouco nos últimos anos.

Primeiro pela forma como anos atrás ele deu abertura à NBA TV para enfim "Arremesso Final" fosse lançada (mais aqui) depois de quase 20 anos. Jordan tinha algo absurdamente válido, e raro em uma relação com uma liga do tamanho da NBA, nas mãos: o controle sobre quando o documentário seria lançado. Na série, não custa já destacar, ele permitiu depoimento de Isiah Thomas, um de seus maiores desafetos e para quem MJ destilou o seu veto no Dream Team (mais aqui). Depois fazendo um discurso emocionante na cerimônia de homenagem a Kobe Bryant.

Lá, por exemplo, o mundo praticamente descobriu que ele é pai das gêmeas Victoria e Isabel, frutos de seu relacionamento com a modelo cubana Yvette Prieto, sua segunda esposa, e nascidas em 2014. A mãe de seus primeiros filhos (Jeffrey e Marcus), Juanita, teria recebido mais de US$ 160 milhões no divórcio, mas isso tampouco foi amplamente divulgado porque Jordan sempre conseguiu se blindar fortemente de quase todos os assuntos.

A forma zelosa como ele sempre se entendeu como figura pública também é bastante comentada por atletas como sendo um exemplo. Longe das confusões, seu legado como atleta continua vivo mesmo após duas décadas longe das quadras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL