PUBLICIDADE

Topo

Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Preocupar-se em preservar o meio ambiente tem tudo a ver com a sua saúde

Imagem mostra trecho da floresta amazônica destruída por incêndios intencionais - Getty Images
Imagem mostra trecho da floresta amazônica destruída por incêndios intencionais Imagem: Getty Images
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

13/06/2021 04h00

Na última semana, celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. A quem diga que chamamos de "meio ambiente" porque já perdemos metade.

Este dia foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1972 na Conferência de Estocolmo, na Suécia, e teve o "Ambiente Humano" como tema.

A ideia central sempre foi alertar a única espécie que destrói o ambiente que vive, de que os recursos naturais fornecidos pelo nosso planeta não são inesgotáveis.

Todos os anos, a ONU tem escolhido importantes temas como poluição do ar, combate ao tráfico de animais; acabe com a poluição plástica; sete bilhões de pessoas; um planeta: consuma com consciência; aumente sua voz e não o nível do mar.

Neste ano, o tema foi "restauração dos ecossistemas", pois a ONU afirma que há oportunidade de restauração de áreas florestais desmatadas e degradadas em todo o mundo equivalentes a uma área total do tamanho da América do Sul, ou seja, 2 bilhões de hectares.

Esta ação ainda teria grande impacto sobre o aquecimento global com grande influência sobre a meta coletiva estabelecida pelo Acordo de Paris, que é manter o aquecimento global abaixo de 2°C até 2030.

Imperioso reconhecer que embora nobres os objetivos da entidade promovendo discussões e conscientização neste quase meio século, não há muito o que comemorar.

Temos visto nosso planeta se esfacelando por ação antrópica, ou seja, pelo ser humano.

Compromissos são assumidos por governos e não por estados —em 1 de junho de 2017, o então presidente dos EUA Donald Trump anunciou que seu país deixaria toda sua participação no Acordo de Paris sobre mudanças climáticas firmado em 2015—, o que enfraquece e desmotiva novas ações.

Onde estamos?

Para citar apenas alguns de nossos problemas ambientais, temos o desmatamento dentre os principais (2 bilhões de hectares, lembra?).

Tem como principal justificativa a expansão de terras para criação de gado e plantio de monoculturas (milho, soja, dentre outras).

Reflexos sentidos no aquecimento global, recursos hídricos, perda de biodiversidade e extinção de animais.

Outro dia ouvi ironicamente que se as árvores fornecessem wi-fi cuidaríamos bem delas. Coitadas, só fornecem oxigênio!

Dependência absurda da economia de combustíveis fósseis, o que aumenta a concentração de CO² na atmosfera produzindo alterações climáticas e problemas respiratórios.

Precisamos aspirar respirar melhor.

Al Gore disse há 10 anos no livro "Uma Verdade Inconveniente": "Evitar o aquecimento global não é uma decisão política. É uma decisão moral".

A nova e "redentora" cultura consumista, que gera uma enorme demanda de matéria-prima e processos industriais, gastando mais energia e gerando mais resíduos sem controle sobre o descarte.

Como diz Daniela Lerario, bióloga e especialista em sustentabilidade em gestão de resíduos e economia: "Validamos todos os dias um modelo iconicamente linear de produção e consumo. Ou seja, extraímos os recursos da natureza, os transformamos, consumimos e jogamos fora. Só que fora não existe".

"O que descartamos é transferido para a terra, para o ar ou para a água. Até 2050, a população mundial irá gerar 70% a mais de resíduos do que geramos hoje".

O consumo é necessário, o consumismo é predatório.

Como disse o filósofo estoico romano Sêneca: "Para a ganância, toda a natureza é insuficiente".

Assustador, não é? E assim, poluímos e degradamos o meio ambiente.

Além disso, estima-se que pelo menos 10 mil espécies de animais são extintas por ano. Cerca de 60% de espécies estão correndo risco de desaparecerem em decorrência da relação predatória do homem na natureza.

Mas, ao contrário de outros episódios de extinção em massa da história geológica do planeta, dessa vez parece que uma única espécie —a nossa— é quase inteiramente responsável.

E, ao final, esse ciclo nada virtuoso paradoxalmente também nos destruirá. O planeta pode viver como já viveu em outros ciclos geológicos sem nós. Falta-nos consciência ecológica. A consciência de que a natureza não está a nosso serviço. Somos parte dela e não proprietários.

Você pode estar se perguntando por que um médico está escrevendo sobre meio ambiente? Nada pode ter mais relação com a saúde que a preservação do nosso planeta.

A saúde do ar que respiramos, nossos rios e mares, a maneira com que lidamos com nossos resíduos e dejetos têm relação direta com nossa saúde.

Vejam as pandemias. Surgem majoritariamente dos ecossistemas modificados pela relação predatória e nada ética da nossa espécie com a natureza. Essa é a biografia do coronavírus, por exemplo. Como ele nasceu e se disseminou.

Cuidar do meio ambiente não pode ser o projeto de alguns ambientalistas. Tem que ser um projeto de todos nós.

O cuidado também não pode ser opção de um governante. É um princípio, um preceito constitucional.
É fundamental reconhecer que nossas ações têm implicações diretas no resultado, porque como disse Madre Teresa de Calcutá: "O que eu faço é uma gota no meio de um oceano. Mas sem ela, o oceano será menor".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL