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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O coração da mulher contemporânea

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

23/01/2022 04h00

Dizem que o coração de uma mulher sensível é uma força da natureza imparável. Vamos entender algumas coisas sobre ele.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), 17,5 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo por causa de doenças cardiovasculares. Estima-se que desses, 8,5 milhões sejam mulheres.

Em nosso país não é diferente. As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre as mulheres. De acordo com dados do Ministério da Saúde, 25% dos óbitos masculinos e 31% dos femininos ocorrem por doença cardiovascular.

Nos EUA, estima-se que uma em cada duas mulheres americanas morrerá de doença cardiovascular. Essa mortalidade é maior do que todas as formas de cânceres combinados.

Por muito tempo acreditou-se que diferente dos homens, as mulheres não tinham problemas nas artérias do coração. Essas artérias quando obstruídas são responsáveis pelas chamadas isquemias miocárdicas ou infarto do miocárdio.

Entretanto, o estilo de vida assumido por elas na sociedade contemporânea, trazendo o estresse do trabalho, ansiedade, pressão alta, colesterol alto e o sedentarismo fizeram com que no Brasil atualmente uma a cada cinco mulheres venham a sofrer um infarto.

Acreditava-se nisso antigamente, pela pouca incidência no passado e pela conhecida proteção hormonal a elas conferida pela natureza no período que vai da primeira menstruação conhecida como menarca até a menopausa. Essa proteção é claramente relacionada aos hormônios.

A menopausa é causada pela redução na produção de hormônios, especificamente o estrogênio. O estrogênio diminui a resistência das artérias, permitindo que elas se dilatem. Com isso há um maior fluxo de sangue para as artérias e, portanto, este hormônio é considerado um fator protetor e um potente aliado contra a chamada doença aterosclerótica.

Essa proteção também desaparece além da menopausa, se a mulher entrar neste período precocemente ou passar por uma cirurgia de remoção dos ovários.

Depende então de como as mulheres chegam nesse período. Se fumando, acima do peso, com a pressão arterial elevada, com colesterol e triglicerídeos elevados e/ou se tem histórico familiar, obviamente a incidência de problemas cardiológicos será maior.

A solução óbvia seria a reposição desse hormônio nesta fase, mas, infelizmente, não é uma tarefa tão simples. Muitas vezes é difícil o ajuste da dose e os critérios para esta escolha devem ser considerados, uma vez que se pode aumentar a chance de eventos trombóticos e também a possibilidade de aumento na incidência de cânceres de mama.

Mas, como disse Marie Curie, uma cientista polonesa que descobriu e isolou os elementos químicos polônio e o rádio, além de ganhar o prêmio Nobel: "Nada na vida deve ser temido, somente compreendido".

Agora é hora de compreender melhor essa relação da privação hormonal nesta fase da vida e as doenças cardiovasculares. Assim, procure chegar nesta fase da vida bem fisicamente e com seus fatores de risco controlados, porque, sim, embora difícil, a reposição é uma tarefa perfeitamente factível e seu ginecologista sabe usar esses critérios com maestria.

Outra doença cardiovascular muito mais frequente nas mulheres e também nesse período pós-menopausa é a chamada síndrome do coração partido. Trata-se de um infarto que ocorre após forte emoção e curiosamente caracteriza-se pela ausência de obstrução das artérias do coração.

Assim, se você chegou à menopausa, não é só o ginecologista que você deve consultar, converse também com seu cardiologista, porque como disse Clarice Lispector: "Toda mulher leva um sorriso no rosto e mil segredos no coração".