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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Voltamos de onde nunca saímos!

Drazen Zigic/Istock
Imagem: Drazen Zigic/Istock
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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

03/04/2022 04h00

Freud disse certa vez: "Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda."

Na minha extrema ousadia, acho que lhe faltou a definição do que é "estar vivendo". Isso porque o maior líder espiritual que o mundo conheceu deixou claro que a vida que vale a pena, resumida pelo filósofo professor Clóvis de Barros como o "filé mignon da vida ", é a vida dedicada ao outro.

Isso produz, ou deveria, um enorme impacto sobre quem está acostumado a ouvir que o sucesso da nossa vida tem a ver com o nosso próprio ganho, com a nossa própria riqueza e com o nosso conforto em uma vida em busca do supérfluo. Como diz o professor, o que fará de você um vivente feliz é a entrega.

O culto ao supérfluo nunca trouxe felicidade e beira o impossível. Quando a falta vira presença ela perde valor em nome de uma nova falta. E acredite, há mais gente no mundo infeliz por falta do supérfluo do que do necessário.

Entender como o mundo funciona quando ele parou de funcionar na pandemia foi um desafio.

Entretanto, mesmo em uma análise superficial, fica fácil entender que ele nunca funcionou direito. Vivemos uma sucessão alucinante de guerras, pestes e pandemias. Às vezes, como agora, duas delas.

Passamos dois anos lutando intensamente para salvar vidas e agora vemos bombas matando pessoas deliberadamente.

Gasta-se dinheiro para proteger os seres humanos da loucura dos seres humanos e deixa-se seres humanos morrerem de fome por falta de dinheiro.

E assim continuamos sendo chamados sempre com urgência a superar nossos mais mesquinhos sentimentos.
Como diz a música da Zizi Possi: "A vida tem sons para gente ouvir" e continuamos fingindo não ser conosco.

Vivemos no mundo atual a solidão coletiva, com muita conectividade e poucos vínculos. A individualidade prevalece, esquecendo que se você não precisa de ninguém para nada, o outro também não vai precisar de você para muita coisa e desencadeia a solidão geral. Aí o mundo nos lembra que todos precisamos de ajuda em algum ou em muitos momentos da existência.

Ainda que não seja religioso ou nem mesmo acredite na providência, na Bíblia encontramos exemplos de comportamentos maravilhosos e bem oportunos para este momento. Durante a nossa existência, todos perpassamos em maior ou menor grau pelos sete pecados capitais e para cada um deles também há uma virtude oposta que muitas vezes passamos distantes.

Por exemplo, como contraponto à soberba existe a humildade, para a gula a temperança, em oposição à ira há a paciência, e para a preguiça o oposto é a diligência. Neste momento, talvez devêssemos lembrar que o contrário do pecado avareza é a caridade. O mundo nunca esteve tão necessitado dela.

Jesus nos ensinou que a vela queima de si para iluminar os outros. Tudo nele é maravilhoso. Não há exemplo mais virtuoso. Não apenas sua capacidade de ressuscitar os mortos, mas de animar aos vivos. O mundo deve a ele sua formação moral.

Uma lei dos espíritas nos lembra que "fora da caridade não há salvação". Podemos fazer algo por nós mesmos, fazendo algo pelos outros. Esse é o jogo.

Será que aprendemos? Desumanidade não é destino.

E, de novo, ainda que não seja religioso, lembremos que a solidariedade e a generosidade não são dimensões religiosas, mas dimensões humanas.

Fui um grande defensor, quase entusiasta da ideia de que a pandemia seria um catalisador de mudanças em nossa sociedade, da nossa arrogância de senhores do planeta e na redução das desigualdades que apequenam nosso espírito e nos tiram a dignidade.

Palavras como empatia, solidariedade e compaixão viraram moda, mas não se traduziram ou se transformaram em prática.

Perdemos esse desafio ético e o futuro do sistema permanece incerto.

Vivemos o eterno retorno de Nietzsche em que afirma que o universo e toda a existência e energia continuarão a ocorrer, de forma semelhante um número infinito de vezes através do tempo ou espaço infinito, ou de que há um padrão cíclico de certas recorrências.

Acreditei que haveria mudanças éticas porque havíamos perdido a capacidade de indignação com o sofrimento alheio a ponto de se tornar "normal" o que é comum em nossa sociedade como a exclusão de milhões de pessoas.

Como disse o jornalista Jorge Yared a pobreza existe não porque é difícil saciar a fome dos pobres, mas porque é difícil saciar a ganância dos ricos.

Por que nada mudou?

Não podemos dizer que não assistimos em algum grau, exemplos de solidariedade na pandemia e agora nesse despautério de invasão de um país que já entregou suas armas em confiança. O que incomoda é que as tragédias humanas continuam sendo motivadas pela estupidez e pelo desamor e desrespeito.

As guerras pela sede de poder, alheio ao sofrimento humano, custando o que custar. Poder que ainda que atingido, será tão transitório como nossa estadia neste mundo louco. As pandemias pela relação predatória e pouco ética do homem com a natureza.

Ao achar que mudaríamos, superestimei o amor, a solidariedade e a generosidade.

Com o amor vem a generosidade e solidariedade como aperfeiçoamento. Muitos o têm, como entretenimento e não como aperfeiçoamento. Mas a generosidade e solidariedade não precisam vir necessariamente do amor (melhor seria), mas pode ser uma decisão da inteligência, da sensibilidade, uma virtude moral, um exemplo. Faça como se amasse. Já de bom tamanho estaria.

O nome disso é depura-se. Um alimento para a alma, que nos faz crescer. É quase fazer as pazes com a vida. Vida nada me deves.

Mas não considerei que para ter solidariedade é preciso criar musculatura, não é de uma hora para outra.
Todos planejam o futuro, mas ninguém planeja solidariedade e queremos um mundo melhor.

Mas, como tudo na vida, é uma situação que embora se repita, está de passagem e deixará, certamente, um rastro de consequências.

No tempo futuro pós-coronavírus seria de se deduzir com raciocínio lógico, que o estresse pós-traumático acompanharia a vida de muitos. Mas nem tempo deu e já veio a guerra, coberta de atrocidades, loucuras e devaneios.

A busca pelo poder, que não esgota a vida genuinamente vem sempre acompanhada da falta de afeto de alguns líderes ultranacionalistas. Afeto no sentido de se afetar com o sofrimento alheio e ultrapassam em muito os princípios de convivência, respeito e moralidade. Por mais que procure não há argumentos para defender a imoralidade da guerra.

Do ponto de vista médico, o estresse pós-traumático caracteriza-se pela dificuldade em se recuperar depois de vivenciar ou testemunhar um acontecimento assustador. Sucessão de traumas e estresse constante.

A condição pode durar meses ou anos, com gatilhos que podem trazer de volta memórias do trauma acompanhadas por intensas reações emocionais e físicas.

Entre os sintomas estão reações exageradas a estímulos, ansiedade, insônia, pesadelos constantes ou lembranças repentinas, fuga de situações que relembrem o trauma e humor deprimido. Pode ainda haver transpiração excessiva e ataques de raiva. Considere-se ainda que muitos têm dificuldade de desligar a reação fisiológica do estresse e precisam de mais tempo. Tempo que não nos é dado faz tempo.

Sem contar os problemas da vida pessoal, o mundo tem aumentado sua capacidade lesiva. Tudo isso movido pela falta de amor e pela estupidez humana, expressões que não deveriam caber na mesma frase.

Aí entramos no ciclo vicioso, nada virtuoso, do cada um por si ou salve-se quem puder, onde nem o "amor fati" de Nietzsche e nem os estoicos sobreviverão porque não conseguirão se manter inertes em relação à vida.

A síntese é que, se a ideia de pós-tragédias deveria apontar para o futuro melhor, mais solidário e empático, o que se verifica de fato é a persistência do passado —um passado de desigualdades que as pandemias e guerras acentuam, em vez de arrefecer.