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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hanseníase, a doença do preconceito

Pés de pessoa com hanseníase - Tawatchai Khid-arn/123RF
Pés de pessoa com hanseníase Imagem: Tawatchai Khid-arn/123RF
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

09/01/2022 04h00

Se este mês você vir por aí algum prédio ou monumento iluminado de roxo, saiba que foi a cor escolhida para chamar a atenção da sociedade para a hanseníase. No último domingo do mês de janeiro é celebrado o Dia Mundial de Combate à Hanseníase.

Antigamente conhecida como lepra ou mal de Lázaro, a hanseníase é uma doença infecciosa, crônica, causada pela bactéria Mycobacterium leprae (ou bacilo de Hansen, em memória de seu descobridor), que pode afetar qualquer pessoa e ter evolução de anos quando não tratada.

Há relatos de casos de hanseníase desde 4.000 anos a.C., nos papiros do antigo Egito. Acredita-se que a doença tenha sido espalhada do Oriente pelo mundo por tribos nômades ou por navegadores, como os fenícios.

Na época de Cristo, um dos grandes problemas, tanto de saúde quanto social, era a lepra. Os doentes eram enviados para isolamento para o chamado Vale dos Leprosos.

Um dos milagres de Jesus é a cura de um leproso, citado em Mateus 8:1-4, Marcos 1:40-45 e Lucas 5:12-16.
No Brasil, os primeiros casos de que se tem notícia foram no Rio de Janeiro e acredita-se que vieram com os colonizadores portugueses em 1600.

A doença carrega em sua trajetória uma triste história de preconceito e exclusão e já foi associada a castigo divino, à desonra e à impureza.

Por vezes eram enviados compulsoriamente a leprosários (inclusive no Brasil), por vezes eram obrigados a usar luvas e roupas especiais, carregar sinetas que anunciassem sua presença e, até para pedir esmolas, precisavam colocar um saco amarrado na ponta de uma vara.

Alguns atiravam pedras nos doentes para que não se aproximassem. Nem mesmo as igrejas toleravam a presença dos doentes.

No Brasil, entre 1920 e 1950, foram criados quarenta leprosários (chamados asilos-colônias) sendo 80% deles no governo de Getúlio Vargas.

Inaugurado em 1937, o Hospital Dr. Francisco Ribeiro Arantes, conhecido como colônia-asilo de Pirapitingui, na cidade de Itu (SP), chegou a abrigar 4.000 pacientes com hanseníase.

Em 1949, o isolamento forçado dos hansenianos em leprosários virou lei federal, que vigorou até 1986. A legislação da época criou os chamados órfãos de pais vivos, separando filhos dos pacientes contaminados, sendo enviados para educandários, lugares semelhantes a creches.

Hoje não existem mais leprosários no Brasil. Deram lugares em sua maioria a hospitais gerais, mas, por ignorância plena ainda nos dias atuais, estigmatiza-se os contaminados por essa bactéria, e este triste comportamento tem se tornado um enorme obstáculo para o diagnóstico e tratamento da doença.

Porque, sim, para quem não sabe, existe tratamento muito eficaz e cura desta doença infecciosa.

Talvez a cor roxa tenha sido escolhida por representar a vergonha que devemos sentir por esse comportamento.

No Brasil, foram 312 mil novos casos registrados nos últimos dez anos, colocando o Brasil na segunda posição no ranking mundial da doença, atrás apenas da Índia. Temos em média no nosso país 30 mil novos casos por ano.

Qual é a forma de transmissão? Por que o medo não é justificado?

A doença pode ser classificada em dois tipos principais: lepra paucibacilar e lepra multibacilar. A forma paucibacilar apresenta poucos ou nenhum bacilo nos exames e a multibacilar, com muitos bacilos. A forma multibacilar não tratada possui potencial de transmissão.

De acordo com a classificação de Madri, a hanseníase pode ser classificada em: hanseníase indeterminada (paucibacilar), tuberculoide (paucibacilar), dimorfa (multibacilar) e virchowiana (multibacilar).

A transmissão dessa bactéria ocorre pelo contato com gotículas de saliva ou secreções do nariz durante a convivência muito próxima, íntima e prolongada com o doente da forma transmissora, chamada multibacilar (forma contagiosa) e que não se encontra em tratamento.

Tocar a pele do paciente não transmite a hanseníase. A maioria das pessoas apresenta uma defesa natural e não fica doente após entrar em contato com o bacilo.

Quais os sintomas?

Após o contágio, o indivíduo pode levar vários anos para iniciar os sintomas. Ela afeta principalmente a pele, os olhos, o nariz e os nervos periféricos.

Os sintomas incluem manchas claras, vermelhas ou amarronzadas em qualquer parte do corpo, com perda ou diminuição de sensibilidade e dormência; nódulos (caroços); inchaços na face, nas mãos e nos pés com dormência ou fraqueza.

Podem se manifestar com áreas de pele seca e sem pelos. Em poucos casos as lesões de pele estão ausentes.

Embora não seja um artigo médico, relatei de forma sumária os sintomas e sinais porque é fundamental o reconhecimento precoce da doença e, assim, colaborar para a descentralização do diagnóstico e do tratamento.

O Brasil, na década de 1990, incluiu a hanseníase entre os agravos atendidos pela rede de Atenção Básica à Saúde. A maioria dos casos podem ser diagnosticados e tratados nos Postos e Clínicas da Família, evitando a sobrecarga dos serviços de referência.

A doença pode ser curada com 6 a 12 meses de terapia com vários medicamentos. O tratamento precoce evita complicações e os remédios para hanseníase são oferecidos gratuitamente nos serviços públicos de saúde de todo o país.

Apesar do baixo contágio atualmente como referido, tratamento relativamente simples e disponível, o estigma social ainda permanece.

Estigma e injustificado preconceito que fez Albert Einstein afirmar que: "Vivemos uma triste época! Onde é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL