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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Reflexões sobre a melhor dieta do mundo

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista de VivaBem

26/12/2021 04h00

Este não é um artigo de uma dieta, mas sobre as dietas. Visto que sabidamente a alimentação será responsável por grande parte dos diagnósticos que constarão em nossos atestados de óbito, vale a pena se atentar para ela.

Morre-se pela falta de alimento ou, como na maioria das vezes, pelo excesso dele, já que até as doenças infecciosas têm pior evolução nos pacientes com distúrbios alimentares.

Comer em abundância já foi um hábito e sinônimo de puro luxo e riqueza. Hoje é insanidade. Parece mais insanidade falar sobre comer demais no Brasil, que atualmente tem 116,8 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, sendo que 43,4 milhões (20,5% da população) não contam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada) e 19,1 milhões (9% da população) estão passando fome (insegurança alimentar grave).

Mas, contra o senso comum, uma em cada quatro pessoas de 18 anos ou mais no Brasil está obesa, o equivalente a 41 milhões de pessoas. Já o excesso de peso atinge 60,3% da população de 18 anos ou mais, o que corresponde a 96 milhões de pessoas. Acho que justifica falar sobre dieta.

A palavra "dieta" tem origem no latim diaeta, que vem do grego "díaita", que significa "modo de vida equilibrado". Então isso tem mais relação com os hábitos e culturas de determinadas regiões e, considerando que o ser humano tem características físicas semelhantes, a dieta inadequada em qualidade ou quantidade tem repercussões semelhantes em todos ou na maioria pelo menos.

Por exemplo, o maior número de casos de câncer de estômago ocorre no Japão, onde encontramos 780 casos por 100 mil habitantes. Parece que os molhos usados nos alimentos atuam como fator irritativo local, bem como o hábito de ingerir alimentos muito quentes seriam os responsáveis.

No Brasil, estatísticas do Inca (Instituto Nacional do Câncer) mostram uma incidência do mesmo tumor de 18,29/100 mil habitantes entre os homens e 8,14/100 mil entre as mulheres.

Em outro exemplo, o câncer de intestino (colorretal) é considerado a quarta causa mais comum de câncer em todo o mundo, e no Brasil ele representa uma das principais causas de óbito. Prevê-se que até 2030 a incidência e a mortalidade devem aumentar em até 60%.

Em estudo de metaanálise (que avaliou diversos outros estudos) evidenciou-se que o risco de desenvolver o câncer colorretal aumenta de 13% a 17% para um incremento diário de 100 g de carne vermelha e 18% para um incremento de 50 g de carne processada diariamente.

Em 2015, a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificou as carnes processadas no grupo 1 de carcinogênicos (na mesma categoria estão o cigarro e a fumaça do diesel, que comprovadamente possuem ação cancerígena) e a carne vermelha está classificada como carcinógeno provável, entrando na lista do grupo 2 (provavelmente cancerígeno para humanos).

Assim, podemos afirmar que a alimentação é um fator determinante na prevenção do câncer colorretal, e a adoção de hábitos alimentares saudáveis reduz a mortalidade em decorrência desta patologia.

E as dietas para perda de peso?

A internet está repleta de dietas milagrosas que por vezes ganham o gosto das pessoas por prometerem soluções rápidas.

Para citar algumas, temos a cetogênica, Atkins, mediterrânea, low carb, da lua, da sopa, jejum intermitente, Dukan e dieta do metabolismo rápido.

Vejamos aqui algumas delas:

A Atkins é uma dieta originalmente desenvolvida pelo cardiologista americano Robert Atkins nos anos 60 e publicada originalmente em livro em 1972 como "A Dieta Revolucionária do Dr. Atkins". Consiste basicamente em reduzir drasticamente a ingestão de carboidratos da alimentação, sendo que 98% das calorias diárias ingeridas são proteínas e gorduras animais.

Duramente criticada pela comunidade médica, pois apesar de incentivar a ingesta das chamadas gorduras boas isso na prática fica muito difícil, e o que se observa é o aumento do LDL (colesterol ruim), que é extremamente maléfico a saúde.

Sem glicose na ingesta, o organismo recorre às gorduras dos alimentos como fonte energética. Quando se queima gordura em excesso, são produzidos resíduos chamados corpos cetônicos, usados como fonte de energia.

O acúmulo dessas substâncias no sangue produz um aumento do volume urinário, o que pode levar a desidratação.

Isso sem contar na deficiência de vitaminas e minerais pela limitação da ingestão de vegetais e a proibição do consumo de frutas. A deficiência de proteína por déficit de absorção imposto pela dieta pode levar ainda a um mal funcionamento de diversos órgãos.

Ao longo dos anos, essa dieta ganhou inúmeras variantes mais amenas, como a dieta de "Atkins modificada" que, com uma quantidade menor de gorduras e maior em proteínas e carboidratos, oferece melhor aceitação.

Outra é a "dieta de South Beach", que surgiu no sul da Flórida e foi desenvolvida pelo cardiologista Arthur Agatston para reduzir os níveis de colesterol e triglicerídeos. Um regime que se pretendia equilibrado e com uma primeira fase rígida com um menu bastante limitado e dificilmente compatível com a vida diária.

A mais equilibrada seria a chamada "dieta do Mediterrâneo", com consumo elevado de alimentos de origem vegetal, azeite como principal gordura, consumo baixo a moderado de lacticínios, consumo frequente de pescado e baixo e pouco frequente de carnes vermelhas.

Como nada é perfeito, ela seguramente é a mais custosa financeiramente para seguir e há de se tomar cuidado com a quantidade de sal presente em alimentos e com o tamanho das porções, principalmente as que levam alimentos com alto teor calórico, como castanhas e azeite de oliva. Além da dificuldade de segui-la na rotina diária.

A dieta do momento agora é o chamado "jejum intermitente". É o termo genérico entre vários horários de abstinência alimentar e a próxima refeição. Habitualmente consiste em não comer alimentos sólidos entre 16 e 36 horas seguidas, algumas vezes por semana, de forma programada.

Como toda dieta bem-feita, ocorre a redução da gordura corporal, controle da glicemia e insulina e a redução do risco cardiovascular.

Entre os efeitos secundários do jejum intermitente estão hipoglicemia, fraqueza, dores de cabeça, tontura, irritabilidade e dificuldade de manter a concentração.

O objetivo aqui não é analisar cada uma das dietas, mas mostrar que todas precisam de moderação e acompanhamento profissional. Até porque ninguém faz dieta rigorosa a vida inteira.

A melhor dieta que encontrei, e acredito que vai ser difícil mudar, é a em que se come de tudo, mas pouco...

Assim, a vida saudável não vem de uma dieta, não é uma fase, mas uma mudança permanente no estilo de vida.

Quando vejo alguém fazendo dieta rigorosa, querendo emagrecer demais e a qualquer custo me lembro de um paciente que me disse certa vez: "Se a natureza quisesse que os nossos esqueletos ficassem visíveis, ela os teria colocado do lado de fora de nossos corpos."