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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Depressão pode afetar coração e predispor a várias doenças; entenda relação

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

20/03/2022 04h00

Um espinho na alma, um mundo sem cor. Use a metáfora que desejar, mas o fato é que ter o diagnóstico de depressão é entrar em um ciclo vicioso pessimista do qual é difícil sair sem ajuda.

Impiedosa, a depressão atinge a todas idades, gêneros e classes sociais. Uma em cada cinco pessoas será acometida durante a vida em algum grau.

Dados publicados recentemente pela OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que 350 milhões de pessoas pelo mundo sofrem de depressão, 18% a mais do que há dez anos. O número representa quase 5% da população do planeta.

No caso do Brasil, a OMS estima que 7,5% da população nacional seja afetada pela doença, afastando quase 100 mil pessoas do trabalho todos os anos por conta desse diagnóstico.

É caracterizada como um dos principais problemas de saúde pública no mundo (custos diretos e indiretos nos EUA de quase US$ 50 bilhões).

Como explicar?

Sofremos muito pela falta e nos alegramos pouco com o que temos. A humanidade sempre foi assim.

Em uma sociedade doentia, de pandemias e guerras a solidão, parece um bálsamo, mas quando ela é só o que almejamos e socializar parece um desafio, podemos estar diante de um problema.

Óbvio que não é simples assim. Crescemos aprendendo a sonhar alto, a vencer sempre, com a obrigação de ganhar bem e dividir nosso tempo com quem amamos. De amarmos e, ainda mais difícil, de sermos amados.

Nos ensinam a perseguir objetivos nem sempre tangíveis, ser sincero sem deixar de ser gentil e sermos ousados sem perder o chão. É o que chamo de "culto à frustração". E ainda, o tempo passa e percebemos que resta pouco tempo para sermos como gostaríamos, ou como gostariam que fôssemos.

O mundo virtual, onde existe felicidade plena, tornou-se uma presença no cotidiano de muitas pessoas. Como fomento de uma relação infinitamente afetivamente pobre, tenta-se convencer a audiência (como se fôssemos um avatar) que vivemos em um mundo de realizações em que não existem dificuldades. Exige-se vida de sucesso sempre, onde temos que performar o tempo inteiro, ser um empreendedor de si mesmo, bater metas no salário, no físico perfeito e até na espiritualidade.

Para piorar, há muito tempo que endossamos esse comportamento no sentido de buscar a felicidade plena com frases como "busque sua melhor versão" ou "só você pode ir atrás dos seus sonhos" e "você pode ser o que quiser".

Ser sempre o melhor como se tivesse alguém nos esperando no pódio eleva o grau da demanda e confunde a realidade.

A espera da realização plena associado à sociedade de espetáculo passa a ser demais para suportar e vem a falência da resiliência, cai-se em apatia e perde-se o vigor pela vida.

Além disso, a pandemia demonstrou que temos pouca capacidade de suportar o estresse crônico.

Equilibrávamos entre a ansiedade e a depressão e esses dois anos "chutaram o calço da mesa" e, para muitos, sobretudo aqueles que já tinham uma predisposição genética, a pandemia funcionou como um gatilho para as doenças psíquicas.

E aí, medicaliza-se a vida.

Tornou-se difícil alguém chorar em um consultório médico sem sair com uma receita de antidepressivo ou uma criança ir mal na escola sem acabar tomando ritalina.

De acordo com um relatório divulgado pela OMS, a população brasileira é a mais deprimida da América Latina.
Em pesquisa recente feita pela Sul América Seguros, em seis anos, houve um salto de 74% no número de antidepressivos adquiridos pelos segurados dessa operadora.

Atualmente, os antidepressivos ocupam a segunda posição na lista de remédios mais vendidos contra desordens do sistema nervoso, com 6% do total na categoria.

O primeiro lugar pertence aos analgésicos, que somam 10% das vendas. Já os ansiolíticos, medicamentos para ansiedade estão em terceiro lugar.

E o coração?

Que a depressão é um fator de risco para doenças cardiovasculares a medicina já sabe. Acredita-se que ela aumenta a concentração de hormônios como o cortisol que danificariam as artérias do coração.

Isso sem contar que ela agrava outros fatores de risco, como tabagismo, colesterol alto, obesidade e hipertensão.

Sabidamente os depressivos fazem menos controles de saúde, tomam menos seus medicamentos, fazem menos exercícios e se alimentam de maneira menos saudável.

Em recente pesquisa, em que se coletou dados de 3.500 pessoas por 10 anos, demonstrou-se que a depressão foi responsável por 15% das mortes por doenças cardiovasculares.

Esse número é semelhante ao de outros fatores de risco, como obesidade e colesterol alto. A depressão também aumenta a produção de um outro hormônio do estresse chamado adrenalina que diminui o fluxo de sangue fornecido pelas artérias em resposta a demandas do coração.

Esse hormônio está implicado na ruptura da placa de colesterol, que por ventura já estava presente nas artérias do coração, além de aumentar a pressão arterial. Hipertensão porque esse hormônio também interfere no sistema responsável pelo relaxamento e contração dos vasos (artérias e veias).

Há evidências de que a depressão ainda produz um aumento de substâncias inflamatórias na circulação, o que produziria uma lesão do endotélio (parede interna do vaso) favorecendo a deposição de gordura que vai obstruir as artérias do coração.

Por outro lado também, as doenças cardiovasculares podem conduzir à depressão pelo forte estigma que que esses indivíduos carregam e a possibilidade da finitude sendo vislumbrada. Assim, a depressão tem duas vezes mais riscos de ocorrer em pessoas com doenças cardíacas do que na população em geral, e não é incomum as duas doenças coexistirem.

Tudo isso levou o American Heart Association, em 2014, a afirmar que a depressão é um fator de risco para um mau prognóstico após um ataque cardíaco, e declarou que o risco de morte em sobreviventes de ataques cardíacos com depressão era três vezes maior do que naqueles sem a doença.

Tamanha a relevância desse fato que a Associação Americana de Cardiologia recomenda como uma de suas principais diretrizes na atualidade o tratamento antidepressivo obrigatório dos pacientes cardíacos deprimidos a fim de melhorar o prognóstico da doença cardíaca.

Ainda, algumas doenças físicas como o hipotireoidismo, a doença de Parkinson, doença de Alzheimer e até o diabetes, por exemplo, podem ter a depressão como primeira manifestação, ou ainda a doença depressão pode abrir brechas para estas e para outras doenças como o câncer.

Assim, depressão não é consequência de uma escolha pessoal, ou sinal de fraqueza, como alguém menos informado possa sugerir, mas advém da luta contra as adversidades da vida, frustrações, desapontamentos, exigências extremas ou tudo isso. Soma-se a isto uma tendência, um traço de personalidade ou talvez uma herança genética.

Considerada como o mal do século 21, é fundamental identificar a doença logo no começo porque engana-se quem diz que vivemos apenas uma vez. Nós morremos apenas uma vez, mas vivemos todos os dias!