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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O sal da Terra: é preciso dar um voto de confiança à vida

Austin Kehmeier/Unsplash
Imagem: Austin Kehmeier/Unsplash
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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

20/02/2022 04h00

"Anda, quero te dizer nenhum segredo. Falo deste chão da nossa casa. Vem que tá na hora de arrumar."

A música de Beto Guedes é quase um chamamento para a realidade da nossa sociedade. Somos um país moldado pela escravidão, por corrupção e privilégios. Mas passado não tem a ver com destino. Serve como referência para mudança. Não somos reféns dele.

O que preocupa é assistirmos inertes ao que estamos nos tornando e o país que estamos deixando para filhos e netos. Eu que já não tinha apreço pelo "velho normal", o reencontrei piorado pós-pandemia.

Uma sociedade dividida, com discurso de ódio entre brasileiros, insensível, quase inerte ao sofrimento alheio. Economia em frangalhos, desemprego assustador, agressão ao meio ambiente cada vez maior, intolerância a adversidade e desigualdades sociais escancaradas. Trinta e cinco por cento de aumento de pessoas em condição de rua e vínculos familiares fragilizados ou interrompidos.

Ainda esta semana, desabamentos, enchentes e inundações em Petrópolis. Mais de 100 mortos e outros tantos desabrigados. Tragédia mais que anunciada, com dia e mês marcado. E se repete ano após ano. E vamos assistindo, nos acostumando com a morte.

E boates Kisses e Brumadinhos já são passados. Perto de 650 mil brasileiros que se foram e continuam indo em torno de 1.000 por dia de covid. Mas a relação pouco ética com o reino animal e predatória do homem com o meio ambiente continua.

Vamos modificando ecossistemas esquecendo que essa é a origem e biografia dos vírus. Época de zoonoses emergentes e criadas por nós. Vivemos um momento difícil relativizando vida humanas.

A negação, quando não serve a propósitos políticos, ou não querer ver é um mecanismo de defesa do ego, mas aí vem o superego que é a sua consciência moral e diz "é melhor ver isso com mais calma". E vem uma tristeza profunda.

Tudo isso porque não dá para viver a morte da morte como sugeriu Philippe Ariès, historiador francês medievalista. Porque sabemos que não dá para construir um mundo diferente com pessoas indiferentes.

Agora você pode estar se perguntando: o que tudo isso tem a ver com saúde? Tem a ver com nossa saúde mental.

Não vamos nos adaptar a tudo isso porque, como disse o filósofo indiano que morreu em 1986, Jiddu Krishnamurti: "Não é sinal de saúde estar adaptado a uma sociedade doente".

É preciso elevar nossa capacidade de amar. Investir e aperfeiçoar a nossa solidariedade. Sim, porque aprendi que para ter solidariedade é preciso criar musculatura, e não é de uma hora para outra. Ninguém planeja solidariedade, mas todos querem um mundo melhor.

É preciso dar um voto de confiança à vida e ao amor. O amor não precisa de contrapartida, ele precisa de investimento. Porque se assim não fizermos, nos sentiremos tanto dentro do lixo nessa sociedade mesquinha e destrutiva que nos identificaremos com ele e não conseguiremos mais resgatar nada nem ninguém.

Assim, como diz a mesma música do poeta que convida os seres humanos para o resgate dos valores: "Vamos precisar de todo mundo. 1 + 1 é sempre mais que 2. Pra melhor juntar as nossas forças é só repartir melhor o pão".