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Opinião: Descontrole da Covid causa dano irreparável ao esporte do Brasil

Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

25/06/2020 04h00

Ao escolher reabrir parte da economia enquanto o número de casos pelo coronavírus continua em franco crescimento, o Brasil opta por tentar preservar emprego e renda, mesmo que isso signifique enterrar mais e mais brasileiros. Se a opção pelas mortes já não fosse grave o suficiente, ela vem acompanhada de muitas outras consequências. No esporte, elas serão irreparáveis.

No exterior, ligas como a espanhola de basquete só foram autorizadas a voltar porque houve soma de dois fatores: redução de casos no país e aplicação de protocolos sanitários. Por aqui, estamos longe de dar o primeiro passo. Também não daremos o segundo tão cedo. Não há dinheiro no esporte "amador" para a realização de testes. Sem testes não há Superliga, não há NBB, não há campeonato de judô ou de vôlei de praia. Realizá-los sem testar seria como replicar a péssima experiência de Novak Djokovic na Sérvia.

Quando a pandemia chegou, a Superliga Masculina, especialmente, já avistava a tempestade, com redução no número de clubes. A Covid potencializou o problema. Dos quatro maiores times do país, aqueles que pagavam bons salários e mantinham bons atletas no país, dois desistiram de terem times adultos. As equipes menores não sabem se vão sobreviver. A debandada já começou e cresce à medida que crescem os casos de coronavírus no país.

A concorrência é desleal. Pense com a cabeça de um atleta: ficar no Brasil em meio a uma pandemia, sem saber quando haverá Superliga e se haverá emprego; ou aceitar receber em moeda estrangeira jogando em qualquer outro canto do mundo, em condições seguras, já a partir de agosto? O êxodo não ficará restrito ao vôlei masculino. Deverá afetar de forma significativa o basquete feminino, por exemplo, uma vez que a LBF 2019 acabou em agosto do ano passado, a de 2020 não será realizada e a de 2021 só deve começar em março do ano que vem.

Esse êxodo costuma ter efeitos irremediáveis. Vide o handebol. Hoje o Brasil é um dos maiores exportadores de jogadoras para a Europa, mas a liga nacional praticamente não existe no país campeão mundial de 2013. Nem em fim de carreira as brasileiras de elite querem jogar aqui. Na melhor das hipóteses, o Brasil vai levar anos para voltar ao estágio de 2019 na LBF, no NBB ou na Superliga.

Até porque a debandada de patrocinadores já começou. A Caixa não renovou contratos com a LBF (que era altamente dependente desse patrocínio) e com o NBB. Único clube com equipes nas quatro grandes ligas, o Sesi-SP sofreu corte expressivo de arrecadação. Muitas equipes são bancadas por recursos municipais e as prefeituras, entre honrar as folhas salariais ou sustentar equipes competitivas, precisam escolher a primeira opção.

Mas os problemas continuam. Ao defender junto ao presidente da República uma Medida Provisória que visa única e exclusivamente um ganho próprio, a diretoria do Flamengo escancarou um ditado popular que diz que: "Farinha pouca, meu pirão primeiro". Com tantos problemas urgentes no esporte brasileiro, foi o dinheiro da TV que tirou da inanição o maior clube do pais e o governo federal. Discussões urgentes como ampliação da alíquota do Imposto de Renda que poderia ser doada à Lei de Incentivo ao Esporte ficam para outra hora.

Não é preciso ir longe para descobrir que, sempre que o esporte olímpico competir por dinheiro com o futebol, vai sair prejudicado. Flamengo, São Paulo, Corinthians e Botafogo têm equipes de basquete masculino. Flamengo, São Paulo e Fluminense estão na Superliga Feminina.

Dentro dessa mesma lógica individualista, a maior parte dos jogadores profissionais da elite brasileira do futebol aceitou ganhar menos durante a pandemia, mas desde que depois os clubes paguem o que ficou faltando. Para equilibrar as finanças, preservando os salários do futebol, o Corinthians cortou bolsa auxílio para os jogadores da base do futsal. O Vasco dispensou todos os atletas paraolímpicos. Quem sempre viveu de sobras vai passar fome agora que não vai sobrar nada.

De novo: notícias ruins num cenário que já não era bom geram um cenário péssimo. O governo federal nunca previu recursos suficientes para manter o programa Bolsa Atleta em 2020 e os grandes clubes sociais já tinham uma tendência de reduzir investimentos no esporte de rendimento. Projetos de formação dependem, em sua grande maioria, de Lei de Incentivo, mas a tendência é que de queda drástica de arrecadação, porque as empresas têm menos para doar - e os políticos em Brasília estão ocupados demais com o Flamengo para discutir formas de resolver o problema.

Nesse contexto, não é difícil imaginar uma grande evasão de jovens atletas. Sugiro mais um exercício de empatia: fosse você um jovem atleta, sem treinar desde março, correndo sério risco de ficar sem ajuda financeira. Voltaria a treinar num dia futuro, sabe-se lá quando, para manter o sonho de ser atleta profissional num cenário de incertezas e de queda de investimento no esporte, ou partiria em busca de um novo plano? De um emprego que ocupe o tempo antes dedicado ao esporte, mas que encha o prato?

É uma bola de neve, que vai se juntar com outra, que já está rolando montanha a baixo há algum tempo. É público e notório que o investimento para que o Brasil tivesse resultados nos Jogos do Rio ainda traria resultados em Tóquio, mas que o cenário para 2024 era muito preocupante. Agora é mais ainda. Porque, como mostramos, vai faltar dinheiro, vai faltar oportunidade, vai faltar atleta. E não só. Também vai faltar treinamento.

Daqui a dois meses começa o ciclo olímpico para Paris (ainda que com outra Olimpíada, de Tóquio, no meio do caminho), e os brasileiros estão impedidos de treinar. Centralizador dos poucos recursos disponíveis para o esporte olímpico brasileiro, o COB tem há anos uma política de investir especialmente na ponta da pirâmide e vai fazer isso de novo levando só a elite para treinar em Portugal, fugindo da pandemia no Brasil. Quem já está no topo terá oportunidade de treinar tranquilamente. Quem não está, mas quer chegar, fica no Brasil chupando o dedo. Sem piscina, sem pista de atletismo, e sem treinadores, porque os melhores também vão para a Europa.

Isso, claro, se a Europa permitir a entrada de brasileiros visitantes. Se vier o veto, não há "Missão Europa" tão cedo. Aí, a dor de cotovelo será coletiva. Não só os mais jovens, todo mundo vai ficar em casa chupando o dedo, angustiados enquanto europeus, norte-americanos, chineses, australianos treinam e competem pensando em Tóquio.

E, nisso, voltamos à opção feita pelo Brasil, citada no primeiro parágrafo. Ao escolher reabrir a economia e não controlar a pandemia, o Brasil assumiu o risco de ser isolado mundialmente. Assumiu o risco de não voltar a ter treinos tão cedo, de não ter competições tão cedo, de não competir internacionalmente. Assumiu o risco de voltar ainda mais casas do que as que avançou com os investimentos provocados pela "década esportiva". Agora, vai ter que lidar com essas consequências.

Olhar Olímpico