PUBLICIDADE
Topo

Com salário desigual, mulheres do basquete querem ao menos tratamento igual

Christian Petersen/Getty Images
Imagem: Christian Petersen/Getty Images
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

23/06/2020 04h00

Uma pequena revolução no basquete feminino teve início no domingo à noite, quando a pivô Erika, decana da modalidade no país, aproveitou a repercussão de uma entrevista ao Estadão para expor a forma desigual como as marcas de materiais esportivos tratam homens e mulheres no basquete brasileiro. No Twitter, ela apresentou uma galeria de jogadores do NBB, alguns de segundo e terceiro escalão, agradecendo mimos enviados principalmente pela Nike. Já ela, oito vezes campeã espanhola, campeã da WNBA, três Olimpíadas no currículo, não tem apoio algum.

"Não quero que o masculino não tenha apoio. Respeito todos os meninos e eles merecem, mas quero que o feminino também seja apoiado e patrocinado. Isso chama-se igualdade", escreveu ela num post. No seguinte, continuou: "Não adianta as marcas postarem no Dia da Mulher vídeos maravilhosos da força da mulher, falando de igualdade, sendo que no dia a dia não vemos isso. É muito bonito postar "The Future is Female", mas fica bonito apenas no marketing. Na ponta do problema continua tudo igual".

A série de postagens repercutiu no Twitter, compartilhada por diversas jogadoras e ex-jogadoras. "Desigualdade de gênero. Até quando?", questionou Débora Costa. Damiris Dantas quis saber o mesmo: "Até quando?". "É sobre ser valorizada pelo nosso talento e desempenho, independente do sexo. Só queremos igualdade", explicou Isabela Ramona. No Instagram, praticamente o elenco todo da seleção brasileira apareceu para aplaudir Erika durante uma live.

Ao blog, a pivô explicou por que trouxe o tema à tona. "É uma realidade que muitas pessoas desconhecem. Só quem conhece mesmo é quem está dentro. Já estava passando da hora de falar alguma coisa. Já estou com 38 anos, ganhei o suficiente para parar se eu quiser. Eu tô aqui para ajudar, me ajudar e ajudar minhas companheiras. Nada mais justo de poder falar do quanto é difícil o basquete feminino no nosso país", afirmou.

Não é segredo a diferença de valorização, no Brasil, entre o basquete masculino e o feminino. A começar pela salarial. O investimento para ter um time campão na Liga de Basquete Feminina (LBF) não bancaria o último colocado do NBB, que tem 16 equipes, o dobro do torneio feminino. A Confederação Brasileira de Basquete (CBB) faz questão de organizar uma segunda divisão nacional, mas só no masculino. O NBB tem seis patrocinadores e quatro emissoras oficiais. A LBF, dois e uma, respectivamente.

Com tanta discrepância, por que Erika (e, depois dela, praticamente toda a elite do basquete feminino brasileiro) resolveu expor a falta de mimos das marcas? Porque, no entender da pivô, é essa a briga que dá para ganhar no momento. Ganhar os mesmos brindes que os homens pode ajudar a por o prato na mesa.

"Tem menina aqui no Brasil que no máximo ganha mil reais. E um tênis bom, que não vai machucar seu pé, custa 700 reais. Quanto é que sobra? Ainda tem que ajudar família. Já que não vai conseguir salário, que a gente consiga material esportivo. Essa luta (salarial) ainda vai demorar bastante para ser vencida. É desgastante, é uma coisa que é bastante difícil, mas a gente tem que continuar para depois discutir salário. A gente tem que tentar. Se não consegue salário xis, conseguir ao menos material esportivo, que vai nos ajudar a não precisar gastar o salário com material", explica.

Erika conta que seu empresário, Fábio Jardine, que cuida da carreira de boa parte das jogadoras brasileiras de basquete (praticamente toda a seleção) já tentou que os "mimos" chegassem a ela e a outras atletas. Mas que nunca conseguiu grande coisa. "Diziam que eu não ganhava por estar fora do país. Quando estou no Brasil, por não estar no eixo Rio-São Paulo. Quando mandavam algo, eu sabia que não era especificamente para mim, eram coisas grandes. Eu não tô sendo ingrata, mas são coisas que nem todo mundo sabe", justifica.

O post no Twitter explicitou o problema. Ali Erika mostrou 16 jogadores diferentes, só um deles com Olimpíada no currículo, agradecendo terem recebido kits de materiais esportivos, sendo 15 deles da Nike. Os tênis, camisetas, shorts, moletons, são os chamados "mimos": presentes dados por uma marca, que têm retorno de imagem quando os atletas aparecem utilizando tais materiais, seja nos jogos ou nas redes sociais. O agrado, porém, só chega para os homens.

A reportagem procurou a Nike e perguntou por quê. Perguntou também quais os critérios para escolhas dos jogadores beneficiados pelos mimos e se, depois da crítica de Erika e da repercussão entre as jogadoras, a marca pretendia rever sua política. Na resposta (na íntegra no final da reportagem a Nike disse que "reconhece a lacuna existente na participação e incentivo às mulheres no esporte - o que inclui o basquete feminino".

"Por isso, procuramos remover barreiras para o acesso e crescimento do mercado, acelerando a cultura do esporte para mulheres de todo o mundo. No Brasil, a Nike apoia o basquete profissional há várias décadas e continuaremos com esses esforços por acreditarmos no poder do esporte como uma força que move o mundo para frente", continuou a marca.

Já a Adidas, que apareceu na postagem de Erika por uma entrega de material para o armador Yago, do Paulistano, explicou que mantém contrato com o jogador, assim como mantém com outros atletas do esporte brasileiro, como Cris Rozeira, Daniel Alves (futebol), Natália Zilio, Tiffany Abreu (vôlei), o maratonista Daniel Chaves e a ginasta Flavia Saraiva. "A Adidas investe tanto no desenvolvimento de produtos para diferentes modalidades esportivas, como no relacionamento com atletas e clubes, no Brasil e no mundo, que recebem produtos da marca para treinos e competições", explicou a empresa alemã.

Após a postagem de Erika no domingo, na segunda (22) outra atleta da seleção, a armadora Tainá Paixão, cobrou apoio dos atletas do NBB à causa das mulheres. "Imagina que legal seria se os meninos do NBB abraçassem nossa causa, afinal, nós não queremos tirar nada deles, apenas queremos mais igualdade. Isso melhora o basquete brasileiro", escreveu ela, retuitada por uma dezena de jogadoras da LBF.

O torneio, aliás, está parado por causa da pandemia, mas ninguém sabe se ele irá continuar. A competição parou ainda na primeira rodada, antes da própria Erika se apresentar ao Sampaio Basquete, do Maranhão. Como não se apresentou, não está recebendo salários.

Confira a nota da Nike:

A Nike reconhece a lacuna existente na participação e incentivo às mulheres no esporte - o que inclui o basquete feminino. Por isso, procuramos remover barreiras para o acesso e crescimento do mercado, acelerando a cultura do esporte para mulheres de todo o mundo. No Brasil, a Nike apoia o basquete profissional há várias décadas e continuaremos com esses esforços por acreditarmos no poder do esporte como uma força que move o mundo para frente.

Para estimular a prática esportiva e incentivar a nova geração de atletas, a Nike devolveu uma quadra poliesportiva na Vila Buarque, em São Paulo, totalmente revitalizada ao coletivo de basquete Magic Minas, que agora possui um espaço seguro e adequado para uso. Outra grande ativação foi com o Nike Battle Force, uma competição que tem como objetivo promover a cultura do basquete na cidade. Pela primeira vez, o campeonato feminino foi realizado nos mesmos formatos que o masculino, em uma competição de 5 x 5 entre times de parques paulistanos e ligas amadoras.

Continuaremos ativando a comunidade global de milhões de pessoas - incluindo atletas de elite de todo o mundo e milhões de atletas* amadoras, esportistas do cotidiano. O objetivo final é fazer com que mais meninas e mulheres pratiquem esportes.

Olhar Olímpico