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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Botafogo é rebaixado de novo e desmonta de vez o G-12 no imaginário popular

Jogadores do Botafogo deixam o gramado do Estádio Nilton Santos após partida que decretou o rebaixamento - ANDRÉ FABIANO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO
Jogadores do Botafogo deixam o gramado do Estádio Nilton Santos após partida que decretou o rebaixamento Imagem: ANDRÉ FABIANO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

06/02/2021 08h38

- Vô, quais são os times grandes do Brasil?

- Vasco, Flamengo, Fluminense, Botafogo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Grêmio e Internacional.

Foi o que este colunista aprendeu desde menino. Em 1987, esses doze, mais o Bahia, formaram o Clube dos 13, chamado oficialmente de "União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro". Não conseguiram emplacar a liga nacional com a Copa União, depois viraram 20, mesmo mantendo o nome original. Para ser implodido por Andrés Sanchez em 2011, com o Corinthians deixando o grupo por discordâncias sobre as negociações das receitas de TV.

O Botafogo seguiu o mesmo caminho naquele ano. Mas historicamente sempre houve questionamentos sobre a presença do clube nesta "elite". Afinal, o time não conta com uma torcida tão grande, nem ostenta grandes conquistas, com apenas um Brasileiro pós-1971 e uma Taça Brasil em 1968, com o título nacional dividido com o Santos por problemas de calendário na época.

Nenhuma Libertadores, nem dinastia no futebol carioca, mesmo com os grandes times que formou nos anos 1950/60 e, junto com o Santos, representaram a base do bicampeonato mundial da seleção. Este, sim, o grande legado alvinegro.

Com o terceiro rebaixamento, porém, o time carioca parece desmontar de vez o G-12 no imaginário popular. Não só pela precocidade inédita do descenso, faltando ainda quatro rodadas, mas principalmente pelas perspectivas.

Uma dívida astronômica, que muitos calculam em 1 bilhão de reais, sem previsão de receitas consistentes e agora vendo o montante recebido pelos direitos de TV despencar já no primeiro ano de Série B, cenário inédito para o clube - em 2021 não deve receber mais do que R$ 10 milhões.

Cenário catastrófico construído por várias gestões incompetentes e irresponsáveis. Que ainda assim, por conflitos políticos internos, a atual não consegue atrair figuras como os irmãos Moreira Salles e Felipe Neto para um grande projeto de reconstrução.

Em 2020, a única bola dentro foi não contribuir para a volta açodada do futebol na pandemia. De resto, abusou do direito de errar. Os já habituais atrasos no pagamento de salários e contratações fora da realidade financeira e com pouco retorno técnico, como Honda e Kalou.

Aposta sem convicção no treinador interino Bruno Lazaroni depois da saída de Paulo Autuori e o amadorismo absoluto no "Caso Ramón Díaz", com o treinador argentino sendo dispensado antes mesmo de estrear pelo desencontro de datas por questões médicas que deixou o time sendo comandado pelo filho, Emiliano, em três derrotas que afundaram o Bota no Z-4.

Eduardo Barroca voltou ao clube no final de novembro como uma última esperança de salvação. A campanha, porém, foi pífia: nove derrotas, um empate com os reservas do Palmeiras e a vitória por 3 a 1 sobre o Coritiba. Quatro pontos em 33 possíveis, aproveitamento de 12%. No início do ano o pensamento já estava voltado para a Série B.

Ao contrário do Cruzeiro, é difícil vislumbrar uma recuperação. O time mineiro conta com torcida mais numerosa e renovada por conquistas recentes, mesmo através de gestões temerárias. Agora, ainda que viva o contexto caótico de permanecer na segunda divisão, o horizonte consegue ser um pouco menos sombrio. Não dá para descartar uma redenção, ainda que a médio/longo prazo.

O Botafogo desaba e tem que pensar primeiro na sobrevivência como instituição que, se fosse empresa, já poderia ser considerada insolvente. Nilton Santos, Garrincha, Didi, Gérson, Jairzinho e Zagallo são lembranças de meio século. Daqui a quatro anos, o feito de Túlio e seus companheiros no Brasileiro de 1995 completará três décadas. O presente é vergonhoso. O futuro, mais que duvidoso.

Lá no início dos anos 1980, este que escreve perguntou ao seu avô:

- Quais são os times grandes daqui do Rio de Janeiro?

- Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, América e Bangu.

Dois já deixaram o grupo, na prática, há pelo menos duas décadas. Agora, se fosse vivo, é bem provável que o Seu Agripino citasse apenas os três primeiros. E com algumas ressalvas...

O carisma da Estrela Solitária e de um dos mais belos hinos de clubes do Brasil não merecia esse calvário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL