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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Nem sempre é preciso repor hormônios: saiba aliviar sintomas pós-menopausa

Irritabilidade e alteração do sono são alguns dos sintomas observados após o climatério - Istock
Irritabilidade e alteração do sono são alguns dos sintomas observados após o climatério Imagem: Istock

Cristina Almeida

Colaboração para o VivaBem

29/10/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Menopausa não é doença. É a data em que ocorre a última menstruação
  • Entre os sintomas, as ondas de calor (fogachos) são os mais incômodos e decorrem da natural redução de produção de estrógeno
  • Para boa parte das mulheres, a melhor forma de reduzir os sintomas relacionados é a terapia hormonal
  • Antidepressivos, terapias alternativas e mudança de estilo de vida são opções para quem não pode ou não quer submeter-se à terapia hormonal

A menopausa não é uma doença. Contudo, para algumas mulheres, é como se fosse. Isso porque os efeitos da natural redução de produção de estrógeno, hormônio produzido pelo ovário, são sentidos com grande intensidade. Entre elas, as queixas são tantas que voltar a ter qualidade de vida parece ser um sonho impossível.

Ondas de calor, acompanhadas de disfunções sexuais estão entre os sintomas mais comuns nesse grupo em toda a América Latina. A depressão também se destaca, especialmente entre as mulheres que vivem em áreas urbanas e têm baixos níveis de salário e educação. Os dados são de uma pesquisa publicada no periódico médico Menopause Review Przeglad Menopauzalny.

Com o aumento da expectativa de vida, estima-se que as mulheres terão de conviver com alguns desses sintomas por cerca de 1/3 de suas vidas, independentemente de suas origens étnicas, cor de pele, fatores sociais e demográficos. A boa notícia é que, quanto maior for o acesso às informações sobre prevenção em saúde feminina, maiores são as chances de enfrentar esse período da vida de uma forma mais serena.

Entenda o termo menopausa

A partir dos 40 anos e até os 65 anos as mulheres terão uma redução fisiológica da produção de hormônios pelos ovários. Esse período é definido como climatério.

A menopausa, ou seja, a data em que ocorre a última menstruação, é um evento que pode acontecer em qualquer momento nessa fase do climatério. Contudo, é mais frequente entre os 48 e os 52 anos.

"Quando a mulher diz que deseja tratar os sintomas da menopausa, na verdade, ela se refere aos sintomas do climatério", explica Maria Célia Mendes, docente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP-USP.

Como reconhecer os sintomas

O sinal mais frequente do climatério é a irregularidade menstrual até que, finalmente, a menopausa acontece. A partir daí, podem ser observados os seguintes grupos de sintomas:

Vasomotores

  • Ondas de calor (fogachos) - que acometem cerca de 75% das mulheres - nos primeiros 3, 5 anos após a menopausa e vai diminuindo com o passar do tempo;
  • Suores intensos (sudorese).
  • Psicológicos
  • Irritabilidade;
  • Alteração de sono (insônia);
  • Alteração de memória.
  • Vaginais
  • Ardência;
  • Prurido (coceira ou comichão);
  • Secura vaginal;
  • Dor na relação sexual (dispaurenia);
  • Sintomas semelhantes ao de uma infecção urinária - como o aumento da frequência ao urinar e dor ao urinar.
  • Com o passar dos anos, esses são os sintomas que mais se agravam.
  • Associados
  • Perda de massa óssea (osteoporose), o que aumenta o risco para fraturas;
  • Desânimo;
  • Cansaço;
  • Palpitação;
  • Tontura;
  • Dor de cabeça (cefaleia);
  • Dores articulares e musculares (menos frequentes).

O antes e o depois da menopausa

O climatério pode ser dividido em duas fases - o antes e o depois da menopausa.

O período anterior a ela é definido como pré-menopausa ou transição menopausal; já a pós-menopausa é o tempo posterior à cessação dos ciclos menstruais.

Quanto à perimenopausa, ela compreende toda a fase de transição e vai até um ano após a data da última menstruação.

Ter menopausa antes dos 40 anos é normal?

Algumas mulheres podem apresentar um quadro denominado menopausa precoce, consequência da prematura insuficiência ovariana (os ovários cessam de produzir hormônios). Nesses casos, a interrupção dos ciclos menstruais acontece antes do período do climatério, o que significa que ela se manifestará em algum momento anterior aos 40 anos.

A origem desse quadro pode relacionar-se a fatores genéticos, doenças prévias que levaram à retirada do ovário, tratamentos como a radioterapia e a quimioterapia, ou mesmo enfermidades autoimunes, como o lúpus e a artrite reumatóide, por exemplo.
"Na maioria das vezes, entretanto, não encontramos uma explicação para a cessação dos ciclos menstruais. É isso o que chamamos de causa idiopática", afirma.

Lucia Helena Simões da Costa Paiva, professora de Ginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.
A menopausa precoce tem alto impacto na qualidade de vida da mulher, uma vez que apresenta sintomas de curto e longo prazo. Para estas, o acompanhamento médico é essencial.

Como é feito o diagnóstico do climatério?

Em geral, o diagnóstico é clínico. Ao ouvir sua história e identificar todas as características da síndrome do climatério, definir a menopausa é simples. Não há necessidade de exame laboratorial.

Caso você tenha menos de 40 anos, testes complementares podem ser solicitados. O objetivo do médico é investigar a atividade de seus ovários e, para esse fim, ele pedirá um teste chamado FSH (Hormônio Folículo Estimulante).

Dá para controlar os sintomas

A Terapia Hormonal é reconhecida como a abordagem mais eficiente para tratar os sintomas da síndrome do climatério, e ainda previne os efeitos da falta do estrógeno - especialmente para a redução das ondas de calor e suores, além de fraturas, câncer colorretal, doença cardíaca coroniana, diabetes, bem como manter equilibrados os níveis de colesterol.

O mais indicado é que se utilize uma terapia combinada, que alia estrogênio e progesterona com o fim de reduzir o mal-estar geral e prevenir o câncer de endométrio. Para mulheres que têm o útero, essa é melhor opção. As formulações disponíveis são várias, com dosagens diferentes e para uso oral ou transdérmico. A depender das suas necessidades e do seu perfil, o médico escolherá a melhor opção.

A testosterona também tem sido usada para compor o tratamento, especialmente para melhorar a resposta sexual, especialmente a libido. Contudo, ainda não existe no Brasil e nem em outros países, formulações indicadas para mulheres.

Importante ressaltar que o médico deve fazer uma análise detalhada das suas condições gerais para decidir se você é uma boa candidata para beneficiar-se desse tipo de terapia.

Quais são os riscos que você corre?

Como todo medicamento, o uso de hormônios também pode ter efeitos colaterais. Apesar de a terapia ser considerada segura, pode ocorrer aumento de risco para o câncer de mama, tromboembolismo e Acidente Vascular Cerebral (AVC), colecistite (infecção na vesícula), cálculo biliar, além de aumento do triglicérides.

A terapia hormonal é para todas?

Não. As contraindicações são precisas. Mulheres que tiveram ou têm pelo menos uma das condições abaixo não podem se submeter à terapia hormonal. Confira:

  • Câncer de mama;
  • Câncer de endométrio;
  • Sangramento vaginal de causa desconhecida;
  • Doença cardíaca coronariana e infarto agudo do miocárdio;
  • Acidente Vascular Cerebral (AVC);
  • Histórico de tromboembolismo;
  • Histórico de doença hepática grave.

Caso haja histórico de câncer de mama na sua família, seu médico deve avaliá-la de forma individualizada, para acessar os riscos e benefícios da terapia, inclusive com a eventual ajuda de um oncologista.

Quanto tempo dura a terapia hormonal?

O momento ideal para iniciar a terapia é antes dos 60 anos de idade e nos primeiros 10 anos após a data da última menstruação.
Contudo, o tempo de uso da terapia hormonal ainda é controverso e, por isso, essa avaliação deve ser personalizada e ter como base a meta de prevenir problemas e garantir a qualidade de vida.

"Em geral, o tratamento deve ser mantido pelo menor tempo possível, e enquanto houver benefícios para a mulher, sempre comparados aos eventuais riscos", adverte Luiz Felipe Dziedricki, ginecologista, obstetra e professor da Faculdade de Medicina da PUC-PR.

Soluções para quem não pode (ou não quer) fazer reposição hormonal

A depender da gravidade dos sintomas, o médico pode valer-se do uso de antidepressivos específicos, que reduzem as ondas de calor, e até alguns tipos de anticonvulsionantes.

Já para os sintomas vaginais, que por vezes, são as únicas queixas da mulher, sugerem-se cremes vaginais contendo hormônios, hidratantes e lubrificantes, todos eles eficazes.

Vale a pena investir em terapias alternativas?

Fitoestrogênios são produtos à base de plantas que são capazes de produzir efeitos semelhantes aos estrógenos. Um exemplo desses vegetais é a soja. Contudo, de acordo com a orientação do ACOG (Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia), até agora, poucos desses produtos têm estudos que confirmem sua segurança e efetividade.

Vanderli Marchiori, nutricionista e fundadora da APFit (Associação Paulista de Fitoterapia), observa que, no Brasil, já existem pesquisas que indicam que os fitoestrógenos da soja, ou seja a genisteína e dadzeína são úteis para amenizar os sintomas do climatério, desde que usados na forma de isoflavona bioativa.

"Outra opção que tem sido muito utilizada é a Cimicifuga racemosa, que hoje é de prescrição médica exclusiva. Para a secura vaginal, a tintura de sálvia pode ser uma opção", informa. Quanto à Morus nigra (amora negra) e a linhaça, de fato, para elas, ainda há poucas evidências de eficácia, confirma a especialista.

Por outro lado, um estudo que analisou estratégias para a melhora da qualidade de vida de mulheres menopausadas concluiu que esses fitoterápicos podem ajudar no manejo dos sintomas, desde que a prática de exercício físico seja concomitante e bem orientada pelo médico. A pesquisa foi publicada no Journal of Education and Health Promotion.

O que você pode fazer para driblar os sintomas

Cada mulher viverá essa fase da vida a seu modo, mas os especialistas são unânimes: mudar hábitos de vida é o primeiro passo, o que sempre é um desafio.

O conselho médico é que você adote algumas práticas que comprovadamente aliviam os sintomas desagradáveis, ou mesmo potencializam os efeitos da terapia hormonal. Considere incorporar à sua rotina as seguintes providências, e observe o que funciona para você:

  • Agende uma visita ao ginecologista pelo menos 1 vez por ano;
  • Dê preferência a uma alimentação saudável, rica em cálcio (leite e seus derivados);
  • Aumente a ingestão de líquidos - frescos ou gelados;
  • Evite a ingestão de condimentos e alimentos picantes;
  • Reduza o consumo de café e álcool;
  • Invista em exercícios físicos aeróbicos. Dê preferência àqueles que propiciam impacto no osso (coluna, fêmur, quadril) como caminhar;
  • Reduza o estresse por meio de práticas como meditação ou ioga;
  • Mantenha a temperatura corporal baixa, usando roupas leves ou em camadas
  • Adote o hábito de tomar banhos mornos;
  • Prefira ambientes com temperaturas mais baixas. Use um ventilador ou ar-condicionado, se for possível;
  • Exponha-se ao sol ao menos 3 vezes a cada semana, por 10 a 15 minutos, e no horário das 10h às 16h. Caso isso não seja possível, converse com seu médico sobre a necessidade da suplementação da vitamina D;
  • Aposte em técnicas como a Hipnose clínica e a Terapia Cognitivo Comportamental;
  • Evite o isolamento social, que colabora para manter o equilíbrio psícológico.

Fontes: Lucia Helena Simões da Costa Paiva, professora titular de Ginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas); Maria Célia Mendes, mestre e doutora em Ginecologia e Obstetrícia, docente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo) e coordenadora do Ambulatório de Climatério do Hospital das Clínicas da mesma instituição; Luiz Felipe Dziedricki, ginecologista e obstetra, professor da Faculdade de Medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); Vanderli Marchiori, nutricionista com especialização em Nutrição Clínica, Funcional e Fitoterapia Integrativa, e fundadora da APFit (Associação Paulista de Fitoterapia). Revisão técnica: Maria Célia Mendes.

Referências: Ministério da Saúde. Acog (American College of Obstetricians and Gynecologists); Kimberly Peacock; Kari M. Ketvertis. Menopause. Stat Pearls NCBI, 2019; Makara-Studzi??ka MT, Kry?-Noszczyk KM, Jakiel G. Epidemiology of the symptoms of menopause - an intercontinental review. Prz Menopauzalny. 2014; Mahboubeh Taebi, Somayeh Abdolahian, Gity Ozgoli, Abas Ebadi, and Nourossadat Kariman. Strategies to improve menopausal quality of life: A systematic review. J Educ Health Promot. 2018; Tomas Fait, Menopause hormone therapy: latest developments and clinical practice. Drugs Context. 2019; Sonia Maria Rolim Rosa Lima. Fitomedicamentos na prática ginecológica e Obstétrica. 2ª Ed., Atheneu, São Paulo.

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