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Vacina russa contra covid-19 é novo orgulho de Putin

Juri Rescheto

14/08/2020 16h01

Primeiro imunizante para o coronavírus aprovado por um governo nacional, Sputnik V é tido como produto prematuro por cientistas ocidentais. Mas dá ao Kremlin o sabor momentâneo de vitória na corrida pelo antídoto.

O dia 11 de agosto de 2020 ficará na história como a data em que o presidente russo, Vladimir Putin, proporcionou uma visão incomum de sua vida privada. Uma de suas filhas foi vacinada contra o coronavírus com a nova droga russa, disse o líder do Kremlin, afirmando que ela quase não teve efeitos colaterais, exceto por uma temperatura ligeiramente elevada. A vacina é boa, garantiu o chefe de Estado.

Tal abertura, incomum para o presidente russo, visava convencer seus compatriotas do sucesso da nova vacina. Vacina que nem passou por todas as etapas de teste. O nome da promessa russa é Sputnik V. Assim foi batizado o satélite soviético cujo lançamento bem-sucedido, em 1957, deu início a uma corrida pela superioridade técnica no espaço.

Isso é chamado de jogada de marketing. Ainda não se sabe qual é a eficácia dessa jogada para a Rússia do ponto de vista financeiro. Segundo Kirill Dmitriev, chefe do fundo financiador da vacina Russian Direct Investiment Fund (RDIF), mais de 20 países já manifestaram interesse pela Sputnik V. Há negociações com clientes potenciais na América Latina, Oriente Médio e Ásia, disse ele ao jornal russo Kommersant.

O governo do estado do Paraná também mostrou interesse em testar e produzir o medicamento e assinou na quarta-feira (12) um memorando com Moscou para este fim.

Em entrevista à DW, o presidente da Associação Russa de Assessores Políticos (RAPK), Alexey Kurtov, comparou a aprovação da vacina russa ao avanço dos russos no espaço. "Quem desenvolve a vacina primeiro é, logicamente, considerado vencedor aos olhos do establishment e do cidadão comum", afirma. "Para Putin, este é um sucesso pessoal."

Para Kurtow, o fato de o presidente citar sua filha é a melhor estratégia para parecer convincente. "Quem coloca o próprio filho em risco garante credibilidade absoluta", opina.

"Este é um dos truques favoritos do Kremlin. Ele tenta dar ao Estado autoritário um rosto humano", analisa o cientista político independente Abbas Galjamov.

Já a cientista política russa Aljona Awgust acredita que a Rússia se tornou, sob certo aspecto, refém de seu próprio orgulho.

"Estamos acostumados a ser sempre os primeiros. No espaço, no esporte e na ciência", frisa.

Ela afirma que a aprovação da vacina, tão criticada como prematura por pesquisadores de outros países, beneficia a imagem da ciência da Rússia. "Ela vai chamar a atenção de pesquisadores internacionais e atraí-los para a Rússia."

Os próprios russos, aliás, não escondem o fato de que se trata de uma competição com o resto do mundo. Cientistas ocidentais criticaram que importantes avaliações de segurança foram deixadas de lado durante o desenvolvimento e a aprovação da vacina.

O ministro da Saúde russo, Michail Muraschko, reagiu com irritação às críticas.

"Os colegas estrangeiros estão obviamente preocupados com a concorrência do medicamento russo e expressam dúvidas que consideramos infundadas."

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