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Empreendedor capixaba cria aguardente com sobras de cacau no Espírito Santo

André Scampini é o criador de aguardente à base de sobras de cacau - Divulgação
André Scampini é o criador de aguardente à base de sobras de cacau Imagem: Divulgação

Vanessa Fajardo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

18/03/2021 04h00

Apaixonado pela fabricação de destilados e interessado em agregar mais valor à produção da família, o capixaba André Scampini, 51, desenvolveu uma aguardente à base de sobras de cacau.

Sua família trabalha com cacau há 40 anos, na cidade de Linhares, no Espírito Santo, que concentra 85% da produção do fruto no estado. Tradicionalmente, a produção é dedicada à obtenção da amêndoa, a semente do cacau, e o restante do fruto não é aproveitado.

Com a bebida batizada de CACAHUATL (significa suco amargo em asteca), Scampini conseguiu, ao mesmo tempo, criar um produto sustentável e outra fonte de renda aos trabalhadores rurais que cultivam o fruto, já que eles passaram a vender também partes que eram descartadas. Para isso, exigiu, entretanto, muita pesquisa e criatividade, já que o empreendedor teve de criar a receita sem nenhuma referência.

"Nem mesmo estudiosos do cacau sabiam dizer nada a respeito da produção de bebidas alcoólicas com esse fruto. Todo o conhecimento é voltado para fermentação da amêndoa, o que resulta no chocolate. Depois de vários estudos e testes, consegui chegar à receita ideal, a fim de deixar a bebida mais aromática, saborosa e marcante", conta o empreendedor, que também atua como profissional na área de tecnologia da informação.

Com a receita em mãos, Scampini fechou uma parceria com uma destilaria do Espírito Santo que deu vida à aguardente. Já são 2 mil litros produzidos, e cada garrafa é vendida a R$ 190. Embora o preço final seja alto, Scampini diz que sua margem de lucro ainda é pequena, até para que haja um retorno financeiro aos revendedores.

A bebida está disponível em lojas e supermercados do Espírito Santo, e também pode ser adquirida pelo site. A pandemia afetou a produção da CACAHUATL, que precisou diminuir o ritmo da produção. Quando o cenário epidemiológico melhorar, o empreendedor quer chegar aos 10 mil litros de aguardente e mirar o mercado internacional.

Processo de produção

A produção da aguardente depende de um processo cuidadoso. O primeiro passo após o cultivo, é a quebra do cacau, feita manualmente com ajuda de facões, separando as amêndoas. Em seguida há a fermentação de uma mistura chamada mosto, que é a matéria-prima do cacau com açúcar. Na sequência, ocorre a destilação e, por fim, a armazenagem para que a bebida "descanse" por meses em dornas de inox ou barris de madeira.

"Desde o momento em que é feita a colheita e quebra do cacau até que o mosto termine de fermentar se passam três a cinco dias. Depois de destilado ele deve permanecer armazenado em dornas por pelo menos 6 meses, a fim de "amaciar" a bebida. A equipe da quebra do cacau pode chegar a ter até 30 pessoas. A fermentação, destilação e armazenagem envolve, pelo menos, mais 3 ou 4 pessoas", explica.

Mais lucro aos produtores

Quem vive do cultivo do Cacau em Linhares aprovou a chegada da aguardente. A produtora Kellen Kiepper de Jesus Scampini, 49, diz que a comercialização do néctar passou a cobrir o gasto com a quebra do cacau. "O que era jogado fora agora paga as contas e, portanto, dá lucro. Não era tradição o aproveitamento das sobras, elas nunca foram utilizadas e não tinham finalidade comercial."

O engenheiro agrônomo e produtor de cacau Mauro Rossoni acredita que os avanços da bebida são promissores e trarão uma excelente renda ou lucratividade para os produtores. "O que vem mais sendo explorado é o mel do cacau para produção dessa aguardente, e da casca do fruto para produção de composto que será utilizado na própria lavoura para adubação. Temos que explorar mais essas matérias-primas."

Rossoni diz que, apesar do alto preço de produção e consequentemente de venda da aguardente, há um mercado que vai fazer muitos produtores aderirem à venda das sobras, gerando mais renda e diversificando os produtos.

Gim de chocolate

Depois da CACAHUATL, Scampini já criou uma segunda receita de aguardente de cacau e até um gin à base do fruto, com especiarias e botânicos que dão um "discreto sabor, sutilmente adocicado e ligeiramente cítrico."

"Ainda estou planejando as versões envelhecidas do CACAHUATL, resultantes de blends exclusivos, do armazenamento em barris de madeira. Ao mesmo tempo, já estou elaborando uma receita nova, única no mundo, para um novo destilado. Os testes iniciais já estão sendo feitos. Mas isso, claro, ainda é segredo."

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