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Tia e sobrinha veem empresa de calcinhas absorventes crescer 350% em 2 anos

Emily Ewell (esq.) e Maria Eduarda Camargo, donas da empresa de calcinhas absorventes Pantys - Arquivo pessoal
Emily Ewell (esq.) e Maria Eduarda Camargo, donas da empresa de calcinhas absorventes Pantys Imagem: Arquivo pessoal

Antoniele Luciano

de Ecoa

23/10/2019 04h00

Vantagens do modelo O negócio se mostra promissor e lucrativo ao oferecer uma opção sustentável para o ciclo menstrual. As clientes encontram uma alternativa segura aos absorventes descartáveis e conhecem melhor o próprio fluxo.

O mundo também ganha A dispensa do absorvente plástico, que leva 500 anos para se decompor, evita 180 quilos de lixo por mulher. Além disso, a tecnologia usada pela Pantys permite a decomposição da calcinha em três anos após o descarte, enquanto o algodão leva 60 anos.

Quando conheceu o Brasil, em 2008, a engenheira química norte-americana Emily Ewell, de 34 anos, nem imaginava que seria em terras brasileiras que iria desenvolver o trabalho mais impactante de sua carreira. Há dois anos, ela e a administradora Maria Eduarda Camargo, 23, criaram a primeira marca brasileira de calcinhas absorventes. A Pantys, empresa da dupla, busca oferecer às mulheres um produto confortável e de menor impacto no meio ambiente.

A parceria nasceu de uma união familiar: Emily é casada com o tio de Maria Eduarda. De olho em tendências de comportamento e sustentabilidade mundo afora, juntas, tia e sobrinha viram uma oportunidade de colocar no mercado um produto capaz de substituir absorventes comuns e ampliar a disponibilidade de itens voltados ao período menstrual. "Vimos esse movimento de deixar o descartável e apelar para o reutilizável, como o absorvente de pano, o copinho. Acreditamos que as calcinhas absorventes podem conquistar mais espaço ainda", comenta a empresária norte-americana.

Cada uma entrou no negócio com um conhecimento diferente. Emily colocou na mesa a experiência em multinacionais de produtos farmacêuticos e de higiene pessoal. Maria Eduarda somou com a vivência em consultoria financeira, pesquisas sobre o mercado feminino e a experiência em um outro negócio. "A família da minha mãe, por muitos anos, teve uma confecção de lingeries, o que contou para a parte da modelagem do produto", observa Maria Eduarda.

A aposta da dupla nas calcinhas absorventes tem dado certo. Apesar de não abrirem dados sobre o faturamento e unidades vendidas, as sócias calculam que a Pantys já cresceu 350% desde que foi criada, em 2017.

Emily recorda que foi um desafio introduzir uma nova categoria no mercado. "Havia o preconceito de 'será que funciona mesmo?' Nosso maior marketing foi o boca a boca. Depois que as consumidoras usam a primeira vez, é como se a relação delas com seu ciclo menstrual fosse transformada. Isso é um jeito de empoderar também", define.

Maria Clara Correia Sousa diz que conheceu melhor seu fluxo menstrual com o uso das calcinhas absorventes - Arquivo pessoal
Maria Clara Correia Sousa diz que conheceu melhor seu fluxo menstrual com o uso das calcinhas absorventes
Imagem: Arquivo pessoal
Foi o caso da estudante de publicidade Maria Clara Correia Sousa, de 21 anos. Ela conta que entendeu melhor seu fluxo menstrual depois que passou a usar as calcinhas absorventes. "Ficava insegura quanto ao fluxo, principalmente depois que coloquei DIU, mas me adaptei bem ao produto. Hoje consigo completar todo o meu ciclo com as Pantys", comenta, destacando que, com os absorventes descartáveis, tinha a impressão de que seu fluxo era mais intenso do que é de fato. Já com a calcinha, como ela é lavada após o uso, é possível ter uma dimensão melhor.

Tecnologia nos tecidos

De acordo com as sócias, até chegar à forma atual, as calcinhas da Pantys passaram por uma série de testes ao longo de 2016. As mudanças continuaram mesmo depois da entrada do produto no mercado: após alguns meses do lançamento, a marca incorporou uma tecnologia com fio de poliamida biodegradável desenvolvida pela empresa brasileira Rhodia. A matéria-prima, chamada de Amni Soul Eco®, permite que a decomposição do tecido ocorra de maneira mais rápida na natureza. Toda a linha disponível foi trocada.

"Hoje, um absorvente comum leva em torno de 500 anos para se decompor, enquanto uma calcinha convencional de algodão, até 60 anos. Com a Pantys, isso leva no máximo três anos", assinala Maria Eduarda.

O forro das calcinhas absorventes é composto por três camadas de tecido. A primeira visa a garantir que a usuária se sinta mais seca. A segunda é superabsorvente, e a terceira, impermeável. Todas contam com uma tecnologia patenteada desenvolvida para evitar bactérias, fungos e odores. "É uma funcionalidade que está em todas as camadas pelo fato de a primeira ser a que está em contato com a pele e as outras serem para onde o sangue vai", explica Emily. O conforto também é apontado pelas empreendedoras como atrativo para mulheres que sofrem com irritações na pele durante o período menstrual.

As calcinhas contam com uma tecnologia patenteada desenvolvida para evitar bactérias, fungos e odores - Divulgação
As calcinhas contam com uma tecnologia patenteada desenvolvida para evitar bactérias, fungos e odores
Imagem: Divulgação
O ciclo de duração das calcinhas absorventes é de 50 lavagens - aproximadamente 2 anos. A recomendação é lavar em água corrente com sabão neutro ou primeiramente deixar de molho em balde com água. Também é possível lavar na máquina, mas usando um saquinho apropriado. A secagem deve ser à sombra.

No dia a dia, a necessidade de troca da calcinha depende da intensidade do fluxo, podendo variar de 7 a 10 horas de uso contínuo.

Impacto ambiental

A marca de Emily e Maria Eduarda é certificada pelo Sistema B, um movimento global que identifica empresas que usam seu poder de mercado para apresentar soluções para temas sociais e ambientais. O selo vem justamente por conta da proposta de oferecer uma alternativa sustentável de consumo.

Calcula-se que, no Brasil, 90% das mulheres que menstruam usam absorventes descartáveis - uma média de 500 unidades por mulher a cada ano. Esse montante gera em torno de 4 quilos de lixo e um gasto anual de R$ 400. Ao longo da vida, uma mulher tem aproximadamente 450 ciclos menstruais, o que pode demandar 12 mil absorventes — 180 quilos de lixo.

A sustentabilidade foi uma das razões que levaram Raíssa de Paula a testar os modelos - Arquivo pessoal
A sustentabilidade foi uma das razões que levaram Raíssa de Paula a testar os modelos
Imagem: Arquivo pessoal
Essa preocupação com a sustentabilidade foi um dos fatores que levaram a fotógrafa Raíssa de Paula, de 25 anos, a decidir testar a calcinha absorvente, há sete meses. Ela já tentava reduzir o consumo de plástico quando viu no produto da Pantys uma forma de ter mais conforto durante a menstruação. "Desde que comecei a menstruar, pensava 'por que não existe logo uma calcinha que eu visto ao invés desses absorventes que saem do lugar?'", brinca.

Hoje, ela alterna o uso das calcinhas com absorventes de pano. "Eu faço pole dance e, principalmente para isso, a calcinha ajudou muito. Absorvente que sai do lugar dançando não dá."

A estudante Maria Clara Correia Sousa diz que também passou a ficar mais atenta sobre o descarte de lixo envolvendo produtos menstruais depois que conheceu a Pantys. "Entendo que muitas mulheres primeiro usam esse tipo de absorvente para evitar impacto ambiental, para, depois, entenderem o próprio ciclo. Mas comigo, devido a meu estilo de vida, à correria que é, aconteceu o contrário. Eu entendi meu ciclo e só depois me dei conta do impacto dessa mudança", conta Maria Clara.

Produção descentralizada

O processo de fabricação da Pantys envolve funcionários da marca — atualmente, 17 — e terceirizados. Todo o material para a confecção das peças, como tecidos, fitas, elásticos e etiquetas, é adquirido pelo Centro de Operações da Pantys, que fica em Sorocaba, interior de São Paulo, e enviado para a costura em diferentes lugares do país.

Segundo Emily, essas fábricas trabalham exclusivamente para a Pantys e, depois que concluem a confecção, enviam as peças de volta para Sorocaba. Os produtos passam então pela etapa de controle de qualidade no Centro de Operações da marca, onde também são embalados.

As calcinhas da linha são disponibilizadas de acordo com a intensidade do fluxo menstrual e custam de R$ 55 a R$ 105. O modelo mais caro é o dreamer, um short feito para dormir que se tornou uma das peças mais vendidas da marca. Há ainda roupas de banho e sutiãs para amamentação.

Os produtos podem ser encontrados pela internet, na loja física da Pantys, na rua Oscar Freire, em São Paulo, e em farmácias, onde está à venda somente o modelo lançado em parceria com a Sempre Livre, marca de absorventes descartáveis.

Para os próximos meses, as sócias também planejam expandir o portfólio disponível, além de crescer fora do Brasil. O objetivo é tornar a Pantys uma marca global.

Bom pra todo mundo