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Como peças de brechó, garrafas PET e resíduos viram sapatos de R$ 300

Barbara Mativvy é dona da Insecta Shoes - Divulgação/Insecta Shoes
Barbara Mativvy é dona da Insecta Shoes Imagem: Divulgação/Insecta Shoes

Claudia Varella

Colaboração para Ecoa

12/01/2020 04h00

Quando esteve à frente do brechó Urban Vintagers, em Porto Alegre (RS), a paulistana Barbara Mativvy, 34, separava peças de roupas que precisavam de pequenos reparos, antes de serem colocadas à venda. Mas o que poderia ser feito com essas peças em vez de vendê-las?

Veio a ideia: ressignificar essas roupas para transformá-las em outros produtos. Barbara fez parceria com a empresa MAG-P Shoes, que produzia calçados com excessos de couro da indústria, e criou 20 pares de sapatos veganos (livres de ingrediente de origem animal) e ecológicos exclusivos, aproveitando os tecidos dessas roupas. Vendeu tudo no brechó.

"O brechó tinha peças separadas para conserto, mas quando surgiu a ideia de transformar esses vestidos, saias e camisas em sapatos, fez muito mais sentido. Afinal, uma peça de roupa se transformaria em cinco sapatos, ou seja, aumentaríamos a vida útil de uma peça em cinco. Fez muito mais sentido transformar isso em um negócio, pois havia uma solução muito mais ecológica", declarou.

Para ela, não fazia sentido apenas ter mais uma marca de calçados, sem um grande propósito. "Com o produto em mãos, vimos um grande potencial, um produto inovador que causaria um impacto positivo", disse Barbara, formada em administração com ênfase em marketing na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pós-graduada em comunicação de moda no IED (Instituto Europeo di Design), em Milão, na Itália. A Insecta Shoes foi criada em 2014, em Porto Alegre.

Os sapatos e acessórios da marca são feitos a partir de materiais como garrafas PET recicladas, algodão reciclado, borracha reaproveitada, peças de roupas usadas, tecidos de reúso e resíduos de produção que seriam jogados fora.

Para ela, a vontade de ser sustentável "vai muito além da criação dos sapatos, mas também por meio de atitudes". Um exemplo disso é o serviço de entrega da Insecta em São Paulo: feito em bicicletas.

Os sapatos são feitos a partir de garrafas PET recicladas e peças de roupas usadas - Divulgação - Divulgação
Os sapatos são feitos a partir de garrafas PET recicladas e peças de roupas usadas
Imagem: Divulgação
A empresa também aceita o sapato da Insecta Shoes de volta quando o cliente não quer mais usá-lo; e ele ganha R$ 50 de desconto para comprar um novo produto da marca. Segundo Barbara, o sapato "velho" é reinserido na cadeia produtiva: a sola se transforma em novas placas de solado reciclado, e o restante se transforma em novas palmilhas. O preço dos sapatos da marca varia de R$ 199 a R$ 329.

"É responsabilidade das marcas e dos seus designers se preocuparem com o ciclo inteiro de vida de um produto, desde seu nascimento até com o que será feito dele depois que não está mais em uso, para que não fique empilhado em aterros, por exemplo, acumulando lixo e emitindo gases poluentes", declarou.

No início, eram usadas apenas peças de roupas de brechó. "Depois fomos pesquisando novos materiais para o sapato ficar mais ecológico e começamos a utilizar garrafas PET recicladas, algodão reciclado e borracha reaproveitada. A sustentabilidade é um assunto que nunca termina, sempre há coisas novas para pesquisar e aprender."

Em 5 anos, empresa utilizou 21 mil garrafas PET

Os modelos são feitos com a reutilização de roupas vintages garimpadas em diversos locais e tecido ecológico feito com a reciclagem de garrafas PET compradas de cooperativas de reciclagem. O solado também é de borracha reaproveitada, e o restante dos materiais usados é excedente do mercado, coisas que seriam descartadas pela indústria.

São quase mil pares de sapatos produzidos por mês - Divulgação - Divulgação
São quase mil pares de sapatos produzidos por mês
Imagem: Divulgação
A produção dos sapatos é feita numa fábrica terceirizada em Sapiranga (RS). São quase mil pares de sapatos por mês. Os produtos são livres de crueldade animal.

"A marca segue em busca constante para eliminar resíduos e substituir materiais por alternativas 100% sustentáveis", declarou Barbara, que tem mais dois sócios na empresa: Fernando Bucheroni e Vinicius Garcia.

Ela disse que, além da preocupação ambiental, a empresa também leva em consideração o bem-estar do público-alvo da marca. "Os produtos têm palmilha feita em formato de colmeia, que garante conforto extra, revestida em tecido sintético. O calcanhar também recebe mais espuma, e a sola é de borracha reciclada, supermaleável e molinha, o que dá até para dobrar o sapato ao meio", afirmou.

Desde 2014, já foram utilizadas para a produção dos itens mais de 21 mil garrafas PET, 2.000 metros de tecido reaproveitado, uma tonelada de algodão reciclado e mais de sete toneladas de borracha reciclada.

Fornecimento

Fornecedora diz aproveitar sobras e aparas têxteis - Divulgação - Divulgação
Fornecedora diz aproveitar sobras e aparas têxteis
Imagem: Divulgação
Uma das empresas que fornece matéria-prima para os calçados e bolsas da Insecta Shoes é a EcoSimple, que fabrica tecidos reciclado usando sobras e aparas têxteis e que dispensa processos químicos e água. Os tecidos são compostos por 70% de algodão e 30% de PET.

"Todos esses fatores garantem o ciclo de renovação dos produtos, respeito à natureza", afirmou Marisa Ferragutt, uma das sócias. Com sede em São Paulo, a EcoSimple tem fábrica em Americana (SP).

Loja dentro da Livraria Cultura

Além de sapatos, a Insecta Shoes produz bolsas, mochilas, planners (uma espécie de agenda), copos, cheirinho, ecobags e cadarços. A empresa não divulga o faturamento exato do ano passado, mas diz que ficou entre R$ 3 milhões e R$ 5 milhões. O lucro não é revelado.

Há lojas físicas em São Paulo, Porto Alegre (RS), Brumadinho (MG), Nova York e Los Angeles (EUA), Toronto (Canadá), Berlim (Alemanha), Paris (França), Barcelona (Espanha) e Tel Aviv (Israel). Os produtos são vendidos também no e-commerce (www.insectashoes.com). Em setembro, a marca inaugurou um espaço dentro da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, em São Paulo.

Bom pra todo mundo