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Bom pra todo mundo

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Elas faturam R$ 1 milhão ao ano com jaquetas feitas de nylon de sombrinhas

A publicitária Adriana Tubino, 41, e a designer e estilista Itiana Pasetti, 33, criaram a Renovada em 2013 - Divulgação
A publicitária Adriana Tubino, 41, e a designer e estilista Itiana Pasetti, 33, criaram a Renovada em 2013 Imagem: Divulgação

Cláudia Varella

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

22/01/2020 04h00

Das câmaras de pneus descartados em borracharias e do nylon de guarda-chuvas e sombrinhas coletados em centros de triagem, a Revoada produz roupas e acessórios de moda sustentáveis, como mochilas, pochetes, carteiras, bolsas de viagem, sacolas e jaquetas, entre outros.

A empresa surgiu do sonho de duas amigas de criar produtos sustentáveis, com impacto positivo em toda a cadeia produtiva, e do inconformismo pela geração excessiva de lixo. A publicitária Adriana Tubino, 41, e a designer e estilista Itiana Pasetti, 33, criaram a Renovada em 2013, em Porto Alegre (RS).

"Nós duas já tínhamos um estilo de vida muito conectado com a sustentabilidade, desde ir trabalhar de bicicleta até consumir produtos orgânicos. E nos incomodava muito o excesso de lixo gerado e o desconhecimento dos consumidores sobre os impactos sociais e ambientais que existem por trás do consumo, principalmente do consumo na moda", afirmou Adriana.

O primeiro passo foi buscar a matéria-prima ideal para os princípios de sustentabilidade e de economia circular da empresa. "A gente queria trilhar caminhos novos que pudessem trazer soluções diferentes. Então, fomos buscar no lixo a nossa matéria-prima."

Sócias buscam câmaras de pneus descartados em borracharias  - Divulgação  - Divulgação
Sócias buscam câmaras de pneus descartados em borracharias
Imagem: Divulgação
As câmaras de pneu de caminhão ("Que se assemelham bastante ao couro no aspecto dos produtos", diz ela) são compradas de borracheiras, e o nylon ("São tecidos impermeáveis e de reuso, além de coloridos e estampados"), das unidades de triagem de lixo seco de Porto Alegre e região.

"Nós praticamos o fair trade [comércio justo]. Nós e os fornecedores sempre definimos qual o melhor preço para ambos os lados", explica Adriana. Em média, a unidade do nylon do guarda-chuva sai a R$ 0,50 cada (os catadores recebiam anteriormente cerca de R$ 0,05 pelo quilo da sucata).

Segundo ela, em quase sete anos de atividade, a Revoada já retirou 17 toneladas de câmaras de pneu do meio ambiente, reutilizou 16 mil unidades de guarda-chuvas e gerou trabalho e renda para 300 famílias.

O investimento inicial na empresa foi de R$ 150 mil. Hoje, o faturamento chega a R$ 1 milhão por ano.

Costureira faz peças com restos de nylon de sombrinhas  - Divulgação - Divulgação
Costureira faz peças com restos de nylon de sombrinhas
Imagem: Divulgação
Produção a cargo de cooperativas e ateliês

Antes de irem para a confecção dos produtos, as duas matérias-primas passam por um processo de lavagem numa lavanderia industrial que tem captação de água da chuva e tratamento correto dessa água, segundo Adriana.

Para a confecção dos produtos, a Revoada contrata cooperativas de costura, geralmente formada por mulheres da periferia, e pequenos ateliês da cidade. "É uma forma de gerar trabalho e renda para elas."

Há dois anos costurando para a Revoada, Lisi Robalo, 44, diz ter sentido dificuldades no início para costurar as matérias-primas dos produtos. "Mas as meninas da Revoada me deram todo o apoio de que eu precisava para superar as dificuldades. Hoje, eu prefiro trabalhar com o nylon de guarda-chuva", afirmou.

Lisi chegou a costurar mais de 150 peças em um mês. Além de fazer bolsas e mochilas de nylon de guarda-chuva, ela é responsável por fazer amostras de produtos que são mandadas para a aprovação dos clientes. Segundo ela, o trabalho para a Revoada representa 70% do seu ganho mensal.

Adriana Tubino (esq) e Itiana Pasetti - Eduardo Seidl/Divulgação - Eduardo Seidl/Divulgação
Adriana Tubino (esq) e Itiana Pasetti são sócias na Revoada
Imagem: Eduardo Seidl/Divulgação
Produtos custam de R$ 62 a R$ 420

A Revoada começou produzindo cinco produtos (mochila, case de notebook, caderneta de anotações, bolsa de viagem e case para iPad), e hoje são 12.

"Nosso foco nunca foi trabalhar com muitas coleções e gerar excesso de produtos. Optamos por criar linha de produtos atemporais, que não seguem a tendência de moda", disse Adriana.

Os produtos mais vendidos são a mochila (R$ 398,40) e a jaqueta (R$ 350). O mais barato é a minicarteira (R$ 62), e o mais caro, a bolsa de viagem (R$ 420). Há opções de brindes corporativos customizados.

Todo produto tem uma tag com informações sobre a matéria-prima e o processo produtivo, além de um pedido para que o cliente "faça a sua parte na logística reversa". "Pedimos ao cliente que nos avise caso, no futuro, queria se desfazer do produto, para que possamos recolhê-lo e dar uma destinação correta a ele", afirmou Adriana.

A Revoada trabalha com o conceito de "venda por lote" num e-commerce temporário: a empresa abre a loja online temporária e avisa a clientela, os interessados se candidatam a comprar os produtos e aguardam até que fiquem prontos. Ou seja, é possível comprar na Revoada apenas quando o lote é aberto.

"Esse sistema evita a produção além da demanda, sem gerar sobras, resíduos e despesas com logística. Os clientes têm aprovado esse modelo de venda em lotes e não se incomodam em esperar a produção e entrega", explica Adriana.

A consultora de inovação Carol Bucker, 45, diz que a proposta de sustentabilidade da empresa e o design e a qualidade dos produtos a fizeram ser cliente da Revoada desde o início.

Ela já comprou mochila, jaqueta, pochete e sacola de guarda-chuva. "Uso diariamente e para viajar também", afirmou. Para ela, a venda por lote "faz todo o sentido".

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