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'Viva, Paulo Freire', grita Daniela Mercury no fim do Carnaval de São Paulo

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

01/03/2020 13h50Atualizada em 01/03/2020 20h03

Daniela Mercury encerrou o Carnaval paulistano na noite deste domingo com ironias políticas, gritos pela diversidade e homenagens ao axé durante 6h30 de bloco. É a quinta vez que a Pipoca da Rainha, seu bloco, fecha a festa em São Paulo.

"Quem quer continuar vivendo num país livre? Precisamos muito da democracia! A gente vai resolvendo as coisas aos poucos, mas vamos seguindo lutando pela nossa Constituição cidadã, pela democracia", declarou a cantora.

Este foi o tom no trajeto que seguiu pela Rua da Consolação, região central de São Paulo. A cantora reafirmou a mensagem da diversidade e das lutas contra o racismo, a homofobia e a violência contra a mulher. Sem citar nomes, a cantora fez também sutis referências ao governo.

"Queremos um país próspero, com educação. Estão com medo dos comunistas! Cadê os comunistas?", ironizou. "Viva Paulo Freire! Viva o cinema, a literatura nacional. Viva São Paulo, viva o Brasil!"

A baiana e suas dançarinas subiram no trio de vestido branco. À medida que o trio seguia, um artista os coloria. O de Daniela ganhou um sagrado coração.

De cima do trio, ela elogiou as fantasias do público e pregou a ocupação da rua. "Carnaval é a festa da diversidade. Eu quero tudo colorido, todo mundo colorido. Tem algo proibido aí?", exaltou Daniela. "Isso é um ato político, ocupação do espaço público, é ato de amor ao Brasil. É maior força contra qualquer opressão", protestou, antes de cantar "Tá Proibido o Carnaval" e "Protesto Olodum".

A mistura de axé e política seguiu durante toda a festa, de gritos de "resistência" com a música "Rainha da Balbúrdia" à defesa da cultura brasileira.

O público, em resposta, entoava gritos contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A festa teve também participações surpresa da cantora Mariana Aydar, em "Frevo Mulher", e da ativista Preta Ferreira, em "Avisa Lá".
"Neste país somos privados da liberdade. Nossos direitos constitucionais estão sendo privados, a gente vai ter que ir para a rua", declarou a ativista, presa por 109 dias. "Nossa resistência é de amor", completou Daniela.

A cantora fez ainda uma defesa das reservas indígenas. "Vamos proteger a Amazônia! Nossos povos indígenas conhecem a floresta, protege-los é proteger nossa origem!"

Declarações a São Paulo e homenagem ao axé

Daniela lembrou mais de uma vez de seu show na Avenida Paulista, em 1992, que ajudou a popularizar o axé em São Paulo. "Foi assim que tudo começou", disse. "Te amo, São Paulo, terra de Oswald de Andrade, berço da Semana [de Arte Moderna] de 22." Tocou, mais de uma vez, a música "Triatro", em homenagem à cidade.

A cantora também comemorou os 35 anos do axé baiano e os 70 do trio elétrico com os hits "Prefixo do Verão", "Ilê Pérola Negra" e "O Mais Belo dos Belos". "São Paulo está parecendo a Bahia inteira. Eu sonhei com isso, que a revolução da Bahia chegasse ao Brasil inteiro", declarou Daniela, em meio a gritos de "rainha" e "maravilhosa".

Confusões dispersas ao final

O público de 1,5 milhão de pessoas ocupou quase a metade da Consolação, do cemitério à Praça Roosevelt, em clima animado e predominantemente pacífico. Só nas últimas 2h de bloco, depois das 17h, a reportagem notou diversas tentativas de furto (algumas bem-sucedidas) e confusões dispersas, mas nenhum evento generalizado —só o grito pela liberdade e diversidade.

Blocos de Rua