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Índia chora no Baixo Augusta: "Aquele homem está com o cocar do meu povo"

Evandro Pereira com o cocar pataxó no bloco Acadêmicos do Baixo Augusta - Edson Lopes/UOL
Evandro Pereira com o cocar pataxó no bloco Acadêmicos do Baixo Augusta Imagem: Edson Lopes/UOL

Anahi Martinho

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/02/2020 19h59

Resumo da notícia

  • Índia pataxó se emocionou ao encontrar um homem no bloco usando cocar --peça sagrada-- como acessório de Carnaval
  • "Quando vi o cocar do meu povo sendo usado de forma irresponsável na folia, senti agulhadas no meu espírito"
  • A fantasia da atriz Alessandra Negrini causou polêmica durante o desfile do Baixo Augusta, no último domingo
  • A atriz, no entanto, foi defendida pelos indígenas. O acessório usado por ela na cabeça não era um cocar de fato

No último domingo (15), Alessandra Negrini gerou polêmica ao usar adereços que remetem à cultura indígena no bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, do qual é rainha. Acompanhada da líder índigena Sônia Guajajara e de uma comitiva que reunia índios de várias etnias, a atriz foi defendida e identificada como aliada do movimento.

A índia Yamani Pataxó, 29 anos, que fazia parte da comitiva, também não se ofendeu com a caracterização de Negrini. O problema dela foi com outra pessoa: o porta-estandarte do bloco, Evandro Pereira."Aquele homem está usando o cocar do meu povo", soluçava Yamani, às lágrimas, no meio do Carnaval. Os outros indígenas presentes tentavam acalmá-la.

"Quando vi o cocar do meu povo sendo usado de forma irresponsável na folia, senti agulhadas no meu espírito. Me deu tontura, minha perna ficou mais fraca", desabafou Yamani mais tarde, em entrevista ao UOL.

De fato, o cocar usado por Evandro Pereira foi presente de uma liderança pataxó. Questionado pela reportagem, ele afirmou que acreditava estar homenageando a etnia. "Estou honrando a etnia e honrando quem fez o cocar. Ganhei há oito anos e saio com ele em todos os Carnavais", argumentou.

Após uma conversa entre membros do bloco, no entanto, o porta-estandarte decidiu tirar o cocar e o substituiu por um capuz prateado.

Qual é a diferença?

Benício Pitaguary, que pintou o rosto de Alessandra Negrini, e a índia Yamani Pataxó - Edson Lopes/UOL
Benício Pitaguary, que pintou o rosto de Alessandra Negrini, e a índia Yamani Pataxó
Imagem: Edson Lopes/UOL

Afinal, por que o figurino de Alessandra Negrini não ofendeu os indígenas, enquanto o de Pererira fez Yamani sentir "agulhadas no espírito"?

Ela explica que o problema é "elementos sagrados banalizados como meros adereços". O detalhe crucial é que o acessório usado na cabeça por Negrini não era um cocar de fato. Não foi feito por mãos indígenas nem é característico de nenhuma etnia específica. Tratava-se apenas de um adereço que remete ao cocar.

Fora o grafismo no rosto da atriz, feito pelo artista Benício Pitaguary, nenhum outro elemento da caracterização dela era, de fato, indígena. "Diversos não indígenas são pintados com jenipapo pelos indígenas. Ela hospedou o Benício, aprendeu um pouco sobre a cultura dele e foi pintada por ele. Respeito o trabalho do parente. Não agrediu o espírito de nenhum indígena presente no bloco", defendeu Yamani.

Negrini também foi defendida nas redes sociais por Sônia Guajajara. "Muita gente usa acessórios indígenas como fantasia. Com isso a gente não concorda. Mas, quando a pessoa usa de forma consciente, como um manifesto para amplificar as vozes indígenas, então tudo bem."

Yamani lamenta que o debate da fantasia acabe por criar uma cortina de fumaça sobre a real luta dos povos indígenas, que é a questão de terras. Ela lembra que o motivo da presença da comitiva no desfile do maior bloco carnavalesco de São Paulo foi chamar a atenção para a causa do pico do Jaraguá.

"Queríamos trazer visibilidade para a luta que está acontecendo aqui no Jaraguá. Queremos que o espaço se torne o parque ecológico Yary Ty e um memorial de cultura guarani", completa.

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