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Ativista defende mulheres em área de extrema violência no Pará

Dandara Rudsan é finalista do Prêmio Inspiradoras na categoria Conscientização e Acolhimento  - Júlia Rodrigues
Dandara Rudsan é finalista do Prêmio Inspiradoras na categoria Conscientização e Acolhimento Imagem: Júlia Rodrigues

Simone Costa

colaboração para Universa

14/10/2021 04h00

Às margens do rio Xingu, no Pará, Altamira está entre os municípios com maior número de assassinatos do Brasil, segundo o Atlas da Violência dos Municípios Brasileiros elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em duas décadas (de 2000 para 2019), a taxa de homicídios por 100 mil habitantes saltou de 11,3 para 133,7.

Não é mero acaso. Nesse intervalo de tempo, a cidade de 117 mil habitantes tem sido palco da construção de Belo Monte, a quarta maior usina hidrelétrica do mundo. A obra afetou a vida de milhares de moradores, que tiveram de deixar suas casas e se mudar para novos assentamentos.

As constantes disputas por território, somadas ao vaivém de gente que chega de toda parte do país (e do mundo) para trabalhar ali, causaram uma intensa instabilidade social.

Nesse cenário, Dandara Rudsan, finalista do Prêmio Inspiradoras na categoria Conscientização e Acolhimento, criou, em 2019, o Núcleo Estratégico de Direitos Humanos e Promoção da Paz (Nepaz).

Aqui em Altamira os problemas sociais são vários e as mulheres são as mais afetadas. Tivemos aumento de casos de estupro de vulneráveis, exploração sexual de crianças, prostituição desasistida, além de uma guerra às drogas que mata muitos jovens.
Dandara Rudsan

Idealizada para acolher especialmente mulheres negras vítimas de violência, a iniciativa acabou se tornando útil a mulheres em geral. O objetivo é receber e encaminhar denúncias aos órgãos competentes. E, então, acompanhar o desenrolar dos casos, para garantir que tenham algum desfecho. Até setembro de 2021, o núcleo já havia feito 294 atendimentos.

Dandara atua a partir de um lugar especial, de quem sabe bem o que é viver vulnerável a todo tipo de violência. Ela é, afinal, uma mulher negra e travesti. Nasceu em Santarém (PA), a 400 km de Altamira. Mudou-se para lá ainda era criança, com os pais, que estavam em busca de melhores condições de trabalho.

Em seus só 31 anos, fez faculdade longe da família (é bacharel em direito) e viu a casa dos pais ser desapropriada para abrir espaço para a usina. Também foi expulsa da família que não aceitou sua orientação sexual e identificação de gênero, viveu à margem, voltou.

Da faculdade à rua

Dandara saiu de casa pela primeira vez aos 17 anos. Mudou-se para Araguaína (TO) para cursar direito. Até aquele momento, vivia como um homem gay masculinizado. Ainda assim, sem a segurança de ser quem é por completo. O medo da transfobia, afinal, a impedia de enfrentar o processo de transição.

Cresci ouvindo meu pai dizer que se tivesse um filho bicha, ele mataria. A minha ida para a faculdade foi uma fuga disso, para eu poder ser eu mesma longe dali.
Dandara Rudsan

Quando se formou, em 2012, tinha planos para a carreira, mas precisou voltar para Altamira para ajudar os pais. Eles enfrentavam negociações para tentar impedir que a casa da família fosse desapropriada. "Meus pais se juntaram a outros moradores e essa união se transformou numa luta comunitária muito grande. Eu já havia tido contato com o movimento negro na adolescência, mas foi nesse momento que me enraizei", lembra.

Enquanto tentava auxiliar a família para garantir moradia, Dandara sentiu que era hora de seguir com seu processo de transição para uma mulher travesti. O pai, no entanto, não aceitou a mudança e a expulsou de casa.

"Por um ano e meio, entre 2012 e 2014, vivi em situação de rua. Cheguei a pensar que tudo tinha acabado, que, por ser uma mulher travesti, ninguém valorizaria meu diploma", afirma.

Dandara conta que atravessava o rio Xingu de balsa e passava as noites na margem onde há apenas floresta. Durante o dia, voltava para a cidade para conseguir comida. Com a mãe, só falava sem que o pai soubesse.

Em nome das mulheres negras

Em 2014, com a ajuda do movimento de mulheres negras ligado ao Centro de Formação do Negro da Transamazônica e Xingu (CFNTX), Dandara conseguiu sair da situação de rua.

Três anos mais tarde, em uma das reuniões do grupo, viu sobre a mesa um edital para captação de recursos. Decidiu, então, elaborar um projeto voltado à redução do número de pessoas encarceradas provisoriamente em Altamira. À época, havia muitos jovens moradores de assentamentos nessa situação.

"Aquele projeto mudou a minha situação e levantou o movimento. Até então, o movimento negro de Altamira era invisível e sem protagonismo", afirma.

Foi a primeira de uma série de ações para melhorar as condições das pessoas negras na região. Até setembro de 2021, Dandara já tinha conseguido aprovar 35 projetos. Além deles, ela realiza oficinas de capacitação para que as mulheres aprendam os caminhos para elaborar e aprovar suas ideias.

Foi graças a Dandara que as mulheres ligadas ao CFNTX criaram um estatuto próprio e se organizaram no Coletivo de Mulheres Negras Maria-Maria (Comunema). Ela também foi a responsável por elaborar o projeto, a partir de ideias e contribuições de todas as mulheres dos movimentos sociais, que criou o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, aprovado pela Câmara de Vereadores em setembro de 2021.

Dandara nos estimulou. Ela dizia que faltava algo para nós, que nosso corpo estava presente, mas não havia visibilidade. A gente chegava para ela com chuvas de ideias e, de repente, ela dizia que já sabia como transformar em um projeto.
Mônica Brito, coordenadora do Comunema

"Nós não constamos em nenhum relatório!"

Em 2018, Dandara sentiu a necessidade de criar o Coletivo Amazônico LesBiTrans. De acordo com ela, todos tinham se organizado para enfrentar as situações trazidas com a construção de Belo Monte, menos a população LGBTQI+, que estava invisível. "Nós não constamos em nenhum relatório. O objetivo foi gritar: nós existimos", diz.

A iniciativa conta atualmente com 134 voluntárias em Altamira e Abaetetuba. Seu objetivo é garantir os direitos da população LGBTQI+ negra da região. Juntos, LesBITrans e Comunema garantem acolhimento às mulheres vítimas de violência por meio do Nepaz. "Temos articulação com as delegacias, Ministério Público, Fundo Brasil, entre outros, que nos possibilitam encaminhar as denúncias e buscar segurança para essas mulheres", explica Dandara.

A estudante de engenharia ambiental e sanitária Filipha Gaga, 23 anos, contou com a ajuda do Nepaz para abrir um processo contra duas mulheres que a agrediram verbal e fisicamente na fila de um banco em Altamira, no ano passado. Foi a primeira ação judicial encaminhada pelo núcleo. "Eu estava na fila há quatro horas quando elas entraram na minha frente. Eu reclamei com os seguranças e fui agredida", explica. O processo ainda tramita, mas Filipha, que faz parte do LesBiTrans, diz que o coletivo a preparou para lidar com a situação.

Ela conta que a influência de Dandara mudou sua vida. Mulher travesti, Filipha saiu de casa porque a mãe não aceitou seu processo de transição. Nesse período, recorreu à prostituição para sobreviver.

Foi Dandara quem me ajudou a conseguir uma bolsa e entrar para a faculdade. Também voltei a morar com minha mãe. Sem a ajuda da Dandara, eu ainda estaria numa esquina.
Filipha Gaga, estudante

Filipha também se envolveu com as atividades do coletivo e é uma das coordenadoras do Zarabatana Info, rede de ativismo digital lançada por Dandara. Pilar de comunicação sustentado por jovens voluntárias ligadas ao LesBiTrans, o Zarabatana Info construiu e administra as redes sociais não só do coletivo, como também do Comunema e do CFNTX.

Outra conquista que Dandara faz questão de contar foi a reaproximação da família, especialmente do pai. "Hoje somos melhores amigos, ele é meu defensor", diz. Para o futuro, ela planeja fazer o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), porque acredita que pode fortalecer seu papel nos movimentos dos quais participa. Também quer fazer mestrado em antropologia social para lançar um olhar sobre mulheres em situação de rua. "Não estou mais nessa condição, mas sei como é viver assim. Essa causa é minha também", afirma.

Sobre o Prêmio Inspiradoras

O Prêmio Inspiradoras é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. São 21 finalistas, divididas em sete categorias. Além de Conscientização e Acolhimento, tem também: Inovação em Câncer de Mama, Informação para vida, Acesso à Justiça, Equidade e Cidadania, Esporte e Cultura e Representantes Avon.

Para escolher suas favoritas, basta clicar na votação a seguir. Está difícil se decidir? Não tem problema: você pode votar quantas vezes quiser. Também vale fazer campanha, enviando este e os outros conteúdos da premiação para quem você quiser. Para saber mais detalhes sobre a votação, é só consultar o Regulamento.

No mês que vem, durante dos 21 dias de enfrentamento à violência, uma série de lives com as finalistas de todas as categorias vai debater este e outros temas relacionados ao universo feminino. Dá para acompanhar as novidades no portal Universa e em nossas redes sociais.

A premiação é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. Tem foco em três principais causas: violência contra a mulher, câncer de mama e equidade de gênero.