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"Fica em casa" x "dar uma voltinha": pandemia polariza amizades

Sem entrar em acordo sobre flexibilização, amigos brigam sobre normas do "novo normal" - reklamlar/Getty Images
Sem entrar em acordo sobre flexibilização, amigos brigam sobre normas do "novo normal" Imagem: reklamlar/Getty Images
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

30/09/2020 04h00

Parece até um revival da eleição de 2018. Na internet, amigos se atacam e se sentem magoados uns com os outros. Há quem seja expulso de grupos de WhatsApp e quem decida deletar redes sociais. Passados seis meses de pandemia, estamos todos no limite. Alguns de nós resolveram dar umas voltas, expandindo isso para um tal "novo normal". Outros continuam trancados em casa, se limitando de tudo. E cada vez menos duas formas diferentes de agir conseguem se entender e conversar.

Resultado: como se não fosse o suficiente o medo do vírus e a incerteza econômica, ainda estamos brigando com nossos amigos!

Aconteceu com o jornalista Renato (o nome é fictício porque ele não quer criar mais confusão). Ele está há seis meses em casa com o marido em São Paulo. Só saiu duas vezes. Seus amigos mais próximos não têm feito o mesmo. "Briguei com a minha melhor amiga por causa disso. Agora, quando falo com ela, evito tocar no assunto da pandemia." Segundo ele, "os amigos falaram que iam se encontrar na praça, e depois virou para 'vamos todos alugar um sítio'. Renato não se conforma com o que considera falta de solidariedade e reconhecimento de privilégio. "Nós somos de classe média alta, podemos trabalhar de casa, não dá para só reclamar do governo e não fazer a sua parte, que é ficar em casa, para evitar que a epidemia se espalhe ainda mais". Renato anda afastado dos amigos, o que torna seu isolamento ainda mais difícil.

A maioria das pessoas entrevistadas para esse artigo preferiram não se identificar para não aumentar ainda mais os conflitos. Caso da farmacêutica Marcela, de 43 anos, que já foi deixada de lado de um grupo de whatsApp de amigos por causa do seu discurso pró isolamento.

"Tenho um grupo com meu marido e mais três casais de amigos, No começo da pandemia foi legal, fizemos vídeochamada, festa no zoom. No fim do lockdown, já começaram as divergências, com gente querendo se encontrar pessoalmente. Trabalho dentro de hospital, então sigo todos os protocolos. Até que um dia um amigo do grupo sugeriu "furar o isô" (isolamento). Fiquei chateada, disse que não era de forma alguma a hora de fazer isso. Resultado, fiquei sabendo que criaram um outro grupo sem eu e o meu marido." Hoje, Marcela consegue rir da situação, mas a diferença de pontos de vista não está sendo fácil. "Eu até deletei minha conta no Instagram para não ver amigos na praia, em festinhas. Estava achando muito angustiante", conta.

Sheila, engenheira de 43 anos, teve conflitos com amigas tão sérios que ela acha que "a amizade nunca será a mesma". Ela é filha de uma empregada doméstica que perdeu o emprego na pandemia. E teve que lidar com amigas reclamando da falta de domésticas durante o isolamento. "Tenho um grupo de WhatsApp com amigas de classe média. Algumas ascenderam socialmente, passaram a ter mais grana. Em abril, começaram a reclamar da falta de empregadas domésticas. Em maio, já começaram a discutir quando as empregadas iam voltar, "já que todos precisam trabalhar". Já ficou estranho. Até que em junho postaram uma foto de integrantes na piscina de uma casa de praia. Silenciei o grupo. Fiquei com muita raiva por estar fazendo tudo certo, com desespero, pensando que depois alguém iria limpar a casa.

Até hoje, ela se sente triste com o episódio. "O sentido da solidão se ampliou demais. O horror não está só entre os políticos, mas também entre nossos amigos e familiares."

"Sem orientações oficiais, precisamos fazer nossas próprias regras"

A mágoa não acontece só entre quem não aceita amigos que não fazem isolamento. No caso da editora Maria, do Rio de Janeiro, ela e o filho se contaminaram com Coronavírus no início da pandemia. "Eu não sei como peguei, só estava saindo para ir ao supermercado. Fiquei super preocupada, com medo de passar para a minha mãe. Avisei todos os meus amigos. Até que uma amiga inventou e espalhou que eu tinha me contaminado porque tinha ido a um samba, você acredita nisso?" Além de ser mentira, ela foi julgada estando doente. "Acho que ela não fez por mal, é do tipo que perde o amigo mas não perde a fofoca... mas foi insensível, né?", lembra.

Maria, agora, admite estar em outro momento em relação ao isolamento. "Já não estou mais de quarentena. Tenho pedalado e até encarado restaurante vazio, com mesa externa. Mas sempre aviso isso aos amigos que encontro", garante.

A nutricionista Aline seguiu a risca o isolamento nos 4 primeiros meses. Depois, cansada da falta de orientação do governo, resolveu fazer "as próprias regras". "Tenho dois filhos pequenos de 4 e 2 anos. Só eu sei como foi difícil manter estas crianças trancadas todo esse tempo. Hoje visito meus pais, deixo brincar com alguns vizinhos e estou programando uma viagem para um hotel que sei que segue orientações e protocolos", conta. Quando compartilhou a decisão com os amigos, ouviu que ela "só faltava ir para a praia lotada".

Aline ficou ofendida, mas resolveu não comprar briga. "Fiquei chateada porque acho que são situações bem diferentes. Sem contar que o amigo que disse isso não tem filhos e não entende o que estou passando. Mas agora preciso fazer essas coisas escondidas dele".

Desamparo geral

Quem está certo? Quem está errado? Bem, o que podemos afirmar é que todos nós estamos sofrendo. Segundo o psicanalista Paulo Beer, a falta de certezas do momento gera uma enorme angústia. "Estamos todos sem certeza de nada, não sabemos o que vai acontecer, não sabemos quando, tudo isso nos coloca em um lugar de desamparo", explica.

"Para sobreviver a essa incerteza, as pessoas criam sistemas para se defender. Se você discorda, não está discordando só de uma ideia, mas de algo muito valioso, uma crença que ela criou para se defender", diz.

Exemplo banal: "eu limpo todas as compras com álcool gel e isso me deixa calma, logo me irrito com quem diz que o que faço não tem sentido". Ou: "eu levo vida normal porque não consigo lidar com essa incerteza".

Como reagimos quando alguém bate de frente com essas maneiras que criamos? Tiramos do grupo de WhatsApp, passamos a evitar, brigamos.

Mas, bem, brigar com os amigos no meio de uma pandemia mundial, em um momento tão difícil, não parece ser uma boa ideia, né? Como fazer?

"Se a gente reconhecer que mesmo a outra pessoa que age e pensa muito diferente da gente também está angustiada, isso pode ajudar", diz o psicanalista.

"E tem mais, se a gente olhar com calma, pode ver que até alguns conselhos que são irracionais têm por trás o desejo de cuidar. Até quem fala que "todos têm que trabalhar", de certa forma, quer cuidar do outro.

O que seria mais confortante e útil? Tentar ter conversas que não sejam disputas de quem tem razão. Vamos lá. É difícil, mas a gente consegue. Lembre: todos estamos sofrendo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL