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Brigas em áreas nobres de SP e Rio: estamos à beira de um ataque de nervos

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Imagem: Reprodução Internet
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

28/09/2020 12h09

Não se fala em outra coisa. Durante o fim de semana, duas brigas, entre cidadãos "comuns", em áreas de elite do Rio de Janeiro e de São Paulo tomaram as redes sociais e os noticiários de TV. Não é sem motivo. É surreal. Estamos no meio de uma pandemia mundial: só no sábado, 869 pessoas morreram de Coronavírus no país. E, no meio desse clima sinistro, as pessoas estão brigando, saindo no tapa.

O Leblon, bairro que era famoso pelas novelas do Manoel Carlos, hoje aparece no noticiário por razões menos glamurosas, como pessoas furando o isolamento e lotando as ruas em festa, mais um show de horror.

Duas mulheres passaram de biquíni por ruas movimentadas do Leblon, em um carro conversível. Na rua, pessoas sentadas em restaurantes reagiram aos gritos de "vagabunda", "piranha". Como vândalos, os bárbaros do Leblon jogaram garrafas de plástico e copos nas mulheres. Depois disso, uma delas saiu do carro e bateu em uma das mulheres sentadas em um bar, a arquiteta Aline Araújo, uma das que teria xingado e atirado coisas nela.

O barraco continuou na internet, com Aline chamando as duas de "mulheres da vida". Bem, nenhuma mulher, seja "da vida" ou não, merece receber uma chuva de copos de plástico.

Tudo é surreal: ninguém está de máscara. Eles parecem estar em festa em uma cidade tão atingida pelo Coronavírus que cancelou o Carnaval. Ao mesmo tempo em que comentamos a treta, sabemos que os hospitais do Rio estão de novo com 85% das UTIs lotadas.

As pessoas poderiam estar em casa chorando. Mas não, elas estão fazendo um Carnaval do horror e se batendo.

No caso da briga do Rio, nós, que prezamos os direitos das mulheres, nos chocamos ao ver que mulheres são chamadas por outras de "piranha" e jogam "pedras" em mulheres de biquíni. Parecia uma cena da música Geni, do Chico Buarque, aquela que fala: "joga pedra na Geni, ela é boa de apanhar. Ela é boa de cuspir."

Não estou defendendo a atitude de reagir batendo em outra mulher. Claro que não. A impressão que dá é: as pessoas estão à beira de um ataque de nervos. É um surto coletivo.

O surto não fica menos sinistro em São Paulo, onde aconteceu o que chamaram no Twitter de "um duelo de carteiradas". Frequentadores endinheirados discutiram no Gero, um restaurante caríssimo no bairro dos Jardins (o Leblon de São Paulo). Segundo um dos participantes, o médico Carlos Iglesias, sócio do restaurante Rubaiyat (outro lugar de endinheirados) uma das causas da briga foi... uma mesa no restaurante.

Sim, enquanto todos os meus amigos estão trancados em casa, muitos em depressão porque não têm mais trabalho, existe gente frequentando restaurantes finos. Mas mesmo para os privilegiados as regras mudaram. E deve estar sendo difícil para os "meninos mimados" ouvir "não" pela primeira vez.

Os restaurantes em São Paulo estão obrigados a fechar mais cedo por causa da pandemia. Ficar sem mesa em um restaurante de luxo no meio de uma pandemia mundial (São Paulo é um dos epicentros mundiais do Coronavírus) é o auge do "problema de gente branca", mas parece ter sido uma das causas da treta. O médico protagonista da briga, Carlos Iglesias, disse que teria sido expulso do restaurante por uma das donas.

O que vimos em vídeo foram pessoas gritando: "CRM!" "CRM"! (a carteira do Conselho Regional de medicina). Quem gritava achava que alguém por ser médico é melhor ou pior que alguém? Parece que sim. No duelo do Gero, ouviu-se frases como "vou falar com a polícia, ele é o MEU delegado" (um espanto alguém achar que pode "ter" um delegado).

Mas não é só no Leblon e nos Jardins que as pessoas estão fora de si. Vez ou outra vemos cenas de violência entre cidadãos mundo afora. É um homem que bate em uma mulher porque se recusa a usar máscara. É gente jogando prateleiras de supermercado no chão por causa, de novo, da máscara. Parece que a humanidade vive um eterno dia de fúria.

Uma amiga lembrou que tinha quem achasse que iríamos melhorar com a pandemia. Pelo jeito, descemos ladeira abaixo. E sem classe alguma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL