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Volta às aulas na Europa tem máscara e classes em quarentena

Em Lisboa, Janaína, de 11 anos, vai à escola de máscara e os colegas são divididos em bolhas - Acervo pessoal
Em Lisboa, Janaína, de 11 anos, vai à escola de máscara e os colegas são divididos em bolhas Imagem: Acervo pessoal
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

22/09/2020 04h00

No Brasil, um dos países com mais casos de Coronavírus do mundo, a volta às aulas ainda é um assunto que rende brigas e discussões acaloradas. Na Europa, onde os casos de Coronavírus tiveram uma grande diminuição por volta de maio (e agora voltam a subir de maneira muito preocupante) crianças na escola no meio da pandemia já são uma realidade. Até agora, as autoridades não conectam a volta às aulas com o aumento de casos.

Na maioria dos países europeus, as aulas voltaram em agosto, depois das férias de verão. As crianças ficaram sem aula por cerca de seis meses. Hoje, as máscaras são obrigatórias e as escolas tentam se adaptar a essa nova realidade com distância social e outras medidas.

"A escola da minha filha é uma escola privada muito boa, por isso, fizeram um trabalho que é até referência no país", conta a terapeuta Daniela de Paula, que mora em Lisboa com a filha Janaína, de 11 anos. "Eles mandaram antes do começo das aulas todo o protocolo, as crianças foram divididas por "bolhas": grupos de colegas com os quais elas podem interagir. O recreio é dividido por crianças e as carteiras foram colocadas com distância social. A professora também não deve ter contato físico com os alunos e todos usam máscara, até durante as aulas." Segundo ela, a volta não causou apreensão na família. "Eu confiei neles. Acho que Portugal está agindo bem durante a pandemia, mas sei também que minha filha é privilegiada por estudar nessa escola. Mesmo assim, acho que as aulas provavelmente serão interrompidas de novo se os casos aumentarem. Temos que viver um dia de cada vez", diz. A principal mudança foi no transporte. Antes, Janaína ia para a aula de no transporte coletivo para alunos da escola, hoje, o pai leva e busca todos os dias.

No Reino Unido as aulas voltaram há três semanas. A jornalista Malu Cavalcanti, mãe de Vicente, de 12 anos, também não sentiu medo de mandar o filho novamente para a escola. "Fico mais preocupada com o fato de ele ter que pegar metrô do que com a escola", conta. A escola de Vicente, também particular, fez mudanças para tempos de pandemia. A hora de entrada e de saída mudaram, para que apenas um grupo menor de crianças se encontrasse e, assim, evitar aglomerações. Eles precisam usar máscara nos corredores e pátio. E cada um passou a ter a sua mesa marcada, todas viradas para a frente e com distância social.

Malu ficou aliviada com a volta às aulas. "Estou achando ótimo e ele também. Por mim é mais porque quero que ele encontre os amigos e continue seus estudos. Em casa, ele não estava fazendo muito. Na escola ele rende muito, adora fazer perguntas, participar, mas ele odeia estudar em casa, sempre foi assim", conta.

Classe em quarentena

Na escola da alemã Eske Harders, 13 anos, as aulas voltaram aos poucos. Ainda em junho, a estudante de Berlim passou a ir ao ginásio público onde estuda duas vezes por semana, e por menos tempo. As turmas foram divididas em grupos menores e o resto do estudo foi feito em casa. Em agosto, ela voltou a ter aulas todos os dias.

Todos os estudantes têm que usar máscaras no corredor e no pátio, todas as janelas ficam abertas. Alguns professores exigem o uso de máscara também dentro da classe. O que no início pareceu exagerado, se provou ser bom. Isso porque na primeira semana de aula uma estudante da escola foi diagnosticada com Coronavírus. Por dois dias, toda a escola ficou sem aula. Depois, todos os alunos que tiveram contato com a estudante ficaram de quarentena até o resultado sair.

"Me sinto segura na escola, sim, os professores mantém distância social e são muito duros no requisito da máscara. Quem tiver sem ou tem que ir na secretaria comprar uma ou ir embora para casa. Também devemos manter distância social de um metro e meio de cada um, o que, claro, não funciona muito bem porque somos muitos."

Apesar da sensação de segurança e de gostar da escola, Eske acha que a decisão de voltar às aulas é no mínimo complicada. "Não entendo porque temos que ir para a escola quando há uma pandemia mundial. Por que devemos ir à escola com centenas de pessoas, todas de famílias diferentes? Isso pode fazer o vírus espalhar, ainda mais porque essas crianças que estavam trancadas vão pegar metro. A única razão para as voltas às aulas que eu vejo é o fato de algumas crianças virem de ambientes complicados, onde a escola é o único lugar seguro para elas." Dá para discordar?

P. S. A qualquer momento, com o aumento do número de casos, as aulas podem ser suspensas de novo. Depende do país. Normal mesmo só depois da vacina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL