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"A Fazenda" é recorde de audiência: vemos por entretenimento ou sadismo?

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

25/09/2020 04h00

"Eu queria jogar um balde de água na sua cara!"

"Se fizer isso, se prepare para acordar cheia de bosta na cara".

O diálogo "super civilizado" foi mostrado no programa sensação do momento: "A Fazenda 20", exibido na TV Record. Essa não foi a única cena de baixaria, muito pelo contrário. O programa começou há três semanas e já tem batido recorde de tretas, palavrões, agressões, abusos.

Em outro momento, um homem (Lucas Maciel) grita com uma mulher (Raissa Barbosa): "para de gritar, c*)". Enquanto eles discutem, outra participante parece estar em surto sacode uma toalha em frente à câmara, até que Jojo Toddynho aparece e resolve a treta empurrando os participantes e dizendo: "vai tomar no c.* !"

Horrível, não é? Pois o programa é um sucesso de audiência. Na terça-feira, colocou a Record como líder em três capitais do Brasil. Assim como aconteceu com o BBB20, essa versão do reality tem tudo para bater recordes de telespectadores. Como pode?

Alguns jornalistas chamam isso de entretenimento. Pode ser, mas algumas vezes, parece que assistir a esse tipo de horror, brigas, baixarias e pessoas doentes está mais para sadismo.

Eu não estou julgando ninguém, não. Longe de mim. Durante a pandemia, me viciei no reality The Real Housewives of Beverly Hills. Não me orgulho disso.

Mas parece óbvio que, em tempos de medo, incerteza, trancados em casa, a gente passe a ter prazer em assistir outras pessoas trancadas - e em situação pior que a nossa. E daí venha esse sucesso estrondoso dos realities em épocas de confinamento. Se existisse um canal só com esse tipo de programa, provavelmente ele seria um sucesso (e talvez eu também assistisse).

Trancados em casa, brigando com quem mora com a gente e muitas vezes lutando diariamente para manter a sanidade (e falhando muitas vezes) talvez a gente se sinta aliviado ao ver que tem gente em situação ainda mais deplorável.

E, nesse ponto, de mostrar "o horror", A Fazenda está mesmo arrasando, e tem levado os problemas que enfrentamos dentro de nossas casas durante a pandemia para outra dimensão.

Saúde mental

Um dos problemas da pandemia é agravamento dos problemas psicológicos. Pois bem, em A Fazenda, existe uma participante não medicada, a Raissa Maciel, que sofre de transtorno borderline e teve uma grande crise ao vivo. Desde quando é legal ver alguém em surto? O que nos leva acompanhar isso. Só pode ser sadismo mesmo.

Outro problema da pandemia é o aumento dos casos de violência contra mulher. E, para preencher esse campo, "A Fazenda" tem o participante Biel, que é acusado de já ter batido em uma namorada e assediado uma jornalista. Na edição, ele já deu show de horror julgando o corpo de Jojo Toddynho.

Com o amigo Cartolouco (que também é acusado de assédio fora de "A Fazenda") eles fizeram um plano contra Jojo que incluía vomitar em suas coisas e "mijar no baú dos outros". Segundo eles, isso seria "lendário".

Em uma das cenas mais horríveis da edição do programa, Raissa joga água em Biel. Depois disso, em crise, soca um travesseiro e se tranca no banheiro, onde grita. Triste.

Ao comentar o fato, Biel, com seu histórico, diz: "se eu tenho culhão para tacar um copo d'água na cara de alguém, eu tenho mais ainda para dar um murro e desmaiar".

Que entretenimento é esse?

O programa tem menos de um mês, mas tem grandes chances de bater os recordes de uma das edições mais terríveis e de grande sucesso: "A Fazenda 6", no qual participantes como Andressa Urach literalmente cuspiam um nos outros. Não falta muito para isso acontecer nessa edição, o que deve aumentar ainda mais a audiência.

A emissora de TV e os anunciantes agradecem ao surto de neurose coletiva...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL