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Helton Simões Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Faxina do Twitter' mostra fama inflada de bolsonaristas e Bolsonaro pop

Helton Simões Gomes

Jornalista com mais de 10 anos de experiencia na cobertura de ciência e tecnologia, com passagens por Folha, Band e TV Globo. Vencedor do prêmio CNI de Jornalismo de 2013.

Colunista de Tilt

20/06/2021 04h00

A faxina que o Twitter promoveu nesta semana para tirar perfis suspeitos de serem robôs ou spam deixou muita gente com o rabo descoberto. Figuras expressivas da política nacional reclamaram de ter perdido milhares de usuários, caso do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que exagerou duas vezes. Na primeira, disse ter visto 15 mil seguidores virarem pó. Na outra, exigiu que o governo federal editasse uma medida provisória para conter "abusos" das grandes empresas de tecnologia.

Apesar da reclamação de perseguição ideológica do parlamentar, a limpa atingiu inclusive usuários comuns. Um levantamento feito pela consultoria Quaest a pedido de Tilt mostrou, no entanto, que políticos governistas viram seu séquito de fãs minguar com mais intensidade. Mas essa queda não atingiu o presidente Jair Bolsonaro. Tudo isso fez especialistas tirarem algumas conclusões, sobretudo sobre como o engajamento e a reputação digital é construída na internet.

Quem é tuiteiro há mais tempo do que a vida útil da última hashtag a liderar o trending topcis sabe que vira e mexe rola um expurgo. Nessa, rodam contas não operadas por humanos. Esses perfis não são pouca coisa, mas sua quantidade é incerta. Até mesmo o Twitter admite não saber quantos são, mas estima que podem chegar a 5% de seus 199 milhões de usuários diários. Não se sabe se todas essas contas foram para a geladeira. Certo mesmo é que foram aquelas que:

  • Tuitam grandes volumes de respostas ou menções a contas que não as seguem, além de postar links enganosos. Isso indica que são meras replicadoras de conteúdo falso ou trampolins para assuntos bombarem. Outros indicativos são
  • ...Ter um grande número simultâneo de pessoas bloqueadas ou muitas menções àquela conta. Isso denota um comportamento automatizado. Além disso...
  • ...São flagrados perfis com e-mail e senha que estejam em grandes vazamentos de dados. Algum espertinho pode ter usado essas credenciais comprometidas para criar um exército de contas falsas. Bom ter em mente que...
  • ... Nenhum desses fatores é analisado de forma isolada. Acontece que...
  • ...A parcela de seguidores excluídos não foi tão grande quanto a alardeada. Eduardo Bolsonaro perdeu apenas 2.625 entre 7 e 14 de junho, não 15 mil, enquanto Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação, perdeu 7.716, não os mais de 10 mil que alegou. Segundo a Quaest...
  • ...O tombo entre os governistas foi feio, algo que os oposicionistas não saborearam -- alguns até ganharam seguidores. Esse salto também ocorreu com o presidente Bolsonaro, que elevou em 5.719 sua base digital para 6,8 milhões.

Nas redes sociais, quanto mais seguidores, maiores as chances de fazer um assunto viralizar. Para a Quaest, não é bom sinal políticos apoiadores do governo perderem fãs digitais justamente quando o Twitter faz um limpa de contas automatizadas e que espalham spam.

É uma evidência muito forte de que um grupo está usando meios artificiais para construção de reputação digital, enquanto o outro não. As contas de oposicionistas não são afetadas pela auditoria, mas quase todas as contas ligadas ao governo que estavam no nosso monitoramento sofreram perdas
Felipe Nunes, fundador da consultoria e professor de Ciência Política da UFMG

Os números, porém, não permitem que a conclusão para bolsonaristas se estenda a Bolsonaro. Aqui entra outro fator. O presidente é o político que lidera um indicador criado pela Quaest para medir reputação na internet, o Índice de Popularidade Digital. Com escala de 0 a 100, o IDP avalia seis indicadores nas plataformas Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, Wikipedia e Google:

  • fama (número de seguidores),
  • engajamento (curtidas e comentários em cada post),
  • mobilização (compartilhamento das publicações),
  • valência (reações positivas e negativas aos conteúdos),
  • presença (número de redes sociais em que há atuação);
  • e interesse (buscas no Google, YouTube e Wikipedia).

Desde janeiro de 2019, Bolsonaro lidera e só foi tirado do topo pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante breve período em março deste ano, quando o ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal), anulou as condenações do petista na Lava Jato.

A avaliação é que Bolsonaro é tão popular porque faz coisas na vida real que repercutem no mundo digital. Exemplo disso foi a motociata em São Paulo, cujo quórum foi estimado inicialmente em 12 mil motos, mas que, na verdade, chegou a apenas 6.661. Ainda assim, mentirosos disseram ter por lá mais de 1,3 milhão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL