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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ranking dos anos 90: São Paulo dominou concorrência em década 'paulista'

Final do Campeonato Paulista de 1992 entre São Paulo e Palmeiras (Divulgação/Site Oficial) - Reprodução / Internet
Final do Campeonato Paulista de 1992 entre São Paulo e Palmeiras (Divulgação/Site Oficial) Imagem: Reprodução / Internet
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

22/03/2021 04h00

No atual século, tivemos a primeira década com Inter e São Paulo como grande dominadores e, na segunda, o Corinthians, seguido de Flamengo e Palmeiras. Quando voltamos aos anos 90, a última década do século passado, encontraremos um enorme equilíbrio e grandíssimo nível. Se os grandes campeões dos últimos 20 anos ficam apenas na memória de seus torcedores, quando voltamos no tempo nos deparamos com uma situação muito diferente.

Não é necessário ser são-paulino para admirar e escalar o São Paulo de Telê Santana. Não é preciso ser palmeirense para lembrar dos timaços montados e dirigidos por Luxemburgo e, depois, Felipão. Acabo de citar aqui três dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro, que dominaram a década de 90 - os últimos dois chegariam à seleção brasileira e aos holofotes na Europa, traçando roteiros diferentes.

Não é necessário ser vascaíno para se lembrar da força daqueles times de Edmundo, Romário, Juninho. Tampouco é necessário ser corintiano para ter viva na memória a década de Marcelinho Carioca, que depois seria coadjuvante em uma máquina alvinegra na virada do século. E como não se lembrar daqueles Grêmios de Scolari, Arce, Paulo Nunes e tantos outros? Ou dos fortíssimos times do Cruzeiro, de Dida e Marcelo Ramos?

Foi no meio dos anos 90 que a Lei Bosman e o fim das fronteiras europeias para trabalhadores comunitários mudaram o desenho do futebol global. A partir dali, há mais ou menos um quarto de século, os clubes europeus passaram a se transformar em seleções multinacionais. E o Brasil, que perdia apenas um punhado de craques para a Europa, começou a perder jogadores de altíssimo, alto, médio e até baixo níveis.

Os anos 90 são nosso canto do cisne em termos de qualidade. Os melhores times brasileiros eram tão bons quanto ou melhores do que os europeus. E é por isso, também, que estes grandes times ficaram em nossa memória. Eram tempos de Brasileirão com mata-mata, jogos históricos, grandiosos, que o país parava para ver - nada a ver com a cultura atual de assistir somente ao próprio time. Os Estaduais ainda ocupavam metade do calendário e tinham um peso enorme.

Foi uma década em que o trio-de-ferro paulista abocanhou a maioria dos grandes títulos. O São Paulo, bi da Libertadores e Mundial, mudou a percepção nacional sobre a importância de ganhar tais títulos, que antes eram meio que negligenciados. Até a Conmebol de 94, disputada com o "Expressinho" de Muricy, caiu para o lado do São Paulo.

Com o aporte financeiro da Parmalat, o Palmeiras quebrou o jejum de 17 anos sem títulos e voltou a viver anos de glória. No meio de tudo isso, o Corinthians conseguiu desafiar os dois grandes rivais no âmbito local (Paulistas) e encerrou a década hegemônico, ganhando dois Brasileiros e a primeira edição ampliada do Mundial de Clubes da Fifa - sem, no entanto, ganhar a Libertadores.

Santos e Portuguesa chegaram a finais de Brasileiro e ficaram muito próximos do título em 95 e 96, respectivamente. Foram também semifinalistas em 98. Na segunda metade da década, o Santos quebrou um jejum de 13 anos sem conquistas e a Lusa bateu na trave diversas vezes entre Paulistas e Brasileiros. Guarani e Bragantino (este finalista em 91) também fizeram bons Brasileiros, o que mostrava a força do futebol paulista naqueles anos.

Dito tudo isso, Vasco, Grêmio e Cruzeiro conseguiram uma enorme fatia deste bolo, fazendo grandes e históricos duelos principalmente contra Palmeiras e Corinthians em diversas competições. Em 1996, o Palmeiras tinha, no primeiro semestre, possivelmente o melhor time que eu já vi jogar no Brasil. Mas aquele esquadrão perdeu a Copa do Brasil em casa para um Cruzeiro heróico.

A década teve também Flamengo e Botafogo conquistando o Brasileiro, ainda que o futebol do Rio tenha visto algumas campanhas pífias dos grandes e os rebaixamentos do Fluminense, que acabaria na Série C.

Atlético-MG e Inter ficaram à sombra de Cruzeiro e Grêmio, mas levantaram alguns troféus relevantes, além de fazer frente em seus respectivos Estaduais e terem algumas boas campanhas nacionais. Os anos 90 tiveram também domínios locais marcantes de Vitória (que fez uma final e uma semi de Brasileiro), Sport e do Paraná Clube, que surgiu com força, mas depois murchou. E, em 99, o Athlético-PR conseguiria o "título" de uma seletiva que lhe daria a primeira vaga da história do clube na Libertadores - como sabemos, virou figurinha carimbada nas décadas seguintes. Era só o começo.

Além da Libertadores, a Conmebol organizou um sem fim de competições internacionais. Algumas tinham participantes fixos, em função de títulos sul-americanos anteriores, outras tinham critérios diferentes. No fim, Conmebol, Mercosul, Supercopas ganhavam relativa importância pois confrontavam grandes clubes do Brasil e, repito, em uma época em que os times eram muito bons. Mas não chegavam nem perto da importância que era dada ao título estadual. Destas todas, a Conmebol era a mais relevante, pois a classificação se dava em função do desempenho no Brasileiro e na Copa do Brasil.

#1 São Paulo
2 - Intercontinentais (1992 e 1993)
2 - Copas Libertadores (1992 e 1993)
1 - Campeonato Brasileiro (1991)
4 - Paulistas (1991, 1992, 1998 e 2000)
1 - Copa Conmebol (1994)
2 - Recopas Sul-Americanas (1993 e 1994)
1 - Supercopa da Libertadores (1993)
1 - Vice Libertadores (1994)

#2 Palmeiras
1 - Copa Libertadores (1999)
2 - Campeonatos Brasileiros (1993 e 1994)
1 - Copa do Brasil (1998)
3 - Paulistas (1993, 1994 e 1996)
1 - Copa Mercosul (1998)
1 - Copa dos Campeões (2000)
2 - Torneios Rio-São Paulo (1993 e 2000)
1 - Vice Libertadores (2000)
1 - Vice Brasileiro (1997)

#3 Corinthians
1 - Mundial (2000)
2 - Campeonatos Brasileiros (1998 e 1999)
1 - Copa do Brasil (1995)
3 - Paulistas (1995, 1997 e 1999)
1 - Supercopa do Brasil (1991)
1 - Vice Brasileiro (1994)

#4 Vasco
1 - Copa Libertadores (1998)
2 - Campeonatos Brasileiros (1997 e 2000)
4 - Cariocas (1992, 1993, 1994 e 1998)
1 - Copa Mercosul (2000)
1 - Torneio Rio-São Paulo (1999)

#5 Grêmio
1 - Copa Libertadores (1995)
1 - Campeonato Brasileiro (1996)
2 - Copas do Brasil (1994 e 1997)
4 - Gaúchos (1993, 1995, 1996 e 1999)
1 - Recopa Sul-Americana (1996)
* rebaixamento - 1 (1991)

#6 Cruzeiro
1 - Copa Libertadores (1997)
3 - Copas do Brasil (1993, 1996 e 2000)
5 - Mineiros (1992, 1994, 1996, 1997 e 1998)
1 - Recopa Sul-Americana (1998)
2 - Supercopas da Libertadores (1991 e 1992)
1 - Copa Centro-Oeste (1999)
1 - Vice Brasileiro (1998)

#7 Botafogo
1 - Campeonato Brasileiro (1995)
1 - Carioca (1997)
1 - Copa Conmebol (1993)
1 - Torneio Rio-São Paulo (1998)
1 - Vice Brasileiro (1992)

#8 Flamengo
1 - Campeonato Brasileiro (1992)
4 - Cariocas (1991, 1996, 1999 e 2000)
1 - Copa Mercosul (1999)

#9 Atlético-MG
4 - Mineiros (1991, 1995, 1999 e 2000)
2 - Copas Conmebol (1992 e 1997)
1 - Vice Brasileiro (1999)

#10 Santos
1 - Copa Conmebol (1998)
1 - Torneio Rio-São Paulo (1997)
1 - Vice Brasileiro (1995)

#11 Internacional
1 - Copa do Brasil (1992)
4 - Gaúchos (1991, 1992, 1994 e 1997)

#12 Juventude
1 - Copa do Brasil (1999)
1 - Gaúcho (1998)
1 - Série B (1994)

#13 Criciúma
1 - Copa do Brasil (1991)
4 - Catarinenses (1991, 1993, 1995 e 1998)

#14 Vitória
6 - Baianos (1992, 1995, 1996, 1997, 1999 e 2000)
2 - Copas do Nordeste (1997 e 1999)
1 - Vice Brasileiro (1993)

#15 Sport
8 - Pernambucanos (1991, 1992, 1994 e 1996 a 2000)
2 - Copas do Nordeste (1994 e 2000)

#16 Portuguesa
1 - Vice Brasileiro (1996)

#17 Paraná Clube
6 - Paranaenses (1991 e 1993 a 1997)
1 - Série B (1992)

#18 Athlético-PR
2 - Paranaenses (1998 e 2000)
1 - Série B (1995)
1 - Seletiva para Libertadores (1999)

#19 Bragantino
1 - Vice Brasileiro (1991)

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CLIQUE ABAIXO PARA VER O RANKING DE CADA DÉCADA DO FUTEBOL BRASILEIRO:

DÉCADA DE 40
'Expresso da Vitória' do Vasco e São Paulo de Leônidas marcaram época

DÉCADA DE 50
Grandes pulverizam títulos e futebol do Brasil começa a ganhar o mundo

DÉCADA DE 60
Santos foi o maior quando éramos os maiores

DÉCADA DE 70
Inter domina início da "era nacional" do futebol

DÉCADA DE 80
Flamengo rompe fronteiras e ganha o mundo

DÉCADA DE 90
São Paulo supera concorrência em década 'paulista'

DÉCADA DE 00 (ANOS 2000)
Inter brilha na Libertadores e supera o São Paulo, tri brasileiro

DÉCADA DE 10
Corinthians campeão do mundo; brasileiros dominam Libertadores

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL